sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Hélio Schwartsman - O anarquismo que funciona, FSP

 O procurador Cléber Eustáquio Neves, do MPF-MG, ingressou com ação civil pública contra a Rede Globo por suposto erro reiterado na pronúncia da palavra "recorde". O parquet cobra da emissora uma indenização não inferior a R$ 10 milhões por alegada lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa. No entender do fiscal da lei, a prosódia "correta" do termo é "reCOrde" (paroxítona) e não poucos locutores da Globo pronunciam "REcorde" (proparoxítona).

É o tipo de iniciativa que me faz perguntar se servidores públicos de fato dedicam seu tempo de trabalho a serviço do público. Já extrapolando um pouco, penso que um Catão moderno poderia usar episódios desse jaez para construir um argumento definitivo contra os penduricalhos nas carreiras jurídicas.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro veste terno cinza, camisa branca e gravata roxa, posicionado em estúdio de telejornal com fundo azul e letras vermelhas.
Cesar Tralli, apresentador do Jornal Nacional, que teve pronúncia de palavra questionada por procurador de Minas Gerais - Reprodução/Globo

Por mais que me esforce não consigo ver méritos jurídicos nem linguísticos na empreitada. Mesmo reconhecendo que a Carta impõe a concessionários de TV aberta certas obrigações relativas ao conteúdo da programação, não vislumbro no arcabouço legal brasileiro nada remotamente semelhante a um dever de obedecer a gramáticos prescricionistas.

Que me perdoem meus amigos da Academia Brasileira de Letras, mas, entre a língua viva das ruas e as recomendações do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), cada um é livre para escolher a forma que preferir ou até criar seu próprio idioleto. Desde que o falante se faça compreender, ninguém perde nada. Idiomas são a prova de que a autogestão pode funcionar. Milênios antes de nascer o primeiro gramático prescricionista, grupos humanos já se organizavam para manter línguas, todas elas munidas de gramáticas completas, que lhes permitiam comunicar qualquer ideia concebível e algumas inconcebíveis.

As regras inventadas por acadêmicos servem para marcar distinções sociais, mas não tornam o idioma melhor nem mais hígido.

Em suma, ninguém tem autoridade para legislar sobre a língua. É o fenômeno da linguagem que me permite manter vivas minhas simpatias naturais pelo anarquismo.

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