A controvérsia levantada pelo caso de Natalia Beauty —que defendeu em sua coluna nesta Folha mandar a inteligência artificial escrever por ela— vai ser, a médio prazo, a menor das nossas preocupações.
Por mais importante que seja debater o que constitui a autoria, tanto no mundo jornalístico como no editorial ou no acadêmico, a IA generativa apresenta um desafio ainda maior à nossa espécie.
No caso do jornalismo, a questão deve se sedimentar em poucos anos. Como é difícil imaginar um modelo de negócio em que empresas de comunicação consigam cobrar por textos que qualquer pessoa poderia gerar sozinha em casa, algum código de ética promete se impor.
Não é coisa simples de fazer. Há uma diferença ululante entre encomendar ao ChatGPT trinta linhas sobre um tema e publicá-las —ou usar a IA para pesquisar sobre esse tema, ler aquilo criticamente, peneirar alucinações e escrever trinta linhas com a própria cabeça.
No primeiro modo de interação com a máquina, o resultado é um texto genérico; no segundo, um texto particular. No primeiro, mediania de expressão, tendência ao já dito —ou falsidade, se o robô aloprar. No segundo, a possibilidade de uma fagulha no entrechoque de palavras, quem sabe de luz nova sobre algum aspecto do mundo.
Isso se deve a uma limitação estrutural dos Large Language Models (LLMs). Eles não lidam com o problema, mas, de modo estatístico, com as palavras um dia usadas para lidar com o problema. Sua resposta é uma pasta sintética de linguagem, não a expressão de um pensamento real.
Se os dois modos de uso da IA na escrita profissional não se confundem, há incontáveis tons de cinza entre eles. Destrinchar essa paleta é a missão dos códigos de ética futuros.
Naquela parte —não pequena— da massa textual jornalística que tem puro valor informativo e prescinde da ideia de autoria, a lógica econômica aponta para a adoção em massa do primeiro modo, com o trabalho humano limitado ao de filtrar as cascatas.
Quando se exigir alguma medida de autoria, pensamento original ou responsabilidade testemunhal, é improvável que o jornalismo abra mão do texto produzido artesanalmente. Seria perder de 7 a 1 com sete gols contra.
Nada disso, contudo, vai importar tanto assim se a humanidade terceirizar toda a sua escrita para a IA. Sendo a espécie que inventou o elevador e o controle remoto, será uma surpresa se não fizermos exatamente isso.
Desaprendendo a trabalhosa escrita —consequência inapelável dessa escolha—, teremos perdido em duas gerações o domínio da tecnologia em que se basearam milhares de anos de produção e acumulação de conhecimento e pensamento crítico.
Para quem não souber escrever, a IA não poderá ser "ferramenta" de escrita. Troque-se escrita por qualquer outra atividade e a frase permanecerá válida. Nunca houve um projeto humano que tivesse, nem de longe, tamanho poder de alienação.
O ser humano ideal das empresas de IA é aquele que só faz o que o robô manda e continua se achando agente. E ainda nem falamos do custo ambiental apocalíptico da bagaça.

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