quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Mauricio Stycer - Os protestos estão sendo televisionados -FSP

 A performance de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl no último domingo (8) será lembrada como um dos grandes momentos de crítica a um governo que lida muito mal, não raro de forma belicosa, com opiniões contrárias.


Antes de prosseguir, vale reiterar que o evento, incluindo toda a repercussão posterior, deixou mais uma vez explícito o lugar que a velha televisão ainda ocupa como ferramenta de comunicação ultrapopular e o seu potencial como arma política.

O jogo decisivo da liga de futebol americano, a NFL, é transmitido em sistema de rodízio pelas quatro grandes redes de televisão do país. Em 2026, coube à NBC e nos próximos três anos será exibido, nesta ordem, por ABC, CBS e Fox.

Artista vestido de branco está em pé no teto de uma caminhonete antiga durante apresentação ao ar livre. Ao redor, dançarinos e músicos se movimentam, enquanto grande público assiste ao evento em estádio ou arena.
Bad Bunny no show no intervalo do Super Bowl, no estádio Levi, em Santa Clara (Califórnia) - Mike Blake - 8.fev.26/Reuters


Além de sempre registrar a maior audiência da TV americana, a final é também o evento mais lucrativo do ano. O Super Bowl de 2026, na NBC, teve uma média de 124,9 milhões de telespectadores, um pouco abaixo da transmissão do ano passado, na Fox, que atraiu uma média de 127,7 milhões de pessoas.

A apresentação de Bad Bunny, falada quase inteiramente em espanhol, louvando a cultura latino-americana, trazia uma mensagem aparentemente pueril num painel ao fundo: "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor". Depois de citar os nomes de mais de duas dezenas de países das Américas, segurando uma bola de futebol americano, o cantor disse uma única frase em inglês: "Juntos, somos a América".


Nada mais sintomática foi a reação do presidente Trump sobre a apresentação: "Absolutamente terrível, uma das piores de todos os tempos". Também disse que foi "uma afronta à grandeza da América" e que "ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo".

Uma semana antes, ao vencer o Grammy, o rapper havia sido bem mais explícito na crítica à violenta política governamental de combate à imigração ilegal no país: "Fora ICE (sigla do serviço de imigração e controle de fronteiras). Não somos selvagens, animais ou alienígenas. Somos seres humanos e somos americanos", disse o cantor ao receber o prêmio da indústria musical.


Artista mais tocado do mundo no ano passado segundo o Spotify, Bad Bunny foi anunciado em setembro de 2025 como a atração do show do intervalo do Super Bowl 2026. Pouco depois, uma organização conservadora americana, Turning Point USA, informou que iria produzir um "show do intervalo alternativo".

O evento, descrito como uma opção de entretenimento que celebrava "a cultura americana, a liberdade e a fé", foi exibido em plataformas de streaming no mesmo momento da apresentação do cantor porto-riquenho na NBC. O elenco, formado por artistas que apoiam Trump, tinha como principal atração o cantor Kid Rock. O show foi um tributo ao ativista Charlie Kirk, assassinado no ano passado, que fundou a entidade em 2012.

Por seu caráter divisionista, o evento musical trumpista me lembrou um fato polêmico, ocorrido em 4 de outubro de 2018, no Brasil. Na ocasião, a Record exibiu uma entrevista exclusiva com o então candidato à presidência Jair Bolsonaro no mesmo momento em que a Globo apresentava o último debate eleitoral com outros sete candidatos. O PT questionou a Record por suposto favorecimento a Bolsonaro, mas o TSE arquivou a ação no ano seguinte.

A apresentação de Bad Bunny no intervalo do jogo teve uma média de 128,2 milhões de telespectadores, superior à audiência total da partida. A crítica ao governo americano ganhou, com o show do cantor porto-riquenho, uma imagem definitiva. Enquanto houver registros dos protestos há esperança.

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