terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A guerra do fim do mundo


Se você se preocupa com crianças, saúde, pobreza, agricultores, comida, fome, pense em 2013 como o ano zero da luta contra as mudanças climáticas - luta na qual só vale ganhar tudo, ou tudo perder


REBECCA SOLNIT É JORNALISTA, ATIVISTA, AUTORA DE 13 LIVROS. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA A REVISTA AMERICANA THE NATION - O Estado de S.Paulo
REBECCA SOLNIT
Enquanto este ano conturbado chega ao fim, está de volta a temporada dos presentes. O presente que não vamos receber tão cedo é uma versão convencional do paraíso, aquele lugar onde não acontece nada de interessante e nada se exige de nós. Os presentes que já recebemos em 2012 incluem uma briga sobre o destino da Terra. Talvez não seja exatamente o que pedimos, e gostaria que não fosse assim - mas fazer um bom trabalho, ser necessário, ter algo para dar, esses são os verdadeiros presentes. E há ainda uma luta diante de nós, não apenas apocalipse e desespero.
Pensemos em 2013 como o ano zero da batalha sobre a mudança climática, na qual ou ganhamos de lavada ou perdemos feio. É terrível dizer isso, mas não tão terrível quanto os vídeos mostrando glaciares desaparecendo, a capa de gelo da Groenlândia derretendo, os mapas do futuro da Europa no qual estar no sul do continente durante o calor será catastrófico, sem falar das zonas equatoriais.
Durante milhões de anos, este mundo foi uma dádiva maravilhosa para todo ser que vivia nele, um planeta cuja atmosfera, temperatura, ar, água, estações e meteorologia estavam calibrados precisamente para permitir que nós - os seres humanos, as florestas e os oceanos, todas as espécies grandes e pequenas - prosperássemos. Ou ao contrário, éramos nós que estávamos calibrados para suas condições generosas, até mesmo abundantes. E essa dádiva agora está sendo destruída em benefício de alguns membros de uma única espécie.
A Terra que evoluiu para que a habitássemos está se tornando algo turbulento e pouco confiável, num ritmo excessivamente acelerado para que a maioria dos seres vivos possa se adaptar a ele. Isso significa que estamos perdendo pontos cruciais de nossa dádiva mais insubstituível e sublime, e alguns de nós estão sofrendo essa perda neste momento - do caramujo do mar cuja concha se dissolve nos oceanos acidificados aos cavalos que morrem de fome porque secas devastadoras tornam proibitivo o preço do feno, passando pelos agricultores bolivianos que pedem falência porque as geleiras que regavam seus vales vêm derretendo aceleradamente.
Esse não é só um problema para ambientalistas que amam espécies raras e lugares remotos: se nos preocupamos com as crianças, a saúde, a pobreza, os camponeses, os alimentos, a fome ou a economia, não temos escolha senão nos preocuparmos com a mudança climática.
As razões que nos obrigam a agir podem ser sombrias, mas poder lutar é um presente e uma honra. O que a luta nos dará em troca é entendimento, propósito, esperança, autoaperfeiçoamento e satisfação de ser parte de futuras vitórias. Mas o significado de vencer precisa ser imaginado numa escala inteiramente nova diante das notícias assustadoras que nos chegam.
"Infeliz é a terra que precisa de um herói", diz Galileu na peça de Bertolt Brecht sobre o cientista apóstata. Mas pelo menos o herói pode fazer algo a respeito da infelicidade, como fez o Sierra Club, que ajudou a impedir a instalação de 168 indústrias poluidoras movidas a carvão e levou à aposentadoria outras 125. O objetivo de sua campanha "Além do Carvão" é neutralizar as 522 indústrias do gênero existentes nos Estados Unidos, o que seria um triunfo colossal.
Vitórias semelhantes também compreendem o que não foi feito de nossas dádivas verdes: regiões que não foram devastadas pela técnica de fraturamento hidráulico, usinas a carvão que não foram abertas, montanhas que não foram dinamitadas por mineradoras, crianças que não tiveram asma ou envenenamento por emissões de carvão - o carbono que permaneceu na Terra e nunca conseguiu chegar à atmosfera.
O oleoduto Keystone XL, que levaria o poluente petróleo sintético do Canadá para a costa do Golfo, já teria sido aberto se não fossem os ativistas que circundaram a Casa Branca. No leste do Texas, ações extraordinárias em termos de desobediência civil vêm ocorrendo incessantemente desde agosto. Três militantes este mês penetraram por um bom trecho no oleoduto de um metro de largura e se recusaram a sair. As pessoas impedem com os corpos a passagem de equipamento pesado e vão para a cadeia na tentativa de impedir que o oleoduto seja construído. Muitas delas são do mesmo tipo de gente jovem e forte que ficou nos acampamentos do Ocupe, no início de 2012, mas bisavós, velhos e pessoas de meia-idade como eu também têm se mostrado ativas.
Nesse meio tempo, na Colúmbia Britânica, onde os especuladores do oleoduto procuravam rotas alternativas para transportar seus produtos destruidores da atmosfera para o exterior, membros da nação Wet'suwet'en desalojaram os inspetores e declararam gentilmente guerra a eles. Em Ohio, e em Nova York, a guerra contra o fraturamento hidráulico está se intensificando. A França proibiu esse método de perfuração, enquanto a Alemanha obteve enormes sucessos na busca de fontes energéticas alternativas sem carbono. Se a energia solar funciona lá, nós aqui não temos desculpa.
Meu pai, que durante a 2ª Guerra Mundial ainda estava no colégio, acompanhava as campanhas militares espetando num mapa na parede alfinetes que representavam tropas e batalhas. Poderíamos hoje mapear a América do Norte do mesmo modo e ver, acrescentando as batalhas contra a perfuração no Ártico, o fraturamento, a eliminação do topo das montanhas e outras várias depredações das grandes companhias de carvão e petróleo, que estão sendo feitas coisas consideráveis. Nessa guerra, a resistência vem combatendo há muito tempo, menosprezada pela imprensa tradicional tanto quanto a Resistência Francesa, que trabalhava na clandestinidade em sua época.
Há outra dádiva que já recebemos: as linhas na batalha que virá estão sendo traçadas de maneira mais nítida. A clareza ajuda quando sabemos seguramente onde nos encontramos, quem está do nosso lado e quem está contra nós.
Voltamos à luta de classes em todo o mundo, inclusive a greve dos professores de Chicago de 2012 e os protestos contra a Walmart nos EUA (que levaram a 1.197 ações em apoio aos trabalhadores mal pagos da companhia na Black Friday), bem como os levantes dos estudantes em Quebec e na Cidade do México.
Evidentemente, a guerra contra os trabalhadores e os pobres está se travando há dezenas de anos, só que não a chamamos "luta de classes" quando só os ricos estão combatendo duro. Nós a chamamos globalização corporativa, corrida para o abismo, cortes dos serviços sociais, privatização, neoliberalismo e cem outras coisas. Agora que os pobres estão revidando, podemos chamá-la pelo seu antigo nome. Talvez o que os conservadores tenham esquecido é que, se voltarmos para as tenebrosas divisões e pobreza pavorosa do século 19, poderemos também voltar para o espírito revolucionário daquele século.
Desta vez, entretanto, não se trata apenas de trabalho e de dinheiro. A luta de classes do século 21 está invadindo o mundo natural. Veremos então com clareza como a grande batalha ambiental do nosso tempo se refere ao dinheiro, quem se beneficia com a destruição do ambiente (bem poucos) e quem perde (todos os outros daqui para a frente e quase todos os seres vivos). O furacão Sandy e a seca que destruiu as safras na região atravessada pelo Mississippi, que afetou mais de 60% deste país, deixaram claro que a mudança climática está aqui e agora.
Em 2012, muitos se deram conta de que essa mudança é uma questão econômica e que a economia é uma questão moral e ecológica. Não faz muito tempo, inúmeros americanos estavam em cima do muro, influenciados pela guerra de propaganda das companhias petrolíferas que põe em dúvida até mesmo a existência da mudança climática.Entretanto, este mês, segundo a Associated Press, "quatro em cada cinco americanos disseram que a mudança climática será um problema sério para os EUA se não se fizer nada a respeito". Essa convicção geral sugere que agora existe um apoio amplo que pode estar crescendo para um movimento que faz das mudanças climáticas um problema central e urgente para todos.
Há dez anos, muitos achavam que a situação poderia ser até certo ponto revertida adotando-se um estilo de vida pessoal virtuoso baseado na renúncia: comprando carros híbridos, lâmpadas fluorescentes e coisas do gênero. Agora, a maioria dos que se preocupam sabe que as mudanças imprescindíveis não ocorrerão somente por escolhas dos consumidores. O que é preciso é a luta contra as entidades mais poderosas da Terra, as companhias de petróleo e gás e os políticos que servem a elas e não aos cidadãos.
Quando lembro do mundo no qual me criei, vejo o que lembrava o paraíso e também vejo todos os pequenos infernos. Fui criança na Califórnia, onde existia o melhor ensino público do mundo, as universidades eram praticamente de graça, a economia não afetava tanto as pessoas e os ricos pagavam um monte de impostos. O tempo era previsível e não pensávamos que pudesse mudar antes da próxima era do gelo.
Entretanto, era a mesma Califórnia em que a violência doméstica vigorava, gays e lésbicas eram discriminados abertamente, quase todos os funcionários eleitos do governo eram brancos e as pessoas nem sequer haviam aprendido a formular perguntas sobre exclusão e racismo.
O que significa que os paraísos existem apenas em parte e, quando olhamos para trás, vale a pena tentar ter uma ideia do quadro por inteiro. Os direitos conseguidos nos últimos 35 anos foram conquistados à custa de duras lutas, enquanto grande parte do que era negligenciado - a educação pública, o ensino universitário, os salários, a regulamentação dos bancos, o poder das corporações e as horas trabalhadas - iam escorregando para o inferno.
Quando lutamos, às vezes ganhamos; quando não lutamos, sempre perdemos.
E há mais uma dádiva agora: os jovens. Há muitos heróis entre eles: os Sonhadores, que defendem os imigrantes; os membros do Ocupe, que não só desafiaram Wall Street em sua sede e em outras partes do país, mas foram os primeiros a agir não oficialmente ajudando as vítimas do Sandy e acampando na porta do diretor executivo do Goldman Sachs nos últimos meses; os jovens que bloquearam aquele oleoduto das areias de xisto, fornecendo a tremenda vitalidade da 350.org ao mundo todo, e acabam de se organizar para pressionar as universidades a não aceitarem as verbas das companhias de combustíveis fósseis em 192 câmpus em todo o país.
O paraíso é superestimado. Nós sonhamos com o fim da miséria, mas quem realmente quer um mundo sem dificuldades? Aprendemos mediante erros e sofrimento. São esses os minerais que endurecem os nossos ossos e os marcos nas estradas que percorremos. E nós fomos feitos para caminhar, não para ficar sentados.
O novo filme de Steven Spielberg, Lincoln, nos lembra o que significa lutar por aquilo que importa. Libertar 5 milhões de escravos e abolir a escravidão para sempre significou renunciar a uma fonte de riqueza barata, utilizada havia mais de 200 anos. No início, fazer isso era inconcebível, salvo para os próprios escravos e para pequenos grupos de abolicionistas. Em seguida, tornou-se ousadamente radical, depois partidário, no qual toda a nação tomou partido, o combustível para uma guerra horrível. Finalmente, foi a lei da terra. Hoje, o desafio é desistir de, ou pelo menos reduzir radicalmente, nossa dependência de outras fontes de poder: petróleo, carvão e gás natural.
Os especuladores do carvão esperam que não consigamos estabelecer as relações entre as coisas, ou imaginar os vários futuros que podemos construir e eles destruir, ou perceber as formas belas e complexas que o mundo natural elaborou em nosso benefício e agora estão sendo sabotadas, ou descobrir a nossa consciência e voz.
Eles já estão brigando contra o bem-estar da nossa Terra. Sua ganância não tem limites. Sua imaginação não tem nada, somente limites. Revidemos. Nós temos o poder. É uma das nossas dádivas.

Pacto geral do espetáculo, Aliás 30 dez 12


TALES AB'SÁBER
Algumas imagens de difusão de massa locais e globais, que passaram rápido, voaram e desapareceram, como é próprio do fluxo e da pulsação da imagerie de nossa época, marcaram, de algum modo revelando desde dentro, as coordenadas da relação entre o campo da política e o mundo das imagens, ou ainda, daquilo que poderíamos chamar do campo já avançado da política da imagem, que não tem nenhuma fronteira precisa em nossa época. Poderíamos pensar o mundo da política da imagem como aquela região em que a cultura da ocupação de textos e fetichismos endógenos, próprios do imaginário massivo contemporâneo, encontra, molda e desloca o próprio campo dos interesses e do trabalho lento da política, liberando-a perigosamente. De todo modo, o seu saldo é uma operação e algum grau de controle da vida pública que não conhece regulação, ou contrato social. Seus resultados são legitimados como os da sedução da propaganda de mercado, confirmados no ato de submissão do consumidor à compra, e, no caso da política, ao voto.
Posando. O efeito dessa política da estética não deixa de ser uma forma de controle da vida pública - Gal Oppido
Gal Oppido
Posando. O efeito dessa política da estética não deixa de ser uma forma de controle da vida pública
Já há muito a fusão interessada entre política e imagem, com a aproximação do poder de repetição, sedução e moldagem dos espíritos dos meios de comunicação de massa das técnicas de persuasão, de produção de textos adaptáveis ao desejo flexível do cidadão, se encontraram e passaram a configurar uma "arte" e uma própria política, no processo de produção dos efeitos de realidade da modernidade hiperavançada. Joseph Goebbells, o Maquiavel original da nova indústria cultural da política, insistia em que uma mentira repetida infinitamente, através do poder de determinação dos horizontes de toda representação, o verdadeiro continente de todo o sentido dos meios de comunicação de massa, tornar-se-á simplesmente uma verdade. Naquele caso histórico a verdade era Hitler... É celebre, em um outro grau de automatismo e de fusão entre política e comunicação de massas, a passagem histórica em que o político conservador, de extração e comprometimento antigos Richard Nixon perdeu a eleição para uma imagem na televisão, de seu adversário estético, jovem e elegante, o novo presidente bonito e performático John Kennedy, com sua esposa e família modelo forjadas nas páginas infinitas de celebrityland.
Uma parte importante do predomínio final do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao fim de seu governo, que chegou a alcançar 83% de aprovação, veio da multiplicação quase ao infinito de sua imagem pessoal popular e astuta para o novo capitalismo brasileiro, gerada pela máquina estatal, e principalmente pelos efeitos econômicos de aquecimento do mercado interno, celebrados sempre, automaticamente, pelo próprio mercado, e pelo lugar estratégico e de destaque, que multiplicava seu nome nos fóruns mundiais da indústria cultural da política global, no momento da mais radical crise econômica mundial, e do modo de trinta anos do sistema capitalista funcionar. Lula viu assim a quantidade de referências a sua existência, na imagem, por unidade de tempo, como diz Beatriz Sarlo a respeito destas coisas, alavancando, até o fim de seu governo, o sentido de seu carisma pop.
Foram quatro as marcas reveladoras do estado atual da fusão de política e imagem, de política e espetáculo, que emergiram nos últimos tempos. A principal foi a pressão midiática, e pública, imensa, sobre o Supremo Tribunal Federal, que descongelou uma velha estrutura político jurídica, muito controlada e travada pelos interesses do poder, para o interesse público e do nível da democracia do presente, e que produziu um julgamento de fato histórico. Passado o episódio, e o show de encontros e desencontros dos magistrados, restou a dúvida legítima se se tratou de um tribunal de exceção, para a tradicional esquerda brasileira, punida exemplarmente pelos bons e velhos esquemas próprios do poder por estas bandas, ou se a nova marca e o interesse de cobrança pública e punição legal chegarão a atingir também finalmente a direita conservadora e a corrupção do grande dinheiro entre nós. Evidentemente, vai ser necessária mobilização política e social maior para garantir a universalidade do novo modo jurídico de tratar a política e o poder, quando as grandes empresas de mídia não estiverem mais tão interessadas nos julgamentos pelo alto da corrupção brasileira.
Em segundo lugar vimos, para surpresa de todos os bem pensantes, um político aventureiro, de direita, cuja carreira foi inteiramente baseada em programas de televisão populares e populistas, manter-se à frente na campanha para a Prefeitura da cidade de São Paulo, sem nenhuma base social ou projeto especialmente coerente, a não ser sua radical política pessoal da e na imagem, ficando à frente dos candidatos dos megapartidos PT e PSDB até o último segundo histórico. E depois, um político novo e desconhecido, com o apoio do ex-presidente, pop star das periferias, e com o trabalho profissional de espetacularização de sua equipe de marketing, com seu tempo amealhado por sua coalizão, sair de 4% de intenções de voto e se eleger prefeito em São Paulo; o que levou até mesmo Fernando Henrique Cardoso a falar em uma certa fadiga de material de seu partido e candidato, fadiga de material da imagem pesada, grande burguesa e casmurra, que parece não corresponder de nenhum modo às necessidades e circuitos simbólicos brasileiros pós-Lula.
Mas dois movimentos menores, passageiros, aptos a serem esquecidos e banidos das grandes marcas históricas, talvez revelem ainda mais. Este foi o ano em que uma pequena banda punk de jovens feministas, a Pussy Riot, adentrou uma igreja ortodoxa em Moscou e cantou por alguns segundos, antes de as garotas serem presas, "Virgem Maria, nos livre de Putin". O episódio, adolescente e quase anedótico, talvez caísse no vazio da internet, tornando-se um traço de informação, um vídeo curioso e para especialistas no YouTube, se a verdadeira escalada político-midiática que se deu a seu redor não fosse disparada. O pesado Estado democrático da Rússia das grandes máfias de mercado de Putin reagiu de modo tradicional e prendeu as moças, condenando-as, por ódio religioso, a alguns anos de prisão, mais ou menos como acontecia com os antigos desafetos do regime soviético. Mas agora a nova democracia capitalista russa barra a crítica a sua renovada política de violência pelos grandes países ocidentais, muito interessados. No entanto, o Estado russo não pôde barrar uma ação política global, no mundo da imagem, da república pop mundial, que reagiu, através de blogs e twitters, de milhões de acessos e de manifestações, no espetáculo e na produção de mais imagens, dos ídolos pop blockbusters, como Madonna e Paul McCartney, além de centenas de festas no mundo da diversão global, onde centenas de bandas punks e coletivos artísticos "exigiam" da Rússia: "Free Pussy Riot".
Sem dúvida a política estética e da pura imagem dos artistas grandes e pequenos globais é insólita e superficial, e deve ter riscado minimamente o poder sólido de imensos interesses econômicos do Estado russo de Putin. Mais ou menos como aconteceu com as festas e feiras dos movimentos Occupy anticapitalistas globais. Mas, no entanto, a batalha na imagem, de caráter global, existiu, e Putin gerou um tipo de resistência política a seu governo até então desconhecido, que, se faz pouco efeito no presente, deve tornar-se cacife simbólico crítico para o futuro. Talvez essa tenha sido a primeira batalha entre a cultura global do fluxo da imagem, apoiada diretamente no mercado de massas e no fetichismo geral da mercadoria, da república pop mundial, da rede de computadores, e um Estado nacional antigo, de longa tradição autoritária. De fato o espaço da mídia independente, quase anarquista, via rede mundial de computadores, pressionou e posicionou simbolicamente o poderoso governo russo.
Política da ilusão e do fetichismo da mercadoria contra o Estado capitalista? Sim. E mais, um mundo de efeitos novos e futuros, desconhecido até então da política.
A segunda crise na imagem da política, prosaica e local, foi a da desastrada fotografia do ex-presidente Lula cumprimentando cordialmente o ex-governador de direita Paulo Maluf, profundamente comprometido com a ditadura militar brasileira de 1964. Esse quiproquó tem todos os elementos dialéticos de um verdadeiro sintoma psicanalítico, uma formação regressiva na imagem. Fazendo política pragmática, para contar com poucos minutos a mais para pavimentar a própria política da imagem de seu candidato na televisão, o PT e seu presidente de honra acordaram o apoio do PP do velho cacique da direita paulistana, antigo inimigo visceral do ex-partido de esquerda. Tal coligação já funcionava, sem que os petistas maculados pela foto reclamassem minimamente, no âmbito do governo federal.
No entanto, muitos ficaram revoltados com a fotografia de Lula cumprimentando Maluf no jardim de sua mansão. A foto teve origem em um golpe político irônico, e de imagem, de Maluf sobre Lula, que exigiu o encontro e a fotografia para selar o acordo, visando a vampirizar algo do carisma pop do ex-presidente. E o público percebeu, na imagem, o grau atual de desfaçatez com a história, a desautorização simbólica bastante radical que o homem do poder deseja realizar sobre os cidadãos, demandando adesão total ao seu gesto na imagem. Alguma tardia resistência de valor interno, de alguma velha natureza de vínculo subjetivo com a história, se elevou dentro das pessoas. Mas o desprezo contido no gesto, da ex-esquerda com a ex-direita comemorando sua nova igualdade política, na imagem, demonstra que tais pruridos são anacrônicos. O poder demanda a aceitação, e a conversão da história à imagem manipulada é sua arma principal. Esses muxoxos de pessoas ao redor do pequeno ato falho da imagem não interessaram minimamente ao estado atual do poder, porque inclusive eles vêm de pessoas que julgam a política pela imagem, e não mais o conceito da política.
Maria Sylvia Carvalho Franco, em artigo publicado no Aliás de 2 de dezembro, apontou o desejo de super-homem, coerente com o estado das coisas, do marqueteiro vitorioso petista João Santana, em determinar as decisões políticas partidárias futuras. Para a política hoje a história deve ser redesenhada rumo à mercadoria política excitante do dia, em todos os extratos da vida nacional, em um puro jogo de força da técnica e do dinheiro, sem controle público, sobre o sentido da política. E a esquerda está plenamente satisfeita nesse jogo, enquanto ganhar com ele. Beatriz Sarlo, como intelectual crítica de esquerda, apontou o inferno desse mundo e o trabalhou criticamente, argumentando que a política hoje está submetida, enquadrada e rebaixada pelo vínculo promíscuo com o que chamou de celebrityland, que vai na direção do que chamei de carisma pop.
"Na cópula de um programa de televisão com o Facebook se produz um tipo de discurso afim ao estilo de intervenção que foi o característico de Nestor Kirchner." São os termos surpreendentes da crítica argentina, teoricamente radicais para os padrões da crítica brasileira, praticamente inexistente, ao processo de degradação da política no pacto geral do espetáculo.
TALES AB’SÁBER É PSICANALISTA, PROFESSOR DE FILOSOFIA DA PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO E AUTOR DE A MÚSICA DO TEMPO INFINITO (COSAC NAIFY)

Eurodescentrismo


Gilles Lapouge
Visto do Velho Continente, o ano de 2012 começou e terminou em função da União Europeia e de uma de suas inovações mais espetaculares, o euro, a moeda comum.
Os 17 países atrelados à moeda única não podem desvalorizá-la ou deixá-la cair - Gal Oppido
Gal Oppido
Os 17 países atrelados à moeda única não podem desvalorizá-la ou deixá-la cair
O 1º de janeiro de 2012 marcou o décimo aniversário da moeda que circula em 17 dos 27 países da União Europeia - sim, 17, porque há 10 membros da UE, Grã-Bretanha à frente, que não quiseram adotá-la.
Curiosamente, porém, o 1º de janeiro de 2012 passou sem a menor festa. Esse mutismo teve suas razões: o euro, apesar de se manter em boa situação nos mercados cambiais, é um desastre. A zona do euro afunda, perfurada por dívidas delirantes.
Nesse primeiro dia de janeiro de 2012, somente a Alemanha estava em boa forma. Grécia, Espanha, Portugal, Itália (os países do sul, apelidados de "países do Clube Med") desmoronavam. Mesmo a França caminhava aos tropeções. É compreensível, portanto, que a zona do euro não queira ter passado o ridículo de saudar com cantos e fogos de artifício esse objeto duvidoso, tão jovem e já entrando em decomposição.
Um ano transcorreu e, às portas de 2013, a mesma Europa participou de uma grande festa. Em 10 de dezembro, o Nobel da Paz foi entregue a quem? À União Europeia! Por que a Academia de Oslo teria feito tal escolha? Mistério. Um erro? Um souvenir? Uma esperança? De qualquer forma, os senhores da UE em Bruxelas não escondiam seu regozijo. Os altos dignitários da UE e dos diversos Estados correram para Oslo. Por uma vez, a Europa seria aplaudida, ninguém estragaria seu prazer! Estiveram ausentes, contudo, o premiê britânico, David Cameron, e o premiê checo, que detestam Bruxelas.
Teria ocorrido, durante o ano, uma melhora súbita do euro e da União Europeia? Não. Ao longo desses meses, os europeus tiveram direito à mesma ladainha: o euro agoniza, mas uma "cúpula da última chance" se reuniu mais uma vez, como faz a cada dois ou três meses, sob o pulso firme de madame Merkel, que vai a Bruxelas com seus açoites, suas mezinhas, suas poções e seus chapéus de burro. E essa cúpula envia boias salva-vidas à Grécia, à Espanha, sob a condição de esses países estropiados se submeterem aos novos regimes ferozes, realizando eles próprios demissões colossais, rebaixamentos de salários em geral, aumentos de impostos, sob o risco de morrerem de inanição.
Por que, então, apesar desse panorama catastrófico, a UE e o euro terminam o ano com o Nobel? Podemos propor duas razões. A primeira é que o euro ainda existe. O navio naufraga há três anos, mas a tripulação opera valentemente os vertedouros para retirar as trombas de água que invadem o porão.
A segunda razão é um fato discreto, que ocorreu em 5 de julho de 2012. Nesse dia, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt, Mario Draghi, disse: "O BCE está pronto a fazer tudo o que for preciso para salvar o euro". E acrescentou, a meia voz: "Creiam-me, isso será suficiente".
Naquele dia, houve uma reviravolta. O BCE e, portanto, a Europa, abandonaram sua estúpida política do euro forte, afastando-se da linha dura de Merkel, e anunciaram que o BCE sairia em socorro dos países ou dos bancos, com seu poder monetário ilimitado e aceitando o risco de uma inflação controlada. Evidentemente, a declaração de Draghi não pôs fim ao desastre europeu, mas teve duas consequências: ele ganhou o apelido de Super Mario e a zona do euro, embora cambaleie e continue com uma palidez mortal, parou de se suicidar como vinha fazendo havia dois anos.
Este mesmo ano de 2012 permitiu fazer uma comparação entre as diferentes estratégias adotadas pelos Estados europeus em face da crise. Nesse quesito, um país se destaca como caso exemplar: a Islândia. Ela não pertence à zona do euro nem à União Europeia. É uma pequena ilha situada no Círculo Polar Ártico. Terra fria, coberta de neve, povoada por vikings (descendentes dos noruegueses que ali chegaram no século 10), a Islândia (319 mil habitantes) conheceu longos séculos negros, para, a partir de 1945, sair da pobreza extrema e depois enriquecer.
Em 2008, a Islândia recebeu a crise financeira mundial como uma porretada. A ruína do dia para a noite, o desastre. Os bancos superdimensionados beijaram a lona. A moeda local (a coroa) desabou. O primeiro-ministro pediu ajuda a Deus. Manifestantes ganharam as ruas. Os bancos foram tomados de assalto, um cenário que se reproduziria três anos depois em todos os países do euro se madame Merkel, o FMI e Bruxelas tivessem deixado as coisas correrem soltas.
Mas a Islândia, largada à própria sorte, sem socorro nem conselhos, seguiu um caminho radicalmente diferente do seguido por países do euro. Reykjavik, capital do país, deixou seus três grandes bancos (Kauphting, Landsbanki e Glitnir) quebrarem (esses bancos eram prósperos, enormes, desmesurados em relação ao país porque tinham nos cofres um valor dez vezes maior que o PIB da Islândia). E, sobretudo, Reykjavik deixou sua moeda flutuar e perder valor.
Estratégia rigorosamente contrária, portanto, à da Europa. Os países europeus, acorrentados ao euro, não podem em hipótese alguma desvalorizar sua moeda ou deixá-la cair. A Grécia, por exemplo, usa uma moeda (o euro) talhada para um país rico, mesmo estando à beira da miséria. E Atenas não tem o direito de desvalorizar sua moeda porque ela não é uma moeda grega, mas europeia, forte demais para ela e intocável. Já a coroa perdeu metade do seu valor ante o euro. A inflação atingiu 20% ao ano. Empresas despediram assalariados. Multidões vociferaram diante do Parlamento. O governo islandês foi varrido... E a Islândia foi salva.
Hoje, os cafés da Laugavegur, principal artéria comercial da capital, estão abarrotados; os restaurantes vivem cheios, oferecendo baleia minke. Formam-se filas nas discotecas. No sábado à noite, jovens se entopem de cerveja até altas horas, e depois desabam e dormem até passar a bebedeira. Tudo como antes.
De fato, a Islândia renasceu. O desemprego é baixo. O turismo se recuperou rapidamente (graças à fraqueza da coroa). No último verão, o governo conseguiu pegar empréstimos nos mercados financeiros. O crescimento foi retomado. Algumas feridas ainda estão abertas, é verdade. A Islândia não eliminou todos os estigmas, mas recuperou a energia. Sua economia está saudável. Nenhuma relação com as economias do euro, que só se mantêm de pé com a ajuda de muletas, de Prozac, de transfusões, de próteses.
Alguns citam a Islândia como modelo para a Europa ou para os Estados Unidos. A comparação não se justifica. A Islândia é um país minúsculo. Seus três bancos sacrificados, apesar de opulentos, eram pigmeus em relação aos grandes estabelecimentos ocidentais. Foi possível deixá-los cair. Mas imaginemos que os Estados Unidos deixassem cair um banco monstro como o Citibank em vez de salvá-lo. O tsunami teria varrido a América e o mundo.
Resta que, apesar de não transmissíveis, os métodos islandeses merecem análise. Mostram que o sacrifício decidido pelo próprio país vale mais que uma camisa de força imposta por outro, por uma dama alemã ou pela Comissão de Bruxelas. E, no que se refere ao euro, permitem compreender que a fixação obrigatória do curso de todas as moedas europeias, sem possibilidade de deixá-las subir ou descer, é uma regra deletéria.
Este mesmo ano de 2012 tornou legível um movimento de grande amplitude, em ação há alguns anos, mas tão discreto que quase não foi notado - um pouco como as placas tectônicas que deslizam no fundo dos oceanos sem que os observadores reparem nelas - até que um dia vem o desastre.
Esse movimento quase imperceptível, mas potente e irrevogável, é uma oscilação em escala planetária. Já faz algum tempo que os Estados Unidos, que com frequência têm uma visão aguda, se deram conta: a Europa, apesar da União Europeia, apesar de países poderosos como Alemanha, Inglaterra, França, Itália, apesar do euro, apesar, enfim, de um nível cultural excepcional, está sendo ultrapassada pelos países da Ásia.
A geometria do planeta está mudando. Outrora, a Europa estava no centro. Mais tarde, os Estados Unidos a substituíram, e a Europa permaneceu como parceira privilegiada da América. Hoje, e o comportamento do presidente Barack Obama o confirma, é para a Ásia que os olhares se voltam. Passou-se do Oceano Atlântico para o Pacífico.
Mas isso não é tudo. Um outro movimento confirma esse balanço do planeta para novas figuras. Trata-se da desindustrialização dos grandes países industriais antigos em favor de países outrora rurais, mineiros, subdesenvolvidos e pobres. A queda da indústria europeia está se tornando dramática. A França vive intensamente essas mudanças: sua indústria está se despedaçando ou saindo para o exterior. Fábricas fecham às dezenas e empregos desaparecem às dezenas de milhares. A siderurgia agoniza. O tecido das pequenas empresas, antes tão denso, tão dinâmico e alegre, está dilacerado.
Gregos, portugueses, espanhóis, italianos tomam o navio, plantam sua tenda na Austrália, na Argentina, em Angola, no Brasil. Uma charge ilustra esse balanço. No cais de um país emergente, uma família espera a chegada de um navio da Europa. A mãe diz aos filhos: "E, acima de tudo, sejam gentis com seus primos pobres da Europa".
A Europa faria bem em planejar seu futuro, porque a hemorragia continua. Os países industriais se tornaram países sem indústria. É nos países durante muito tempo confinados ao setor primário que a indústria se expande. Brasil, África do Sul, Coreia do Sul, Índia e, claro, China superaram a Europa em alguns setores e, talvez, em todos eles.
A França tenta se reindustrializar, mas como fazê-lo quando as indústrias, mesmo as mais sofisticadas ou mais pesadas, são atraídas de forma quase magnética para os países emergentes, onde o mercado interno está em pleno crescimento e a mão de obra é da mesma qualidade, mas muito mais barata?
Há exceções. A Alemanha continua sendo a manufatura da Europa em razão de seu talento. Além disso, soube perceber o perigo da realocação antes de seus concorrentes. E a Grã-Bretanha tem belos restos, mas o que sustenta esse país é a City, o incomparável centro financeiro mundial que é Londres.
De sua parte, os Estados Unidos, após anos de ansiedade, parecem prestes a recuperar o controle da situação, graças ao gênio criativo americano, mas também à opção pelo gás e pelo petróleo de xisto. Tanto pior para a natureza, mas os Estados Unidos veem se desdobrar diante de si anos gloriosos, pois com esse gás e esse petróleo vão se tornar os maiores produtores de hidrocarboneto do planeta.
É isso, ou assim me parece, o que dominará este começo de 2013: a desindustrialização radical da Europa (exceção feita à Alemanha, mas por quanto tempo?) é hoje um processo regular, violento e dramático.
Esse desastre industrial indica aos europeus e, sobretudo, à União Europeia e à zona do euro as direções nas quais devem, sob pena de desgraças e, quem sabe, a morte, se engajar heroicamente: reindustrializar-se, desenvolver os setores nos quais sua natureza criativa, sua cultura, sua experiência, seus saberes ainda a mantêm no páreo, os produtos de enorme valor agregado, os artigos de altíssimo luxo, os serviços, a inovação, as finanças - em suma, o "pós-moderno".
Eis um desafio à União Europeia e a todos os seus países. É um desafio pesado. É também magnífico. Ele pode fazer uma Europa esplêndida suceder à Europa triste, insossa, desanimada de 2012. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE DO 'ESTADO' EM PARIS E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DICTIONNAIRE AMOUREUX DU BRÉSIL, QUE SERÁ TRADUZIDO PELA EDITORA MANOLE