terça-feira, 21 de julho de 2026

Será que Trump vai respeitar as eleições? - Joel Pinheiro da Fonseca -FSP

 Trump há de aprontar alguma nas eleições de meio de mandato. O que ele fará ninguém sabe, mas os sinais estão aí. A aprovação do presidente nunca esteve tão baixa. A chance de perder a maioria em ao menos uma casa do Congresso é real, o que deixaria seu governo enfraquecido. Sabemos como Trump lida com derrotas. Com essa não deve ser diferente.

Na quinta passada, ele deu um discurso em rede nacional em que afirma que as eleições americanas são inseguras e passíveis de fraude, inclusive por inimigos externos como a China. Tudo, é claro, em conluio com o "Estado profundo", os servidores públicos que conspiram contra seu governo.

Donald Trump participa da cerimônia de premiação na final da Copa, em Nova Jersey, no domingo (19) - Evan Vucci/Reuters

Quando olhamos para os atos de seu mandato, contudo, a segurança das eleições não figura como uma prioridade. Muito pelo contrário: ele já cortou cerca de um terço dos funcionários da Agência de Cibersegurança e Segurança da Infraestrutura, que —entre outras atribuições— ajuda os estados a garantir a segurança nas eleições. Além disso, desmantelou o painel bipartidário da Comissão de Assistência às Eleições, que também presta assistência logística e de segurança nas eleições aos estados. Tudo indica que teremos eleições mais inseguras, e portanto mais passíveis de críticas e contestação judicial, exatamente o que favoreceria Trump em caso de derrota.

A acusação, feita por Trump, de que a China interferiu no resultado das eleições americanas em 2020 é completamente sem base, inclusive nos documentos de inteligência citados por ele. Ainda assim, se houvesse interesse real em prevenir uma interferência externa, ele teria fortalecido a Força-Tarefa de Influência Estrangeira, que investigava justamente isso. Ela foi dissolvida no início do mandato.

Outro momento marcante da semana passada foi o discurso de Marco Rubio sobre o "terrorismo de extrema esquerda" e a necessidade de mobilização internacional contra ele. Poucos países devem levar a sério a narrativa que vê organizações internacionais por trás do ato de cada indivíduo desequilibrado que comete atos de violência. Mas a fala serve, mais uma vez, como discurso interno que legitima a perseguição de opositores e, em casos extremos, pode levar a algum tipo de conflagração às vésperas da eleição.

Neste contexto, a coisa mais burra que qualquer americano opositor de Trump poderia fazer é cometer atos de violência ou terrorismo; mas foi exatamente isso que um cidadão fez no domingo ao levar armas e causar um incêndio ao lado de um prédio de escritórios de autoridades imigratórias. Tudo indica ser um indivíduo desequilibrado, mas servirá como uma luva ao discurso de que o governo dos EUA vive um ataque orquestrado "da esquerda".

A tão ameaçada democracia deu sinais de força em abril quando Viktor Orbán perdeu as eleições na Hungria. Mesmo com extenso aparelhamento do Judiciário e controle da mídia, os cidadãos ainda podem tirar um líder impopular. Se tiverem acesso às urnas. Trump não tem nem de longe o poder que Orban tinha sobre a imprensa e o Judiciário. Quem cuida das eleições, ademais, são os estados. Os EUA não deixarão de ser uma democracia tão fácil. Mas a deterioração de seu mecanismo fundamental seria um exemplo preocupante. E que arrastaria.

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