segunda-feira, 20 de julho de 2026

Philip Yang e Monica de Bolle - Reciprocar é pouco; o importante é retaliar, e já, FSP

 

Philip Yang

Fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole) e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais)

Monica de Bolle

Pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, nos EUA

Convém começar com um agradecimento. Ao anunciar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, o USTR (Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos) publicou também uma lista de exceções que cobre dois terços das nossas exportações. Café, suco de laranja, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves: tudo o que encarece o café da manhã do eleitor americano ou paralisa fábricas foi cuidadosamente poupado. Washington acredita ter divulgado um ato de força; divulgou um inventário de vulnerabilidades. Raras vezes um governo entrega ao adversário, com tamanho zelo burocrático, o mapa dos pontos onde mais teme ser atingido.

O tarifaço não tem lógica econômica. Os Estados Unidos têm superávit de US$ 14 bilhões com o Brasil, e nem a aritmética tosca que trata déficit como prova de deslealdade se aplica ao nosso caso. Trata-se de punição política, e o Brasil é o caso de teste: se a tarifa derrubada pela Suprema Corte puder ser reerguida pela Seção 301 contra nós, será reerguida contra todos.

Dois homens sentados em poltronas em uma sala com cortina azul ao fundo. Homem à esquerda veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, olhando para o homem à direita, que veste terno escuro, camisa clara e gravata vinho, gesticulando com a mão direita. Entre eles, mesa pequena com toalha vermelha, vaso com flor e dois copos de água. Bandeira do Brasil visível ao fundo à direita.
Encontro entre o presidente Lula e Donald Trump na Malásia, na época da fase anterior do tarifaço 26.out.25 - Evelyn Hockstein/REUTERS

O governo brasileiro fala em OMC e em lei de reciprocidade. Está certo, e é pouco. O registro na OMC é necessário e inócuo, com o órgão de apelação paralisado por obstrução dos EUA. A reciprocidade opera no tempo do direito, com prazos e consultas, enquanto Trump opera no tempo do fato consumado. Responder a um método de choque com um método de protocolo é aceitar perder.

Nossa proposta é outra: retaliar já, e exatamente onde a lista de exceções manda. Suspender, de imediato, exportações de café, suco de laranja, carne, ferro-gusa e peças de aeronaves para os Estados Unidos. Não por rancor nem por prazo indefinido, mas como demonstração calibrada de que o custo da agressão recai sobre quem a pratica. 30% do café consumido nos Estados Unidos é brasileiro; o suco de laranja depende do Brasil; a carne segura o preço do hambúrguer; as peças da Embraer sustentam frotas e cadeias industriais; o aço não tem substituto doméstico para o ferro-gusa brasileiro. São os itens que produzem inflação no supermercado, o único idioma que este governo entende: o do eleitor irritado.

Nióbio e terras raras podem compor uma segunda camada, dirigida à defesa e à tecnologia. Mas a prioridade é o que dói amanhã de manhã, e o calendário manda agir já. Com eleições de meio de mandato em novembro, a inflação chegaria às prateleiras no momento de máxima sensibilidade política. Esperar o protocolo é desperdiçar o único semestre em que esse custo pode ser cobrado nas urnas.

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Dirão que Trump gosta de confusão e que a escalada é perigosa. É verdade. Mas a própria lista revela que a capacidade americana de escalar é menor do que a retórica sugere: dois terços do comércio foram poupados porque não podiam deixar de ser. Não reagir, e isso quase nunca é dito, também tem preço. Caso de teste que não reage vira precedente. O Brasil que aceitar os 25% de julho aceitará os 12,5% da semana seguinte e o que vier depois. Quando a China respondeu com controles sobre terras raras, em outubro de 2025, Washington recuou em semanas; quem cedeu cedo ficou preso a termos piores. Com este governo, retaliar é pré-requisito para negociar.

Dirão que "já" é juridicamente impossível. Não é. O imposto de exportação pode ser fixado por decreto, via Camex, com amparo em lei de 1977, sem passar pelo Congresso. Ao contrário de embargos e quotas, é defensável na OMC. Trump opera por fato consumado? O Brasil também tem o seu.

Dirão, por fim, que a retaliação impõe sacrifício aos nossos exportadores. Impõe. Cafeicultores, frigoríficos, siderúrgicas e a cadeia aeronáutica arcarão com perdas temporárias, que cabe ao governo mitigar. Mas há momentos em que setores precisam agir como país, não como planilha. O sacrifício de um semestre compra o que nenhum lobby compra sozinho: a condição de negociar de pé. Ao final, ganham todos, sobretudo o setor que aceitou perder primeiro.

Reciprocidade é a linguagem de quem pede para ser tratado como igual. Retaliação imediata é a linguagem de quem se comporta como igual. Washington nos entregou a lista. Falta apenas usá-la.

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