Janja da Silva não sabe o que é misoginia. Essa me parece a constatação mais óbvia e mais incômoda depois da sua entrevista ao UOL/Folha. No momento em que o país debate a criação de uma lei e que exige precisão cirúrgica sobre o que constitui o ódio patológico contra as mulheres, a primeira-dama presta um desserviço à causa. Ao classificar as cobranças públicas sobre seus atos e seus gastos de viagem como "misoginia pura", ela fornece a munição perfeita para os detratores do projeto de lei. Se nem a principal vitrine feminina do governo consegue distinguir escrutínio público de opressão de gênero, a própria tipificação do crime corre o risco de cair no vazio da subjetividade.
Cobrar transparência de uma figura pública não é machismo, é democracia. O erro de Janja é confundir a fiscalização de seu papel com um ataque à sua biologia. Ao se blindar sob o manto da misoginia para evitar responder pelo uso do dinheiro público, a primeira-dama enfraquece a luta real de milhares de mulheres que sofrem a violência de gênero concreta no cotidiano. Isso não quer dizer que ela não possa reclamar da hostilidade e da perseguição alimentadas pelo ódio ideológico —mas isso não está reservado só a elas.
Essa incompreensão sobre o seu papel se estende à relação com a mídia. Ao reclamar que a "imprensa nacional gosta de fofoca", enquanto a internacional a solicita, Janja demonstra um deslumbramento ingênuo (ou conveniente) sobre o fazer jornalístico. É esperado que correspondentes estrangeiros, distantes do orçamento diário do contribuinte brasileiro, façam coberturas mais protocolares. Quem tem o dever de auditar o poder local são os veículos de casa. O que aborrece Janja é o incômodo clássico que a livre imprensa causa a qualquer governante.
Sua postura atinge o ápice do descolamento da realidade quando ela diz que não tem responsabilidade se as pessoas ou a imprensa não querem saber sobre suas ações. Como uma figura que se colocou voluntariamente no centro do governo, é, sim, obrigação dela ter uma comunicação eficiente. Em uma democracia moderna, esperar que a informação pública dependa apenas do humor dos veículos é ignorar a liturgia da posição que ela mesma fez questão de expandir. Com essas declarações, o que Janja parece buscar não é interlocução jornalística, mas o conforto da adulação —algo que ela pode encontrar nas suas redes sociais, não no jornalismo tradicional.
Há um tom de soberba difícil de engolir quando ela se coloca como a primeira-dama que de fato "trabalha". Ao tentar valorizar sua atuação, Janja diminui suas antecessoras, demonstrando uma surpreendente ausência de empatia histórica. A comparação é um insulto à memória institucional do país. É preciso lembrar também que ela se refere a mulheres que eram fruto do seu tempo, de uma sociedade em que o espaço político feminino era praticamente inexistente e o que se esperava era que permanecessem à sombra.
Por essas condições, causa muito estranhamento que seja ignorado o legado de Ruth Cardoso, que com personalidade e brilho próprios estruturou o Comunidade Solidária —o programa que rompeu com o assistencialismo tradicional e pavimentou o caminho para as políticas modernas de transferência de renda do país. Não foi pouca coisa. Pior, de outra forma, é o apagamento que a primeira-dama promove da memória de Marisa Letícia, cuja discrição e presença silenciosa foram esteios fundamentais para a própria construção do PT e das primeiras gestões de Lula.
Ao se colocar no topo de uma hierarquia moral de eficiência feminina, Janja trai o princípio básico do feminismo: o respeito à pluralidade de escolhas das mulheres. O que a entrevista acaba revelando é uma personagem que confunde privilégio de poder com vulnerabilidade social. Janja quer a centralidade política da sua atuação, mas recusa o ônus da cobrança pública. Quer ser vista como uma líder forte, mas recorre ao vitimismo de gênero ao primeiro sinal de crítica. O Brasil precisa debater a misoginia com seriedade, mas, para que essa discussão avance, a primeira-dama precisa entender que críticas ao seu comportamento público não são ataques à sua condição de mulher. Cobrar uma mulher que deve prestar contas por sua atuação não tem absolutamente nada de misógino.

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