quarta-feira, 15 de julho de 2026

A política da motivação contra a economia da atenção, Rui Tavares, FSP

 A primeira coisa que é preciso fazer quando queremos conversar com alguém é atrair a sua atenção. Isso é verdade, mas é curto. Se você quiser que a pessoa continue a conversa, então é preciso algo mais: motivação.

Esta é a explicação simples de por que é que —a meu ver— estamos todos errados na maneira como vemos a comunicação política hoje em dia. A economia da atenção sempre foi importante, mas nos últimos anos a emergência e consolidação das redes sociais fizeram dela o modo dominante, e por vezes quase único, de entender a interseção entre comunicação e política. Nas redes sociais, os textos tendem a ser curtos, os vídeos mais curtos ainda, e o nosso cérebro está habituado a doses constantes de pequenos estímulos para nos manter atentos.

A ascensão dos populistas e demagogos na política internacional, em particular a partir de 2016, com a vitória do Brexit e a primeira eleição de Trump, deu à política baseada na economia da atenção a chancela do sucesso. Passou a ser irrelevante saber se a proposta faz sentido ou não. A única coisa que verdadeiramente conta é quantos cliques, likes e visualizações ela teve.

Imagens geradas por inteligência artificial publicadas em perfis pró-Trump nas redes sociais - Chris Delmas - 7.mai.26/AFP

Isso fez com que mesmo os disparates mais absurdos e os erros mais trágicos pudessem sempre ser desculpados com recurso a essas métricas, e tudo o resto minimizado. O candidato pode ser um idiota e o presidente comportar-se de uma maneira grotesca —desde que tenha talento para captar e manter a atenção de milhões de pessoas.

Mas será que, dez anos depois, não há uma alternativa? Eu creio que ela sempre esteve debaixo do nosso nariz.

Em primeiro lugar, o uso da economia da atenção na comunicação política não é uma estratégia. É uma tática. As duas são frequentemente confundidas, mas não servem para a mesma coisa. A tática é de curto prazo e esgota-se quando não está enquadrada por uma estratégia.

Em segundo lugar, o uso levou ao abuso, e o abuso traz retornos decrescentes. Os políticos da "economia da atenção" são obrigados a ser cada vez mais grotescos e a captar cada vez menos atenção. Se há verdade constante sobre a humanidade, é que os humanos se aborrecem. E também se aborrecem com quem lhes chama constantemente a atenção sem dar nada em troca.

Em terceiro lugar, até a nossa atenção está mais fragmentada do que antes. Tem menos duração, é preservada menos tempo, e dificilmente partilhável num contexto interpessoal que não seja mediado pelos aplicativos. Há um meme ou outro mais memorável e comunicável. O resto é ruído de fundo.

Mas e então? Isso significa que um político já não é obrigado a aparecer o tempo todo, fazer figuras ridículas, manter toda a gente num estado de irritação constante? Eu acredito que é possível fazer de outra maneira. Mas, acima de tudo, acredito que aquilo de que precisam os políticos democratas e progressistas é um tipo diferente de atenção. Uma atenção mais prolongada no tempo, mais construtiva e com mais retorno: motivação. E isso só se consegue com propostas boas e que façam sentido.

Deixem o pessoal distrair-se com memes. Voltarão, ano após ano, desde que lhes saibamos dar motivos para isso. No longo prazo, a política da motivação pode derrotar a economia da atenção.


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