sexta-feira, 10 de julho de 2026

Jessika Moreira - O Brasil buscado pelo STF nem Deus explica, FSP

 Jessika Moreira

Especialista em gestão pública e inovação no serviço público, é diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente

Nos últimos dias, os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiram pela ampliação do pagamento de penduricalhos aos magistrados e, de quebra, reafirmaram um limite de 35% adicional ao teto para o pagamento das chamadas verbas indenizatórias. Mais uma vez, uma instância de poder desafia a memória do país.

Estamos diante de interesses cada vez mais dissociados do bem comum. Foi essa a percepção ao acompanhar o que se tornou a promessa de 25 de março, quando o STF fixou uma tese que parecia, finalmente, começar a devolver sentido ao teto constitucional. Proibiu diversos penduricalhos, impôs limites e vedou a transformação de algumas licenças em dinheiro. Era insuficiente, mas houve algum tipo de avanço.

O cartum mostra uma cena na Praça dos Três Poderes, em Brasília.  Ao fundo aparece o Congresso Nacional, desenhado de forma limpa e monumental, enquanto, acima dele, o céu está tomado por objetos voadores inusitados: jatinhos, pizzas e mamadeiras, que carregam os rótulos “Penduricalhos” e “Emendas”. Dois cachorros observam a cena. Um deles, um vira-lata, está no teto do Palácio do Planalto. Ele comenta: “Tráfego intenso no céu de Brasília!” Um outro, um cão salsicha, está no teto do Supremo Tribunal Federal, tendo na frente a Estátua da Justiça. Ele exclama: “E só aumenta!”
Praça dos Três Poderes - Cláudio de Oliveira /Cláudio/Folhapress

O que não imaginávamos era a velocidade do recuo. Em abril, os conselhos que deveriam fazer cumprir a decisão editaram uma resolução que fez o contrário: tentaram trazer de volta o auxílio-moradia, que o STF havia sepultado, e inventaram uma gratificação de primeira infância que nenhuma lei previa.

Em junho, o próprio Supremo, ao julgar os recursos contra si mesmo, desfez parte do que havia construído. Liberou a conversão de férias e plantões em dinheiro e reabriu o cofre dos retroativos, somando esses retrocessos à volta do adicional por tempo de serviço.

Outro absurdo na recente decisão do STF é a manutenção do pagamento do adicional por tempo de serviço com pagamento fixado em 5% a cada cinco anos de atividade, limitado a outros 35% além do teto. Além da manutenção do pagamento em si, a corte decidiu que o benefício vale de forma imediata e automática, sem a necessidade de requerimento, e se aplica também a inativos e pensionistas, o que torna a decisão ainda mais onerosa aos cofres públicos.

Os números sustentam a indignação. O Brasil gastou cerca de R$ 20 bilhões acima do teto em um único ano. Os brasileiros (93%) são contra servidores públicos receberem acima do teto constitucional e defendem (83%) o fim dos supersalários com uma regulamentação que resgate a autoridade do limite remuneratório determinado na Constituição Federal. Esses dados são a prova de que não estamos sozinhos. E também de que a saída não virá dos céus.


Não perdemos o argumento, os dados nem o apoio popular. Perdemos, porém, para a falta de bom senso de quem encontra sempre uma nova forma de se beneficiar, chamando de indenização aquilo que é salário, de direito adquirido aquilo que é privilégio renovado.

Não vamos apelar a Deus, mas à persistência de quem ainda acredita no Brasil. Vamos continuar documentando cada manobra, defendendo cada proposta e cobrando, com nomes e datas, cada autoridade que confunde o cargo que ocupa com o benefício que tira dele. A indignação cansa, é verdade, mas também fortalece quem já entendeu que a luta será longa e, mesmo assim, decidiu continuar nela.

O teto constitucional precisa ser cumprido, e isso não vai acontecer por intervenção divina. As regras, ao contrário das preces, não dependem de fé, mas de decisão humana bem-intencionada e de vontade real de fazê-las valer.

Nenhum comentário: