Christiane Disconsi
Uma pesquisa Datafolha de abril indicava que a avaliação negativa do governo Lula (PT) chegou a 40%, enquanto a positiva recuou para 29%. Assim como outros eventos, essa queda de popularidade não pode ser simplificada por um único fator. No entanto, há um conceito que ajuda a entender esse movimento: a Janela de Overton.
Criado nos anos 1990 pelo analista político Joseph Overton, esse conceito considera que existe um limite para o que é socialmente aceitável, uma régua que vai do impensável ao popular. O ponto central está na volatilidade dessa movimentação: ideias antes aceitáveis podem, com o tempo, passar a ser vistas como radicais. O contrário também ocorre.
A agenda woke é um exemplo claro desse deslocamento. O movimento ganhou força nos Estados Unidos a partir dos anos 2010, especialmente com marcos como o Black Lives Matter, e rapidamente se expandiu. O que começou como uma pauta de consciência racial passou a incorporar temas como diversidade, equidade, inclusão, gênero e justiça social.
No auge, essa agenda ultrapassou o campo político e chegou ao ambiente corporativo. Empresas passaram a adotar metas de diversidade e critérios de ESG, vinculando essas pautas à reputação e ao desempenho. O que era considerado radical tornou-se sensato e, em muitos casos, desejado.
Com o tempo, a intensificação da militância e a polarização geraram uma percepção de imposição dessas agendas. O que havia se consolidado como consenso passou a ser tensionado. Esse movimento se tornou mais evidente no cenário político americano recente, com a volta de Donald Trump ao poder em 2024. Isso não é apenas um evento eleitoral, mas um sinal de mudança no ambiente de aceitabilidade.
A reviravolta reverberou na América Latina, com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e Daniel Noboa no Equador, além de lideranças alinhadas, como Santiago Peña no Paraguai. Soma-se a isso a queda de Nicolás Maduro, em um cenário de ruptura.
No Brasil, assim como nos Estados Unidos, inflação, custo de vida, insegurança e frustração com resultados econômicos passaram a dominar o debate. O eleitor deixou de responder prioritariamente a narrativas simbólicas e passou a exigir entregas tangíveis, como encher o carrinho no supermercado.
Esse deslocamento cria espaço para discursos mais conservadores, não necessariamente por adesão ideológica, mas por percepção de eficácia. E, às vésperas da corrida eleitoral, o que se observa é o fechamento da janela woke e o deslocamento do eixo do debate. Isso não significa que essas pautas desapareceram. Significa que perderam centralidade.
Esse reposicionamento em escala global ocorre diante de uma classe média pressionada por impostos, juros altos e perda de poder de compra. E, apesar de parecer regressão sair do campo filosófico para o prático, isso apenas revela o que ficou evidente: faltou o básico. E, quando falta o básico, a régua se move. O que era aceitável passa a ser visto como excesso, e o essencial volta ao centro.
A janela não se fechou por acaso, mas porque, sem entrega, nenhuma agenda se sustenta. Acordamos da ilusão de justiça social, quando a realidade entrou pela janela, reposicionando o conceito. A justiça social deixa de ser ideologia e volta a ser o básico. Renda, segurança e comida na mesa.
Christiane Disconsi é jornalista e cientista política. Ela escreve de Praia Grande (SP).
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