Os nomes que damos às coisas do mundo importam, e muito, porque também são coisas do mundo. Mesmo que vá longe na Copa, como promete seu bom desempenho na primeira fase (escrevo antes de EUA x Bósnia), a seleção anfitriã continuará apartada da turma futebolística por uma palavra.
Como se sabe, lá o futebol se chama "soccer", como ocorre também no Canadá e na Austrália. Nos demais 48 países que foram à Copa, ou na imensa maioria deles, vigora uma tradução ou adaptação do inglês "football", palavra que junta "pé" e "bola".
A maior exceção no mundo tradicional da pelota esférica é a tetracampeã Itália, que também destoa do coro ao chamar o esporte de "calcio" – termo parente de coice e que significa chute. Mas os italianos não conseguiram vaga na Copa.
A vitória do anglicismo "football" se construiu na virada do século 19 para o 20, quando as regras do "Football Association" inglês foram exportadas para o mundo.
"Football" é uma palavra mais antiga, como é antigo o hábito de chutar volumes arredondados mais leves que pedras. Supõe-se ser imemorial a prática, com a imaginação autorizada a conjurar craques pré-históricos dando lúdicos pontapés em cabeças de inimigos nas festas da vitória.
O termo inglês data do século 14. Shakespeare o usou a no "Rei Lear" para colorir um insulto, especialidade da casa. "Jogador de futebol desprezível!", ouve um servo no primeiro ato, após desrespeitar o rei enfraquecido.
Aquele futebol era uma brincadeira de rua desregrada, frequentemente violenta, que a elite desprezava e temia. Uma lei escocesa de 1424 chegou a torná-lo ilegal. Foi preciso esperar até o século 19 para que jovens filhos da elite gentrificassem o jogo.
O futebol como o conhecemos nasceu em universidades inglesas, com suas primeiras regras fixadas em 1848 em Cambridge. Quinze anos depois, o racha: a turma que gostava de usar as mãos e jogar com bolas ovais foi para um lado, o pessoal que preferia pés e bolas esféricas foi para o outro.
Um esporte passou a levar o nome da cidade de Rugby, vizinha de Birmingham, famosa pela qualidade do seu jogo. O outro ficou conhecido entre os estudantes como "soccer", forma abreviada e irreverente de "association" – sim, a palavra "soccer" também nasceu na Inglaterra. Mas caberia aos EUA abraçá-la.
Uma lenda antiga deriva "soccer" de "sock", meia, devido aos meiões pesados com que os jogadores protegem suas canelas. Embora nenhum etimologista sério dê crédito a isso, sabe-se que a internet pode ressuscitar a cascata a qualquer momento, bem ao seu estilo, então convém ficar de olho.
No inglês britânico, o vocábulo "football" sem qualificativos quer dizer futebol, ponto. Nos EUA, onde –pelo menos até recentemente– o esporte praticado por Pelé não teve solo fértil, "football" é futebol americano, um derivado do rugby praticado com armaduras almofadadas e mais interrupções.
Os caras sempre gostaram de interromper o jogo, pois é. A "pausa para hidratação" da Copa 2026 é um eco tardio do seu vício nas paradas para o cachorro-quente e os comerciais.

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