sexta-feira, 10 de julho de 2026

Colírio de insulina tem resultados promissores contra lesões na córnea, FSP

 Léo Marques

Agência Einstein

Embora a insulina seja mais conhecida por seu papel na regulação da glicose no sangue, um número crescente de pesquisas tem apontado para o potencial do hormônio no tratamento de córneas lesionadas. Uma revisão publicada na revista científica Journal of Ocular Pharmacology and Therapeutics analisou estudos publicados na última década para avaliar a eficácia do colírio feito com a substância.

A análise concluiu que a insulina apresentou resultados promissores na cicatrização da córnea, na regeneração nervosa ocular e na recuperação de defeitos epiteliais persistentes —lesões que simplesmente não fecham sozinhas e desafiam os tratamentos convencionais. A técnica faz sentido do ponto de vista biológico.

A imagem mostra um close-up do olho humano, destacando a íris castanha e a pupila. Os cílios são visíveis e a pele ao redor do olho apresenta rugas. Refletido na superfície do olho, há um padrão que parece ser uma grade ou rede.
Estudos mostram que insulina de uso tópico pode acelerar a cicatrização ocular - Rafaela Araújo - 3.jul.25/Folhapress

"A insulina não é apenas um hormônio metabólico. Ela também atua como fator trófico, estimulando migração e proliferação celular", diz o oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo do Einstein Hospital Israelita.

Um trabalho divulgado em dezembro no Canadian Journal of Ophthalmology reforça o interesse clínico na terapia. Pesquisadores analisaram os olhos de 28 pessoas com ceratopatia neurotrófica, uma doença rara e degenerativa causada por danos nos nervos da córnea, em que a perda de sensibilidade impede a cicatrização adequada do tecido, favorecendo ulcerações, perfurações e perda de visão.

Entre os casos moderados e graves, 78,3% apresentaram cicatrização completa das lesões após o uso do colírio de insulina. O tempo de recuperação foi de cerca de um mês, e os efeitos adversos foram mínimos. Apenas um paciente desenvolveu irritação leve da córnea, resolvida sem interrupção do tratamento.

"Uma taxa próxima de 78% em casos moderados a graves é muito relevante, porque estamos falando de pacientes muitas vezes refratários", afirma Lottenberg. Segundo ele, os dados indicam uma alternativa promissora, mas ainda não como resposta definitiva para todos os casos.

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Hoje, o tratamento da ceratopatia neurotrófica varia conforme a gravidade. Casos leves costumam ser manejados com lágrimas artificiais, lentes de contato terapêuticas e terapia com fator de crescimento neurotrófico. Já quadros avançados podem exigir transplante de membrana amniótica ou tarsorrafia, cirurgia para unir ou costurar temporária ou permanentemente as pálpebras superior e inferior.

O interesse pela insulina tópica cresce também porque as alternativas atuais podem ser extremamente caras. A cenegermina —primeiro medicamento aprovado especificamente para ceratopatia neurotrófica em estágios moderados a graves— custa cerca de US$ 100 mil (R$ 512 mil) por um ciclo de oito semanas e nem sequer está disponível no Canadá, onde o estudo foi realizado, tampouco no Brasil. Já o colírio de insulina utilizado pelos pesquisadores custaria aproximadamente US$ 150 (R$ 768) para o mesmo período.

"A insulina tópica, se padronizada e validada, poderia ampliar o acesso, especialmente em sistemas de saúde com restrição de recursos", diz Lottenberg.

A diferença de preço ajuda a explicar por que tantos pesquisadores passaram a enxergar o colírio como uma possível opção de primeira linha para casos refratários, ou seja, que não respondem aos tratamentos convencionais.

Como a insulina age no olho

Por suas propriedades anabolizantes, o hormônio ativa vias celulares relacionadas à regeneração tecidual. Ao ligar-se a receptores presentes na córnea, a insulina desencadeia mecanismos que estimulam a migração e a proliferação das células epiteliais, além de reduzir a morte celular. Na prática, isso ajuda o tecido lesionado a se reconstruir mais rapidamente.

"A insulina pode ter efeitos não apenas epiteliais, mas também neurotróficos", afirma o endocrinologista Fernando Gerchman, diretor da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e membro da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

A hipótese é interessante para pacientes com diabetes, que frequentemente desenvolvem neuropatias oculares e alterações na cicatrização da superfície ocular. Entre os possíveis mecanismos estão estímulo de sobrevivência neuronal, crescimento axonal e ativação de vias regenerativas intracelulares.

Outra revisão sistemática recente, publicada em 2025 no Beyoglu Eye Journal e focada em defeitos do epitélio corneano, reforça o potencial terapêutico do colírio. Os autores concluíram que a insulina tópica demonstrou eficácia significativa na cicatrização dessas lesões, com perfil de segurança favorável e baixa taxa de recorrência. "Os dados de segurança são animadores, com poucos efeitos adversos relatados, mas ainda não suficientes para uma conclusão definitiva", pondera o especialista do Einstein.

Vai chegar aos consultórios?

Com a necessidade de mais estudos, a terapia ainda está longe de virar rotina nos consultórios. Os trabalhos publicados até agora são pequenos, retrospectivos e usam formulações diferentes entre si —com variações de dose, concentração, frequência de aplicação e tempo de uso. Portanto, ainda não existe consenso sobre qual seria o protocolo ideal de tratamento.

"Falta o que sempre falta antes da adoção ampla: estudos prospectivos, randomizados, multicêntricos, com comparação direta contra terapias aprovadas", diz Lottenberg.

Também permanecem dúvidas sobre a absorção sistêmica da insulina aplicada nos olhos. Até agora, não foram observados casos relevantes de hipoglicemia, provavelmente porque as doses usadas são muito pequenas e feitas em superfície epitelial. Mesmo assim, os pesquisadores defendem cautela até que existam estudos maiores e de longo prazo.

Para Gerchman, outro desafio será transformar a promessa científica em produto viável. "Precisaria consolidar a ideia com ensaios clínicos mais sólidos que demonstrassem benefício real e redução de problemas relacionados, dor, perda de visão, aumento da pressão intraocular e uma farmacoeconomia adequada", afirma.

Além disso, seria necessário interesse da indústria farmacêutica em desenvolver formulações específicas para uso ocular.

Ainda assim, a ideia de utilizar um hormônio relativamente barato para tratar doenças complexas da córnea mostra como a medicina frequentemente encontra soluções improváveis em substâncias já conhecidas. E, no caso da insulina, o futuro pode ir muito além do controle do diabetes.

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