No começo era a política. Aristóteles argumentou que, por viver em sociedade, em cidades-estados, as pólis, o homem é um animal político. Mas como a política muda conforme os tempos e circunstâncias, há que situá-la na história, periodizá-la. Isso é cada vez mais difícil devido às mudanças aceleradas das últimas décadas.
A mais recente e poderosa tentativa de periodização é de Anton Jäger, historiador belga que leciona em Oxford, publica ensaios nas revistas Jacobin e New Left Review e é editor contribuinte da página de opinião do The New York Times. Detalhe expressivo: tem 32 anos.
Ele vem de publicar "Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences" —hiperpolítica, politização extrema sem consequências políticas—, não traduzido para o português.
O livro foi lido avidamente, segundo o The Guardian, no Reino Unido, onde, num sintoma de crise política, aboletou-se há pouco em Downing Street o sexto primeiro-ministro em dez anos. No outro lado do Atlântico, o The New York Times disse que ele traz "um dos melhores e fascinantes esforços para modelar o presente político em toda sua estranheza atordoante".
Jäger analisa a política na Europa, onde nasceu o capitalismo, e nos Estados Unidos, onde chegou ao auge. É uma política diversa da brasileira, mas tem a ver com o que ocorre aqui. São três as fases da política que detecta: a pós-política, a antipolítica e, agora, a hiperpolítica.
Intercalada por guerras, a política foi atividade reivindicatória e de massa até 1989. Foram anos de glória para sindicatos e partidos, tempos de greves e passeatas. Por isso mesmo, houve aumento de empregos e salários, até a tendência ser estancada por Reagan e Margaret Thatcher.
Aí veio o "annus mirabilis", em que se derrubou o Muro de Berlim, logo seguido pelo fim da União Soviética. Apesar das distorções e dos horrores stalinistas, deixou de existir uma possibilidade de alternativa ao status quo. Foi o fim da história e início da pós-política.
Minguaram os partidos social-democratas e comunistas. Em contrapartida, cresceu o poder de tecnocratas e de organismos supostamente neutros, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e, nos países, bancos centrais e ministérios da economia.
No plano social, valorizaram-se o individualismo, o hedonismo e a intimidade. Na economia, o incremento tecnológico dizimou indústrias e empregos, enfraquecendo sindicatos. Houve concentração do capital, perda de poder aquisitivo, desigualdade acentuada e, mercê do afrouxamento de regras, financeirização.
Chegou-se então à antipolítica, inaugurada, grosso modo, em 2008, com a quebra de grandes bancos nos EUA. Espoucou a contestação antissistema, que levou a aglutinações tipo Occupy Wall Street, Podemos, na Espanha, e Syriza, na Grécia. A Primavera Árabe, em 2010, e as jornadas de junho, no Brasil de 2013, integrariam esse abalo geral.
O saldo organizatório dessa maré, porém, foi zero —mesmo quando Podemos e Syriza chegaram ao poder. Como os movimentos desprezavam a hierarquia e as instituições, não houve centralização da energia em partidos nem, menos ainda, articulação internacional dos desvalidos.
Aos solavancos, passou-se para a etapa atual, a da hiperpolítica. Nela, tudo é política: o acasalamento, o vocabulário, o lazer, a família, até o time para o qual se torce. A participação em eleições decresceu, facilitando a chegada ao poder de demagogos e influencers —bastava ser contra quem estava no poder. A politização micro e extrema forçou o desprezo pela política abrangente.
As elites burguesas se desterritorializaram. Buscam o lucro imediato em jogadas nas bolsas, se lixando para as nações. Vivem e investem em bolhas econômicas e existenciais. O exemplo maior dessa tendência é Trump, que vive e governa num aqui e agora perpétuo.
Ele desdiz hoje o que falou ontem; afirma que a paz com o Irã é iminente e, ao mesmo tempo, promete fazer o país retroceder à idade da pedra; não tem perspetivas nacionais e racionais; quer enriquecer e passa o trator em quem se opõe a isso.
Na base da sociedade, a atomização se radicalizou, sem deixar de gerar manifestações formidáveis. Mesmo os maiores movimentos de massa da história americana, diz Jaëger, os que se seguiram ao assassinato de George Floyd pela polícia, em 2020, não tiveram consequência prática.
É por isso que Zoe Williams, no The Guardian, resumiu a hiperpolítica numa frase: o tempo em que "tudo explode e nada muda".

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