A novela de 1929 "Mendel, o Livreiro", do escritor austríaco Stefan Zweig, conta a história de Jacob Mendel, um homem obcecado por livros, cujo extraordinário conhecimento bibliográfico acaba transformando-o numa espécie de instituição entre estudantes e colecionadores de Viena.
Nascido nos arredores de Petrikau, cidade polonesa então sob domínio russo, Mendel mudou-se ainda jovem para a capital austríaca, seguindo um percurso comum a muitos judeus da Europa Oriental que, no início do século 20, buscavam melhores condições de vida.
Em Viena, ele trocou os estudos para o rabinato pelo conhecimento secular e tornou-se vendedor de livros usados. No entanto, como não estava autorizado a abrir uma livraria, passou a exercer o ofício em um café de bairro, onde recebia clientes e respondia a consultas bibliográficas.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Mendel passava seus dias sentado à mesa do café, lendo catálogos editoriais e revistas especializadas, como quem estuda uma página de Talmud, murmurando o texto em uma cadência ritmada até fixá-lo em sua prodigiosa memória.
Independentemente da procedência de um livro ou da obscuridade de seu autor, Mendel era capaz de localizar qualquer publicação, tornando-se, por isso, um recurso mais confiável do que os principais bibliotecários da cidade.
Sua reputação entre os bibliófilos era tão grande que, embora nunca consumisse mais do que um ou outro pãozinho ou bebida quente, o dono do café tolerava sua presença, pois ela movimentava ainda mais o estabelecimento.
A eclosão da guerra marca a decadência do personagem. Completamente alheio ao que se passava na Europa, Mendel permanece imerso em seu trabalho e tenta se corresponder com editores e alfarrabistas de países inimigos.
Preso sob suspeita de espionagem, a situação do vendedor de livros torna-se ainda mais delicada quando as autoridades descobrem que, apesar de residir em Viena havia mais de 30 anos, ele jamais se preocupara em adquirir a cidadania austríaca.
Após dois anos de detenção, Mendel é libertado graças à influência de seus clientes, mas sua memória já não é a mesma. Incapaz de responder à mais simples consulta bibliográfica, ele cai no esquecimento e acaba expulso do café, agora sob nova administração.
Para o narrador de Zweig, mais do que uma tragédia individual, a ruína de Mendel simboliza o declínio de um mundo que ainda reservava espaço para figuras excêntricas como o livreiro, tão familiares ao próprio autor. Daí a observação do narrador de que o valor do que é verdadeiramente singular cresce a cada dia num mundo que se torna irremediavelmente uniforme.
Concordo, em parte, com o narrador. Não vou, porém, tão longe a ponto de acreditar que já não haja mais espaço em nosso mundo para o que é único e surpreendente. Prova disso é que enquanto terminava a leitura da novela, recebi de um amigo uma reportagem do The New York Times sobre uma espécie de Jacob Mendel da vida real.
O nome foi apenas a primeira semelhança que encontrei entre os dois. Assim como o personagem de Zweig, Mendel Uminer, de 31 anos, também frequentou um seminário rabínico —desta vez nos Estados Unidos—, mas acabou deixando a formação religiosa para seguir uma carreira dedicada aos livros.
Hoje, Uminer tem uma biblioteca com cerca de 10 mil exemplares sobre os mais variados temas. Mas, assim como Mendel, sua paixão pelos livros acabaria por lhe causar sérias dificuldades. Ele foi despejado do apartamento onde morava em Nova York sob a alegação de que o excesso de livros oferecia risco de incêndio.
A diferença entre Jacob Mendel e Mendel Uminer é que Uminer pôde recorrer à Justiça para contestar a decisão do condomínio. Cidadão americano, ele contou com garantias jurídicas das quais Mendel jamais dispôs. Assim, embora tenha sido obrigado a deixar o apartamento, sua história não terminou ali.
O colecionador de livros de Nova York conseguiu encontrar outro lugar para viver e sua biblioteca permanece, por enquanto, abrigada no Brooklyn, na casa de seus pais.

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