quarta-feira, 22 de julho de 2026

Mais demagogia no Alemão - Elio Gaspari, FSP

 Em julho de 2011, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o teleférico do Morro do Alemão, no Rio, e arriscou: "O Complexo do Alemão tem tudo para se transformar num ponto turístico". Bingo.

Quatro anos depois Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, viajou no teleférico e pontificou: "Estou me sentindo numa estação de esqui". Um ano depois a geringonça foi desativada e desativada está. Madame Lagarde, uma pessoa discreta, nunca produziu outra batatada desse calibre.

De lá para cá, a comunidade voltou ao noticiário em outubro do ano passado, quando a polícia do Rio chacinou 117 pessoas no morro do Alemão. Se aquela comunidade pode vir a ser um ponto turístico, pode abrigar o Museu da Empulhação, um repositório de todas as presepadas prometidas por presidentes, governadores e prefeitos.

Trabalhador com roupa azul, capacete verde e luvas amarelas aplica cimento em laje de concreto. Ao fundo, extensa favela com casas próximas em morros sob céu azul.
Operário trabalha em obra de teleférico, no morro da Baiana, Complexo do Alemão, em 2010; obra fazia parte do PAC - Rafael Andrade - 2.dez.10/Folhapress

O Alemão já viu de tudo. Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Teleférico e Unidade de Polícia Pacificadora. Uma operação militar foi saudada como a tomada de Berlim em 1945, teve bandeira hasteada no topo do morro e resultou em nada. Um paspalho fantasiado de Rambo ilustrou a enganação do evento.

A iniciativa de maior alcance levada ao Alemão partiu do Judiciário, pelo Programa Solo Seguro. Em 2023, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 escrituras definitivas a moradores da comunidade facilitando-lhes a vida comercial. A proeza custou a impressão das escrituras, a ajuda dos cartórios e o trabalho de 17 pessoas, duas da Corregedoria, mais 15 da prefeitura. Ideia do então corregedor Luis Felipe Salomão.

A entrega dos documentos aconteceu com pouca fanfarra e muito trabalho.

O repórter Yuri Eiras informa que depois de ter torrado R$ 493 milhões de um PAC velho, torrarão mais R$ 210 milhões num PAC novo.

O teleférico está parado, o comércio instalado no seu entorno fechou. Sua recuperação prevê elevadores e escadas rolantes. Uma das empresas encarregadas do serviço solicitou a prorrogação do prazo de entrega da obra pelo mais elementar dos motivos: falta de pagamento.

Nem todo o dinheiro foi para o ralo. Estão funcionando uma creche, o centro comercial, unidades de saúde, espaços para cursos e um cinema. Muita parolagem e pouco resultado.

As comunidades do Rio não precisam ser transformadas em playgrounds de maganos entregando promessas que às vezes satisfazem só aos empreiteiros.

Um painel do Tribunal de Contas da União tabulado em abril de 2025 mostra que de 196 obras do PAC, 138 estavam paradas. Algumas delas foram recicladas e incluídas no novo PAC de Lula.

Noves fora o mercado de ilusões e propinas do governo Sérgio Cabral (2007-2014), o próprio projeto do teleférico desprezou a opinião dos moradores, mais interessados em descer do que em subir. O Museu da Empulhação poderia começar em torno de um núcleo que trataria só do Alemão. Expandindo-se, ganharia o nome de Museu do Ontem. Ele teria a virtude de manter vivas as promessas feitas com a plena certeza de que não serão cumpridas ou, refinando o diagnóstico, serão cumpridas enquanto intere$$arem aos empreiteiros.

Nenhum comentário: