sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não basta financiar projetos, é preciso fortalecer quem transforma territórios -FSP

  

Andréa Gomides

Fundadora do Instituto Ekloos, é pós-graduada em gestão estratégica de negócios pela Fundação Getulio Vargas com PMD pelo IESE Business School de Barcelona

Quando uma iniciativa social consegue ampliar o número de crianças atendidas, reduzir a evasão escolar, gerar renda para mulheres ou proteger um território, costumamos olhar para o resultado. Pouco se fala sobre o que tornou aquele impacto possível.

Por trás dessas transformações estão lideranças locais que enfrentam problemas históricos de educação, saúde, emprego e desigualdade. Ainda assim, grande parte do investimento social privado se concentra em projetos de curto prazo e metas pontuais.

Esses recursos são essenciais, mas não bastam para fortalecer quem sustenta as mudanças nos territórios. Fortalecimento institucional significa investir na capacidade das organizações de se desenvolverem.

Andrea Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social
Andréa Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social - Divulgação

É oferecer acesso a formação em gestão, planejamento estratégico, comunicação, governança, sustentabilidade financeira, monitoramento de resultados e captação de recursos. É criar condições para que uma organização deixe de apenas responder às demandas do presente e consiga construir uma atuação sólida para os próximos anos.

Levantamento realizado pelo Instituto Ekloos em 2026 mostra que a captação de recursos é o principal desafio para mais de 74% das organizações —e quase 60% delas não têm nenhuma fonte contínua de financiamento.

Sem esse apoio para se estruturarem, muitas iniciativas acabam gerando um impacto social menor do que poderiam. Não por falta de conhecimento sobre os territórios, compromissos ou as boas soluções, mas porque suas lideranças precisam dividir a energia entre atender a população, buscar recursos, administrar equipes, prestar contas e manter a própria organização funcionando.

É nesse cenário que o edital BNDES Periferias Fortes Nordeste estabelece um marco histórico. Com mais de R$ 17 milhões, é o maior investimento social direcionado à região.

Executada pelo BNDES em parceria com o Instituto Ekloos, a iniciativa supera a lógica do simples repasse financeiro ao reconhecer que o impacto duradouro depende também do fortalecimento das organizações que sustentam as ações nos territórios.

Ao selecionar 85 iniciativas em oito estados nordestinos, o programa combina aportes financeiros de até R$ 300 mil com capacitações, mentorias especializadas e apoio à formalização. O diferencial do modelo está justamente no olhar para os diferentes níveis de maturidade institucional.

Afinal, dar dinheiro sem dar estrutura é perpetuar a vulnerabilidade das organizações. Por isso, o edital oferece uma trilha de capacitações e mentorias em gestão, sustentabilidade financeira e outros temas essenciais, além de apoio técnico e jurídico para a formalização de coletivos que ainda não possuem CNPJ.

Essa escolha rompe uma lógica ainda comum no investimento social. Muitas vezes, exigências criadas para garantir segurança, governança e transparência acabam excluindo justamente as iniciativas mais próximas dos territórios.

Organizações pequenas e coletivos comunitários não ficam fora dos grandes investimentos porque produzem menos impacto. Ficam porque não dispõem dos processos e das estruturas exigidos pelos financiadores.

O desafio para as empresas, portanto, não é apenas aumentar o volume de recursos destinados à área social, mas rever como eles chegam aos territórios.

Governança e controle são indispensáveis, porém não podem funcionar como barreiras que concentram investimentos nas organizações já estruturadas. É preciso criar mecanismos que combinem segurança, acompanhamento técnico e acesso para iniciativas em diferentes estágios de maturidade.

O futuro do investimento social depende de reconhecer o fortalecimento institucional como parte da estratégia de impacto.

Quanto mais preparadas estiverem as organizações locais para gerir recursos, formar equipes, construir parcerias e planejar sua continuidade, maior será a capacidade de produzir transformações consistentes.


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