sábado, 25 de julho de 2026

Crianças precisam resgatar direito sagrado a tédio e joelho ralado- FSP

 Waldemar Magaldi Filho

Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

[RESUMO] O autor afirma que a onipresença das telas dificulta o desenvolvimento infantil ao substituir as brincadeiras, o tédio e a imaginação por estímulos imediatos. Ele defende resgatar a infância ao ar livre como forma de fortalecer a criatividade e a saúde emocional.

Nossas crianças estão ansiosas e ouso dizer que estão esquecendo o idioma ancestral da infância. Aquele dialeto secreto onde uma caixa de papelão vira uma nave espacial e um cabo de vassoura se transforma na espada do rei Arthur.

Hoje elas parecem abduzidas precocemente por um feitiço luminoso. Estão capturadas como pequenos zumbis pelas rolagens contínuas de telas que oferecem mundos inteiros e mastigados em frações de segundo.

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Crianças brincam em gira-gira em São Paulo, no ano de 1968 - Bosco - Acervo UH/Folhapress

O imediatismo do toque na tela criou a geração "touchscreen" que tenta dar zoom em formigas reais e deslizar o dedo na página de um livro de papel esperando que a imagem se mova. O mundo tátil e tridimensional foi reduzido a uma superfície de vidro frio onde a realidade é descartada com um simples arrastar de dedos.

Toda essa facilidade digital é um banquete dopaminérgico que vicia e anestesia. A recompensa instantânea gera uma impaciência crônica para qualquer tipo de espera. Esperar a vez no balanço do parque ou aguardar a semente brotar no algodão molhado virou uma tortura insuportável.

Falta conexão com a terra e com o entorno relacional. O olhar que antes buscava o rosto do amigo agora mergulha no abismo de um buraco negro de pixels.

A tolerância à frustração despencou para níveis subterrâneos e o foco escorre pelas mãos como areia fina. Não por acaso assistimos atônitos ao aumento significativo de casos de TAG (transtorno de ansiedade generalizada), TEA (transtorno do espectro autista) e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) inundando os consultórios. Uma sopa de letrinhas diagnósticas que denuncia o colapso de um psiquismo bombardeado.

A isso soma-se a nomofobia, aquele pânico suarento e taquicárdico de ficar sem o celular, revelando que o cordão umbilical moderno é um cabo de carregador.

Para mim, o maior dano dessa hiperconectividade não é apenas a miopia precoce ou a má postura. O verdadeiro estrago ocorre na alma. Há uma perda trágica da capacidade de exercitar a potencialidade imaginal.

A imaginação é o principal instrumento da criatividade humana e a ponte direta para o nosso inconsciente. Sem o tédio não há invenção. Criar fantasias e o desafio de superar obstáculos imaginários ficam atrofiados. A competência de simbolizar a vida perde espaço para imagens prontas e enlatadas que o algoritmo decide entregar.

Quando a criança não cria a própria imagem ela engole a imagem do outro sem mastigar. Fica assim instaurada uma sociedade anestesiada e absolutamente incapaz de lidar com a dúvida e com a angústia. O mistério e o não saber, que antes eram motores da curiosidade filosófica, hoje causam pavor em mentes viciadas em respostas instantâneas de buscadores virtuais.

Brincar é coisa muito séria. Significa formar uma aliança profunda com a experiência lúdica e com a própria essência. A palavra diversão carrega em sua raiz a capacidade de lidar com a diversidade. Divertir-se é acolher o múltiplo e possibilitar a inclusão de todas as expressões humanas no grande teatro da vida. Quem não se diverte fica adverso e rígido. Torna-se aquele que divide e separa.

Essa incapacidade de suportar a tensão dos opostos e a angústia do desconhecido estimula apostas unilaterais cegas e um crônico mau-humor social. É exatamente essa rigidez psíquica que justifica e alimenta a atual e nefasta polarização que estamos vivenciando.

Na psicologia analítica lembramos sempre que o que divide é o diabolos e o que une e integra é o símbolo. A tela isola, divide e polariza, enquanto a brincadeira de roda no quintal simboliza e costura os pedaços da nossa humanidade.

Precisamos resgatar o direito sagrado ao tédio e ao joelho ralado. Desligar o roteador de vez em quando é religar a tomada da alma. Deixemos que as crianças voltem a sujar as mãos de terra para que possam moldar o próprio mundo interno com a argila da imaginação livre e selvagem.

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