quarta-feira, 29 de julho de 2026

Convencional, filme sobre Ignácio de Loyola Brandão revela fascínio, FSP

 

Não Sei Viver Sem Palavras

  • Quando Estreia qui. (30) nos cinemas
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2025
  • Direção André Brandão

O cinema brasileiro deste século viu a proliferação dos documentários, um pouco pelo sucesso crítico e comercial de Eduardo Coutinho, um pouco pelas facilidades, ou menos dificuldades, de orçamento e editais.

Um filão compreensivelmente prolífico do gênero é o retrato biográfico de alguém ligado às artes, vivo ou morto, seja escritor, músico, cineasta ou coisa que o valha.

Passeando pelas memórias e escritos de Ignácio de Loyola Brandão, "Não Sei Viver Sem Palavras", dirigido por seu filho, André Brandão, é um filme bem mais quadrado do que a obra do escritor. E, quando procura algum desvio, fica sempre ameaçado de sair dos eixos.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão em Berlim, em 1982 - Acervo pessoal

Loyola é colocado numa cadeira no centro de uma praça ou na plataforma de uma estação ferroviária. Quando é filmado de frente, todo o fundo fica fora de foco, de acordo com a atual moda de sonegar do espectador boa parte do espaço fílmico. Quando é filmado lateralmente, vemos o fundo perfeitamente.

Muitas fotos são mostradas no decorrer do documentário biográfico. Belas fotos, históricas, contam muito do passado. A não ser quando é inserido um efeito que coloca movimento dentro delas. Desvio, indesejável deformação. Conta muito do mundo contemporâneo.

O filme é, em grande parte, subordinado aos escritos de Loyola, às palavras sem as quais ele não sabe viver. Essas palavras podem nos levar a antigos filmes familiares em super-8, aos filmes que ele amava —de Fellini, Luiz Sérgio Person ou Anselmo Duarte—, ao nascimento de seu filho, às tenebrosas memórias da ditadura militar ou até a um passeio de carro por Araraquara, cidade onde nasceu.

O longa começa na abstração, com a captação, bem de perto, da correnteza de algum rio. Depois, uma cachoeira —porque "cinema é cachoeira", dizia Humberto Mauro, numa ideia já muito repetida do cinema como um fluxo. Bons momentos são alcançados quando os escritos do autor são narrados em voz off e ilustrados com imagens da natureza ou de filmes familiares.

Em conversas captadas ou recuperadas pelo filho, Loyola fala de suas próprias obras. Do livro que escreveu a partir de uma temporada em Berlim, "O Verde Violentou o Muro", de 1984. Da formação intelectual e dos enfrentamentos com a ditadura militar.

Fala de seus maiores sucessos, como o livro "Zero", de 1975, censurado pelo regime militar e publicado só em 1979 no Brasil, ou "Não Verás País Nenhum", de 1981, que se passa numa São Paulo do futuro, onde coisas estranhas acontecem. Fala também de seu romance incompreendido, "Dentes ao Sol", de 1976, seu preferido e o que menos vendeu.

Passa ainda por sua faceta de crítico de cinema. E pelas relações com seu pai e com seus filhos, e até mesmo pela possibilidade de "não repetir o pai", conforme o filho e diretor questiona, num interessante jogo entre pai e filho.

Nos créditos finais, são mencionados os trechos usados de seus escritos, os filmes que tiveram trechos usados ou foram adaptados de suas obras, como "Anuska, Manequim e Mulher", de Francisco Ramalho Jr., baseado num conto do livro "Depois do Sol". Poderiam ter mostrado "Bebel, a Garota Propaganda", de Maurice Capovilla, inspirado no seu primeiro romance, "Bebel que a Cidade Comeu".

Loyola afirma que gostaria de ter sido diretor de cinema. Fazer crítica de cinema era caminhar um pouco na direção desse sonho. Calhou de ser escritor, mas na vida de um criador, acumular frustrações é algo normal. Aquele que não as tem, quis pouco, provavelmente.

Uma ideia que fica perdida e merece ser resgatada é o entendimento de que a literatura é movida, entre outras coisas, por um certo desejo de vingança. É interessante, porque o escritor pode tudo, inventa o mundo de acordo com seus desejos e pode projetar desafetos em alguns personagens.

No cinema, isso também pode acontecer. E num filme feito por um filho sobre o seu pai, não há como ignorar um certo desejo de vingança. Não porque esse filho não goste do pai, mas porque ao criar o filme, ele detém, ou deveria deter, o controle sobre a imagem do pai.

O diretor é o filho. O pai pode interromper um depoimento com um determinante "agora chega". Mas o filho escolhe o que vai mostrar e o que vai sonegar do espectador. O filho decide encher de música o filme, as notas brigando com a voz do pai. Os erros e acertos são de André Beltrão.

Se há uma fraqueza clara em "Não Sei Viver Sem Palavras", é o fato de ser convencional até nos excessos, como vários outros documentários biográficos que vimos nos últimos anos.

A força também é evidente: deixar transparecer o fascínio da arte de Ignácio de Loyola Brandão e sua contribuição para a literatura brasileira do século 20.

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