domingo, 19 de julho de 2026

O Império do Meio contra-ataca (em inteligência artificial)., Ronaldo Lemos- FSP

 Os últimos dias não foram bons para a liderança dos EUA em inteligência artificial, e o Brasil teve um papel nisso

O que aconteceu foi que a China conseguiu orquestrar um ataque feroz à hegemonia dos Estados Unidos. A ofensiva aconteceu simultaneamente em várias camadas na semana passada, com efeitos de mercado imediatos.

Além de pressionar a Nasdaq, o preço das empresas de chips caiu 5,7% só na sexta (acumulando 20% de queda desde o fim de junho). O tombo chegou a tirar a Nvidia da posição de empresa mais valiosa do planeta.

O blitzkrieg chinês avançou em três frentes. O primeiro foi o lançamento do novo modelo de IA (inteligência artificial) chinês Kimi K3. De pronto, ele foi ranqueado em primeiro lugar no ranking da Arena, ultrapassando o Fable 5 da Anthropic e o GPT 5.6 Sol. No índice geral da Artificial Analysis ele figura em terceiro, atrás apenas desses dois.

Logotipo branco da Kovi em fundo preto fixado em parede azul. Ao lado, várias mochilas azuis com a palavra 'Kovi' penduradas em fileiras.
Logomarca da Kimi K3, nova IA lançada pela China - Hector Retamal/AFP

Um dado impactante é que se trata de um modelo de IA aberto ("open weights"). Isso significa que pode rodar em infraestrutura local, ser retreinado em português e especializado em aplicações do agro, indústria, energia e outros campos estratégicos. Tudo isso sem o risco de interrupções geopolíticas repentinas e com controle sobre a confidencialidade/privacidade dos dados.

O segundo front atacado pela China explica como o lançamento de um modelo de IA derrubou empresas de chips. O Kimi K3 é otimizado para rodar em hardware chinês na inferência, como os chips da Huawei. Além disso, o modelo teria sido treinado parcialmente com chips chineses.

E vale lembrar: há pelo menos um modelo de fronteira treinado 100% com chips chineses, o LongCat 2.0 da Meituan, algo inconcebível 4 anos atrás. Em suma, a China quer disseminar seus modelos de inteligência artificial de forma aberta e, na sequência, vender chips e a infraestrutura para seu funcionamento.

Isso nos leva à terceira camada da ofensiva chinesa, ocorrida na semana passada. O país lançou a iniciativa internacional chamada Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial (WAICO). Seu objetivo é gerir a IA a partir da visão expressa em discurso proferido pessoalmente por Xi Jinping: "o desenvolvimento da IA não deve ser uma performance solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional".

No mesmo evento, a Huawei exibiu seu novo produto Atlas 950 SuperPod, um cluster de 1024 chips. Em suma, a China lançou um organismo diplomático, um modelo de IA forte, chips e software que formam um projeto industrial unificado.

O Brasil aderiu imediatamente à WAICO, juntando-se à África do Sul, Cuba, Indonésia, Malásia, Nicarágua, Rússia e Venezuela, em um total de 29 países. É um contraponto ao grupo formado pelos EUA, chamado Pax Silica, que reúne Alemanha, Argentina, Chile, Índia e Reino Unido, totalizando 30 países.

Dependendo de onde se olhar no mundo, esses eventos tiveram repercussões distintas. Nos EUA, há a acusação de que os modelos chineses são criados com base nos americanos, por meio de "destilação". Nas Filipinas, a WAICO foi chamada de "cavalo de Troia da dominância algorítmica chinesa para coordenar países do Sul Global na ONU".

O Vietnã (que já esteve em conflitos armados com os EUA e com a China) ficou quieto e não faz parte de nenhum dos grupos. Em que parte do mundo você está?

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