terça-feira, 21 de julho de 2026

Como o shopping Light se tornou o primeiro retrofit do centro de São Paulo, FSp

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Se hoje a palavra está na moda, nos anos 1980 e 1990 não se falava tanto em retrofit, termo que designa a modernização de um prédio antigo e tombado, em geral para mudar sua função. Mas algumas construções de São Paulo já passavam por um processo desse tipo, que não se confunde com uma restauração.

A primeira foi o Sesc Pompeia, fábrica convertida em centro cultural na zona oeste de São Paulo com projeto de Lina Bo Bardi. Mais tarde veio o edifício Alexandre Mackenzie, no centro, na esquina da rua Xavier de Toledo com o viaduto do Chá, transformado no shopping Light.

Antiga sede dos escritórios da companhia The São Paulo Tramway Light and Power e, mais tarde, da estatal Eletropaulo, o imóvel foi erguido em 1929 pelo escritório de Ramos de Azevedo, com projeto dos norte-americanos William Preston e John Curtis. Em 1941 passou por uma ampliação.

Shopping Light
Vista do exterior do edifício Alexandre Mackenzie, erguido em 1929 para abrigar a sede da Light - Vicente Vilardaga

Construído em estilo eclético, ele ocupou o terreno do antigo Teatro São José, principal polo cultural da cidade antes da inauguração do Theatro Municipal. Atendia a uma necessidade da Light de reunir seus funcionários, antes espalhados em sete endereços na região, em um único local.

Com a privatização da Eletropaulo, o prédio, depois de um leilão, foi concedido por 50 anos para o fundo Birmann, cujo plano era instalar um shopping no local. Havia, porém, a necessidade de preservar ao máximo a arquitetura original e, ao mesmo tempo, de renová-lo estruturalmente.

O Alexandre Mackenzie já era tombado tanto pelo órgão de defesa do patrimônio histórico estadual, o Condephaat, como pelo municipal, o Conpresp.

Pessoas sobem e descem escada rolante em corredor de shopping. À direita, loja Calvin Klein com vitrine iluminada e interior visível.
Centro comercial recebe cerca de 25.000 pessoas por dia e é um dos preferidos dos paulistanos - Jardiel Carvalho/Folhapress

O desafio era fazer um retrofit e transformar um edifício de escritórios em um centro comercial com mais de uma centena de lojas sem corromper a construção. Para isso, as intervenções foram controladas e os elementos históricos foram preservados. O arquiteto Carlos Faggin foi o responsável pela restauração.

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Toda a fachada, por exemplo, foi recuperada e mantém até hoje características do passado. O interior ganhou equipamentos necessários a um shopping, como escadas rolantes e lojas, mas manteve instalações antigas, como os elevadores (que até hoje têm ascensoristas), as claraboias e os vitrais da Casa Conrado, os lustres e luminárias do andar térreo, as colunas de sustentação e as escadarias. Ao mesmo tempo, tratou-se de modernizar a infraestrutura elétrica e hidráulica.

Elevadores do Shopping Light
Elevadores do shopping mantém características da década de 1920 e contam com ascensoristas - Vicente Vilardaga

Uma curiosidade é que o Alexandre Mackenzie foi construído como uma caixa-forte. No passado, os clientes da Light pagavam suas contas no prédio. Há comportas de metal nas janelas, hoje cobertas com toldos vermelhos, que permitem lacrá-las. O trabalho de serralheria de seus grandes portões de ferro foi realizado pelo Liceu de Artes e Ofícios. Há 28 cofres inativos espalhados pelo local.

O shopping Light, com área construída de 35.518 m2, conta hoje com 132 lojas, várias delas outlets, sendo cinco de materiais esportivos. Recebe cerca de 25 mil pessoas por dia. Desde 2015, está sob administração da empresa israelense Gazit.

Pesquisa Datafolha recente mostrou que o centro comercial é o preferido dos consumidores da região central de São Paulo, principalmente entre os jovens e, inclusive, entre pessoas das classes A e B. O prédio tem um terraço magnífico que abriga o espaço Priceless, com o restaurante Notiê, o bar Abaru e uma sala de música. É uma das melhores vistas do vale do Anhangabaú e do centro.

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