domingo, 15 de outubro de 2023

Hélio Schwartsman- A armadilha da identidade, FSP

 "The Identity Trap" (a armadilha da identidade), de Yascha Mounk, é um livro polêmico. A ala dos progressistas que acredita na importância de valores e regras universais será só elogios para a obra, que cairá no opróbrio dos grupos que veem ações afirmativas como o principal, senão o único, caminho para a justiça social.

Independentemente da posição pessoal de cada um, acho que Mounk fez um livro honesto. Ele traça uma história até detalhada das ideias que embasam a militância dos grupos identitários. Começa com Foucault e Fanon e vai até Ibram Kendi e Judith Butler, passando por Crenshaw. Mounk é elegante e respeitoso, sempre destacando os muitos pontos em que, a seu ver, esses autores acertam em suas críticas.

Ele também tenta entender por que ideias identitárias se tornaram tão populares, às vezes até hegemônicas, em universidades, grandes empresas e na mídia, ainda que não gozem de tanto prestígio em várias coortes populacionais. Ele fala principalmente dos EUA, mas muitas de suas observações valem para outros países.

A ilustração de Annette Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo no dia 15 de outubro de 2023, mostra, sob um fundo preto, inúmeras bolinhas de seis cores —branco, vermelho, amarelo, azul, rosa e verde— que se agrupam em duas circunferências; a do lado esquerdo está dividida em seis fatias, cada uma delas preenchida por bolinhas de uma das seis cores, representando grupos identitarios; do lado direito, estão todas misturadas num movimento espiral, representando valores universais.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman publicada também na versão impressa da Folha deste domingo (15 de outubro) - Annette Schwartsman

O principal argumento do autor contra a ênfase em identidades vem da psicologia social. A literatura é farta em demonstrações experimentais de como as pessoas se sentem à vontade para dividir-se em grupos, muitas vezes artificiais, que rapidamente se antagonizam com outros grupos percebidos como rivais. Estimular essa tendência, em vez de combatê-la, é, na visão de Mounk, um erro. E um que custa caro em termos de coesão social. O rastro de ressentimentos que o discurso identitário deixa é um dos ingredientes do fortalecimento da extrema direita em vários países.

O ponto central de Mounk é que é possível, e socialmente mais produtivo, combater o racismo e outras mazelas que afetam minorias com discursos e políticas universalistas, que destaquem a humanidade comum entre as pessoas e não suas diferenças tópicas. A mim ao menos o argumento soa convincente.

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