sexta-feira, 31 de julho de 2026

Fórum em SP vai debater metas de economia circular para a COP31, FSP

 Aumentar a taxa global do uso de eletricidade como energia limpa no lugar de combustíveis fósseis de cerca de 20% para 35% até 2035. Reduzir pela metade o crescimento da geração de resíduos no mesmo período. E elevar para pelo menos 15% o índice global de uso de materiais circulares. Essas são as principais metas que serão debatidas e apresentadas durante o 2º Fórum de Economia Circular, evento que será realizado em São Paulo na próxima semana.

As propostas deverão ser discutidas também na COP31, a cúpula climática da ONU que ocorrerá neste ano na Austrália e na Turquia. A ideia é que esses indicadores norteiem ações e políticas públicas de governos, empresas e organizações internacionais.

No Brasil, apenas 1,3% dos materiais consumidos internamente são reutilizados, enquanto a média global é de 6,9% de reaproveitamento. O dado é do relatório Circularity Gap Report, produzido pela organização internacional Circular Economy e pela consultoria Deloitte.

Homem com uniforme azul e calça preta manipula grande quantidade de lixo misto, incluindo sacos plásticos azuis e caixas de papelão, dentro de galpão industrial.
Coleta seletiva de resíduos na Coopercaps, cooperativa de São Paulo - Bruno Santos -16.mai.25/Folhapress

"Ou a gente muda essa realidade ou os impactos da crise climática continuarão se tornando mais frequentes e severos, como os vendavais que deixaram cinco mortos nesta semana em São Paulo e no Rio de Janeiro", diz o diretor-executivo do Movimento Circular, Vinicius Saraceni, organizador do 2º Fórum.

"A pauta dos resíduos sólidos, do desperdício zero e da economia circular já foi incluída como prioridade da COP 31. Agora serão definidas as metas que servirão de guia para orientar as ações", acrescenta ele.

O evento terá a participação de especialistas como Carlos Silva Filho, único brasileiro integrante do Conselho Consultivo do Secretário-Geral da ONU para resíduos sólidos e economia circular.

Edifícios residenciais são nova tendência no triângulo histórico de SP - FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

O centro de São Paulo tem dois lados, separados pelo vale do Anhangabaú: o novo e o velho. O primeiro é cortado pela rua Barão de Itapetininga e ocupa o espaço entre as praças da República e Ramos de Azevedo, onde fica o Theatro Municipal. O outro inclui o chamado triângulo histórico e se estende das ruas Líbero Badaró e Boa Vista até a praça da Sé.

Há uma diferença importante entre eles. O centro novo passou a atrair milhares de moradores, grande parte deles jovens, para seus prédios antigos ou retrofitados. Hoje, é palco de uma intensa vida social e cultural. O velho ficou mais parado, mantendo seu perfil comercial e administrativo, com raros edifícios residenciais e pouquíssima circulação de pessoas a partir das 18h e durante a noite.

Mas essa situação começa a mudar e a tendência é que os dois lados fiquem parecidos e integrados a médio prazo. O objetivo é fazer do centro velho, com seus longos calçadões, atualmente sendo requalificados, um lugar de permanência e não só de passagem.

Avenida São João vista de cima, cercada por prédios altos e variados. A avenida larga está quase vazia, com poucas pessoas e veículos, e árvores alinhadas ao longo da via. O horizonte mostra uma densa malha urbana sob céu nublado.
Vista aérea do vale do Anhangabaú, que demarca a separação do centro velho (à esq.) e do novo - Eduardo Knapp/Folhapress

Neste momento, existem pelo menos seis projetos de instalação de condomínios habitacionais e de uso misto na região, alguns mais avançados, outros em fase preliminar. Dois deles são os edifícios Vera, na rua Álvares Penteado, que será entregue em outubro, e JB 104, na rua José Bonifácio, ambos da desenvolvedora e operadora de projetos imobiliários Citas.

Há também o H. Lara, na praça Antônio Prado, cujas obras do retrofit já se iniciaram, e o Tebas, no largo da Misericórdia, desenvolvido pela incorporadora Somauma, previsto para ser entregue até maio do próximo ano.

Além disso, vários proprietários de prédios comerciais na área estão tentando aprovar junto à prefeitura projetos de conversão para uso residencial. O governo municipal tem estimulado essa transformação dos imóveis com subvenções, por meio do programa Requalifica Centro.

Sala de estar com sofá cinza e pufe em primeiro plano, mesa redonda de madeira com quatro cadeiras ao centro, e cozinha com armários azuis ao fundo. Grandes janelas mostram prédios vizinhos, com luz natural entrando, mas ambiente interno permanece escuro.
Apartamento em exposição no edifício Tebas, hoje em obras e com entrega prevista para 2027 - Zanone Fraissat/Folhapress

Os dez andares do Vera serão totalmente ocupados por unidades habitacionais. Até 2024, o imóvel funcionava como residência artística e espaço de exposições. Agora vai ganhar 72 apartamentos que serão alugados. "O nosso modelo de negócio é locação acessível", diz Isadora Rebouças, fundadora da Citas. "Para atrair mais pessoas para essa região, você precisa do incentivo de preço." O preço médio do aluguel ficará em R$ 1.890.

O JB 104, cujas obras de retrofit começam na próxima semana, segue o mesmo modelo e tem a peculiaridade de ser destinado prioritariamente para mulheres chefes de família com renda de até seis salários mínimos. Serão 62 apartamentos, metade deles com dois dormitórios.

A Citas tem mais dois projetos em gestação na região, na rua do Tesouro números 47 e 23. Esse último é um prédio de Ramos de Azevedo. "As pessoas têm que abandonar essa ideia de que essa parte do centro é perigosa. É menos perigosa do que Pinheiros", diz Rebouças. "Num horizonte de três anos, essa área vai estar completamente diferente."

Edifício Vera
Isadora Rebouças e seus sócios em frente ao edifício Vera, que terá moradia com locação acessível - Divulgação

Antes ocupado por salas comerciais e com 60% de ociosidade, o H. Lara é um edifício de 1959 erguido pela família Toledo Lara, na época uma das maiores proprietárias de imóveis no centro. A construção, cujo projeto é da Planta Inc., vai ganhar 352 apartamentos em seus 23 andares. O retrofit foi aprovado pelo programa Requalifica Centro e recebeu R$ 4,5 milhões de subvenção econômica.

Já o Tebas, nome dado em homenagem a Joaquim Pinto de Almeida, mestre da cantaria no período colonial, terá seu lançamento oficial daqui a 30 dias. O prédio de dez andares, bem perto do espaço cultural Casa de Francisca, terá uso misto: o 1⁠º e o 2⁠º andares serão destinados à gastronomia e às artes, enquanto os demais, com um conjunto de 43 apartamentos, serão residenciais, incluindo a cobertura. As unidades habitacionais têm 33 m² e 42 m² e custarão, respectivamente, R$ 450 mil e R$ 620 mil.

"O centro velho está alguns anos atrás do novo", diz o arquiteto Marcelo Falcão, sócio da Somauma. "Mas a gente acredita muito nessa região do triângulo histórico porque ela ainda oferece uma grande quantidade de imóveis vazios e subutilizados."

Hélio Schwartsman - Profanando Homero - FSP

 Nunca pensei que veria nosso sublime Homero transformado em material de guerras culturais. Ainda não assisti a "A Odisseia" de Christopher Nolan (o filme não chegou ao streaming), mas já dá para afirmar que a polêmica, como a maioria das controvérsias de nossa época, se funda sobre bases frágeis.

A crítica da militância antiwoke, encabeçada por Elon Musk, de que a película de Nolan é pouco fiel à obra original e profana o divino Homero fica entre o óbvio e o fora de lugar.

Matt Damon em cena do filme 'A Odisseia', de Christopher Nolan - Divulgação

Quem estiver interessado em saber como Homero imaginou a guerra de Troia e o retorno do astuto Ulisses a Ítaca deve, com o perdão da tautologia, ler Homero. Pode até refinar seu entendimento recorrendo aos milhares de comentadores, uma tradição que tem início ainda na Antiguidade com os escoliastas de Alexandria e se prolonga até os dias de hoje com os estudos homéricos conduzidos nas universidades —as mesmas universidades que Musk e seus acólitos se empenham em combater.

Já quem vai ao cinema para ver o filme de Nolan estará, com o perdão da tautologia, sorvendo Nolan. Até há um parentesco entre o que aparece na tela e o que o poeta cantou em hexâmetros dactílicos, mas ele é tênue —e é assim mesmo que deve ser. Toda adaptação, releitura ou encenação de obra artística se converte numa outra obra e vem impregnada de questões do presente. Se não houvesse esse pressuposto de atualização, nem faria sentido levar ao palco novas montagens teatrais. Nós nos contentaríamos com o texto original, congelado. E cabe a cada diretor, dentro de sua liberdade de criação, definir quão fiel ele será às suas fontes.

Em arte, tudo é permitido. Vale mudar a história e inventar coisas. Profanações são bem-vindas. Quem assiste deve ter em mente que são obras distintas. E é claro que quem não gostar pode falar mal ou, ainda melhor, criar a sua versão. Musk, agora convertido em guardião da ortodoxia homérica, deveria bancar sua própria produção de "A Odisseia", de preferência falada em grego antigo. Eu assistiria com prazer.