segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Minha Casa, Minha Vida precisa mudar ,FSP

Anthony Ling

Urbanista e editor-chefe do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Roberta Inglês

Urbanista, é editora de urbanismo do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Possibilitar moradia digna à população de baixa renda é um objetivo indispensável no Brasil hoje, e o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), iniciado em 2009, se tornou a principal política habitacional do país. No entanto, embora esse objetivo esteja presente no discurso do programa, não parece ser sua principal intenção.

Raquel Rolnik, urbanista e professora da USP, afirma que "o MCMV não é uma política habitacional/urbana, mas uma estratégia de dinamização da indústria da construção civil, concebida para promover uma reação econômica e para ampliar e solidificar uma base social e política". Ela está correta. O programa nasceu como parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no contexto da crise econômica de 2009, como uma forma de reaquecer a economia via gastos públicos, e o caráter de incentivo econômico perdura até hoje.

Isso gera contradições como a criação da "Faixa 4" para rendas de até R$ 13 mil. Serão bilhões de reais gastos para atender um grupo que faz parte dos 5% mais ricos do país, o que mostra um desalinhamento com o objetivo social de redução de desigualdades. Além disso, o programa tinha como objetivo reduzir o déficit habitacional que, em 2009, era de 5,9 milhões de domicílios. Após 7,7 milhões de moradias contratadas, não houve redução no déficit. Como o déficit habitacional não significa o número de habitações faltantes, mas sim o número de domicílios que sofrem alguma dor, como a precariedade ou o ônus excessivo com aluguel, esse aparente paradoxo pode ter relação com o desenho do MCMV.

Prédio residencial branco de quatro andares com janelas retangulares. Algumas pessoas aparecem na janela do térreo. Na frente, placa azul anuncia o plano Minha Casa Minha Vida. Céu claro ao fundo.
Presidente Lula durante entrega de 1.276 unidades habitacionais do empreendimento Junção Rio Grande, no Rio Grande do Sul, do programa Minha Casa, Minha Vida - Ricardo Stuckert - 20.jan.26/PR

Ao priorizar a quantidade em detrimento da localização, se incentiva uma escolha por terrenos distantes dos centros urbanos —e das oportunidades e serviços—, que são mais baratos.

Os resultados desse modelo foram analisados no estudo Morar Longe: o Programa Minha Casa Minha Vida e a Expansão das Regiões Metropolitanas, do Instituto Escolhas e da Cepesp/FGV. Ele explica que isso tem consequências para: as famílias, que precisam gastar mais tempo e dinheiro para acessar serviços e oportunidades; a cidade, que vê um aumento dos congestionamentos e das emissões, além de uma maior ocupação do território natural; e o próprio governo, que precisa levar novas infraestruturas e serviços para localidades remotas (e nem sempre consegue).

Para mudar essa realidade, um primeiro passo é olhar para a cidade que já existe. O Brasil possui cerca de 17 milhões de pessoas morando em favelas, marcadas por infraestrutura e moradia precárias e, na maioria das vezes, informalidade fundiária. Uma política habitacional deveria priorizar esses territórios por meio de melhorias incrementais e, quando em áreas de risco, de redesenvolvimento em conjunto com a população local.

O PAC teve, entre 2007 e 2010, alguma atuação no campo de urbanização de favelas, somente recentemente retomado no Periferia Viva. Exemplos nacionais e internacionais não faltam, como o extinto Favela Bairro do Rio de Janeiro, o Urbanismo Social de Medellín ou o Vilarejo Cultural de Gamcheon, em Busan, na Coreia. Embora a comparação seja de financiamento versus investimento de capital, o orçamento do MCMV ainda é cerca de 20 vezes o do Periferia Viva.

PUBLICIDADE

Além disso, o déficit não deve ser atendido necessariamente por imóveis novos, mas também por imóveis usados bem localizados. Essa alternativa fomenta a ocupação de espaços ociosos nos centros urbanos, aproveitando a infraestrutura existente, tornando a cidade mais viva e o transporte coletivo mais eficiente.

Em 2023, o MCMV teve reformulações que tornaram mais atrativa a possibilidade de financiamento de imóveis usados. Porém, essa categoria ainda é limitada a no máximo 30% do orçamento do programa, mantendo o objetivo prioritário de impulsionar o setor da construção civil. Se o objetivo é possibilitar o acesso à moradia, e não necessariamente a sua propriedade, o aluguel social para facilitar o acesso ao estoque existente também seria bem-vindo.

Existem soluções para o MCMV, mas elas exigem uma revisão profunda dos seus objetivos, prioridades e critérios.

Longevidade e queda de natalidade formam dança com tons macabros, Pondé - FSP

 Um dos grandes desafios contemporâneos é a longevidade como realidade histórica intransponível. No Brasil, o Estado empurra esse fato com a barriga, como tudo mais. O Estado brasileiro só lembra de você no circo da democracia —as eleições— ou para tirar o seu dinheiro.

Logo, alguém muito inteligente dirá que a longevidade é um problema de saúde pública ao qual se deve aplicar fórmulas epidemiológicas. Ao lado dela, e causada pelo mesmo fenômeno histórico-social conhecido como modernidade, a queda da natalidade —motivo até de um alerta atrasado e inútil da ONU— é o outro extremo da curva demográfica, descrevendo uma dança com tons macabros.

Título – A dança macabra  Ilustração de Ricardo Cammarota foi realizada em técnica de composição de recortes digitais. A imagem apresenta uma composição formada por diversas partes de esqueletos humanos recortadas e reorganizadas sobre pautas e notas musicais de uma partitura. O fundo é verde-claro e é atravessado por pautas musicais pretas com notas distribuídas por toda a superfície. Sobre elas, aparecem caixas torácicas, colunas vertebrais, pelves, braços, mãos, pernas e pés em tons de preto, branco e cinza. Os fragmentos ósseos estão dispostos em diferentes posições, orientações e escalas, ocupando quase toda a área da imagem e sobrepondo-se às linhas e símbolos musicais.
Ricardo Cammarota/Folhapress

Essa dança se refere ao encontro desses dois movimentos demográficos paralelos que, por serem consequência de processos sociais concretos, não devem desaparecer. Por um lado, há o avanço da medicina científica, gerando longevidade; do outro, o mundo da emancipação feminina gerando queda da natalidade. Em breve, as famílias serão mais atomizadas e reduzidas na rede de proteção dos seus integrantes.

Muitos idosos abandonados de um lado, jovens em extinção do outro. Daqui a pouco a população de idosos vivendo em situação de rua será gigantesca.

Recentemente, num bairro de alto padrão da cidade de São Paulo, houve uma batalha inimaginável até tempos atrás. Uma associação de moradores iniciou um movimento, com vitórias iniciais, para expulsão de casas de repouso de longa duração para idosos da região, sob vários argumentos que soam bastante desumanos. Essas casas estariam fora do espectro permitido para bairros residenciais. O assunto deve ser resolvido —se assim o for— pela prefeitura, seus alvarás de funcionamento e os advogados do segmento.

Dizer que o aumento da longevidade é uma realidade histórica intransponível é dizer que a longevidade é algo que, em termos históricos, tem a consistência da lei da gravidade. Não há como contornar esse fenômeno. Só há como cuidar dele, criando melhores condições de vida em saúde —seguros saúde para idosos são impagáveis, o destino é o SUS—, cuidado psicológico e social. Falar é fácil, realizar são outros quinhentos.

As famílias seriam a instituição na primeira linha de combate. O estatuto do idoso exige, legalmente, o investimento das famílias na solução do fenômeno, com ameaça de criminalização dos entes familiares que não empenharem esforços no cuidado, criação de condições de vida digna e garantias do cotidiano do idoso.

Mas, como sempre, a lei no Brasil funciona no sentido de pressionar o cidadão para que ele, o Estado, lave as mãos e siga seu caminho que é continuar espremendo a sociedade para que ela sustente os luxos de seus dignatários. Trocando em miúdos, a ideia é não gastar dinheiro público com os idosos e usá-lo apenas com viagens, eventos, jantares, emendas e afins.

O fato sociológico intransponível é que essa família quase não existe mais. Não há lugar nem dinheiro para as famílias atomizadas cuidarem dos seus idosos, o que não implica que eles não o mereçam. As mulheres que sempre arcaram, na maioria dos casos, com a lida cotidiana dos idosos, estão em outra. Como filhas da modernização, elas querem liberdade, carreiras, estudos, viagens, enfim, querem ser felizes. E quem em sã consciência pode lhes tirar a razão? Não há lugar para os idosos, e, cada vez menos, para crianças.

Políticas públicas quase não saem do blábláblá, perecendo mesmo, às vezes, que a única política pública de fato é esperar —já que são idosos, que morram logo.

O resultado, como sempre, é que o mercado vem acudir essas famílias com um exército de cuidadoras, que muitas vezes se transforma em contencioso trabalhista. Ou, ainda, empresas oferecem a essas famílias serviços terceirizados —muitas vezes, como forma de proteção dessas mesmas famílias dos conflitos trabalhistas—, e casas de repouso de longa duração —essas mesmas que muita gente quer expulsar do seu bairro, em nome do valor imobiliário das suas residências; do cenário de ambulâncias e carros funerários na região; e dos gemidos e choros dos idosos, buscando empurrar essas instituições para a periferia da cidade. Enfim, aos indesejáveis, a periferia.

A verdade é que esses serviços que o mercado oferece são caríssimos, normalmente acima das condições financeiras das famílias atomizadas. Portanto, a exploração se instala. Não há rota de escape nem para as famílias, nem para os idosos. Como sempre na selva disfarçada de país que é o Brasil, as hienas se instalam e gargalham, num constante salve-se quem puder.