sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Vorcaro usou empréstimo do Master para comprar mansão em Brasília, FSP

 Lucas Marchesini

Brasília

O dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, usou um empréstimo desviado do próprio banco para comprar a mansão de R$ 36 milhões na qual morava quando ia a Brasília.

A aquisição foi feita por meio da Super Empreendimentos e Participação, empresa que, de acordo com Vorcaro, tem como sócio seu cunhado, Fabiano Zettel.

A Super integra a lista, a qual a Folha teve acesso, de 35 companhias suspeitas de tomar empréstimos fraudulentos do Master para alimentar uma rede de fundos que, segundo os investigadores, desviavam dinheiro do banco para laranjas para retroalimentar o próprio Master.

De acordo com especialistas consultados pela Folha, a prática pode ter sido ilegal.

A imagem mostra uma casa moderna iluminada à noite, com uma piscina em primeiro plano. A estrutura da casa é de dois andares, com grandes janelas que refletem a luz interna. Há uma área externa com mesas e cadeiras, além de plantas ao redor. O céu está escuro, indicando que é noite.
Área da piscina da casa localizada em condomínio no Lago Sul em 2012 - Divulgação/studioHub Arquitetura

Na época do financiamento, Zettel era um dos diretores da Super. Ele saiu do quadro societário da empresa em 23 de julho de 2024, deixando no seu lugar uma funcionária.

Zettel foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance deflagrada nesta quarta-feira (14) pela PF (Polícia Federal). Ele foi preso ao tentar embarcar para Dubai mas foi liberado horas depois.

Em 8 de maio de 2024, a Super comprou a mansão no Lago Sul utilizada por Vorcaro quando estava na capital federal. A existência da casa foi revelada pela Folha.

Quase um ano depois da compra, em 11 de abril de 2025, a Super vendeu a casa para a Prime Aviation 4 Participações, empresa que faz parte do grupo Prime You, do qual Vorcaro é sócio.

O registro não foi feito na matrícula do imóvel, mas a Folha descobriu a operação ao obter a escritura da transação. A casa foi revendida pela Super pelo mesmo valor que pagou, R$ 36,1 milhões.

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro disse em nota que a relação do ex-banqueiro com a Super é comercial, envolvendo operações de compra e venda de ativos e contratos de inquilinato. "Um dos sócios da empresa é cunhado de Vorcaro, fato de conhecimento público", acrescentou.

A Super pertence a um fundo chamado Termópilas, cujo cotista único é um outro fundo chamado Astralo 95. Esse fundo está entre os seis identificados pelo Banco Central como integrante da ciranda de fraudes do Banco Master, de acordo com denúncia do Banco Central ao MPF (Ministério Público Federal).

O Termópilas entrou no grupo de controle da Super em dezembro de 2023 quando o capital social da empresa passou de R$ 16 milhões para R$ 1,3 bilhão. Esse montante subiu para R$ 2,1 bilhões em junho de 2024 e R$ 2,6 bilhões um mês depois, em julho de 2024. Esse continua sendo o capital social da empresa até hoje.

Para a pesquisadora da FGV Direito Rio Layla McClaskey, a operação pode ser problemática sendo Vorcaro cotista do Astralo 95 (e por consequência do Termópilas) ou não.

A imagem mostra uma cozinha moderna e espaçosa, com uma grande mesa de jantar em madeira escura e cadeiras pretas ao redor. Ao fundo, há uma grande janela que oferece uma vista panorâmica da cidade, com um céu parcialmente nublado e iluminação suave. A cozinha possui armários pretos e uma ilha central, além de uma planta decorativa em um vaso. A área externa parece ter uma piscina.
Sala de jantar da casa localizada em condomínio no Lago Sul em 2012 - Divulgação/studioHub Arquitetura

Na primeira situação —uma empresa detida por um fundo que pertence a Vorcaro ou ao seu banco—, ela diz que haveria um "problema enorme" com a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e com o Fisco. "Fere vários princípios de realização de operações com partes relacionadas, como a lealdade, diligência e transparência", afirma.

As regras a que McClaskey se refere expressam que se algum fundo fizer negócios com partes relacionadas, é preciso indicar a movimentação claramente, e o ganho para o fundo precisa ser explicitado. "A operação simula um investimento e não é, o que seria uma fraude", resumiu.

Para a especialista, a revenda do imóvel pelo mesmo preço pelo qual ele foi adquirido é problemática, porque permite evitar o pagamento de Imposto de Renda já que o negócio não rendeu lucro.

No caso de Vorcaro ou do Banco Master não serem os beneficiários finais do fundo, a situação é mais grave. "Todos os cotistas estão sendo prejudicados", apontou.

Um ex-dirigente da CVM, que falou na condição de anonimato, disse que a operação pode ser na verdade uma forma encontrada por Vorcaro para tirar dinheiro do banco sem a necessidade de pagar dividendos.

Dividendos são apurados em cima do lucro de uma empresa, o que limita o montante repassado ao controlador. Ao usar a estrutura de fundos e empresas, Vorcaro conseguiria retirar mais dinheiro da instituição financeira.

Além da casa de Brasília, a Super é dona de outros negócios. Ela tem participação em uma empresa que faz parte do consórcio administrador do Minascentro, um centro de convenções em Belo Horizonte —cidade natal de Vorcaro— e está na sociedade de duas empresas de esportes em São Paulo.

Empresas na teia do Master usam terras da União para fabricar R$ 45 bi em créditos de carbono, FSp

 André Borges

Brasília

Duas empresas que estão no centro da teia financeira do caso Master chegaram a uma valorização que soma mais de R$ 45,5 bilhões baseada em milhões de "créditos de estoques de carbono" que têm origem em uma terra pública, pertencente à União. Logo, jamais poderiam ser a base desses créditos privados.

Documentos obtidos pela Folha mostram que a Golden Green e a Global Carbon, ambas controladas por fundos geridos pela Reag, investigada pela Polícia Federal, tiveram reavaliações de ativos bilionárias por meio de auditorias e pareceres que se apoiaram na contabilidade das unidades de estoque de carbono de área conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, localizada no município de Apuí (AM), com extensão total de 143,9 milhões de hectares.

Duas pessoas caminham lado a lado na calçada em frente a um prédio com fachada clássica, com colunas e vegetação aparada. O prédio tem uma placa com o nome 'Master' acima da porta principal. Barricadas metálicas estão posicionadas entre a calçada e a entrada do edifício.
Fundos podem ter sido usados para inflar patrimônio financeiro de empresários - Rafaela Araújo - 29.dez.25/Folhapress

A questão é que essa terra não pertence a essas empresas, tampouco poderia ser arrendada para uso econômico privado, pois se trata de uma área pública voltada à destinação social, para reforma agrária.

A informação foi confirmada à reportagem pelo Incra. "Trata-se de área da União, destinada a Projeto de Assentamento Federal, contendo matrícula e Portaria de Arrecadação dos anos 1980", informou a autarquia.

Por isso, afirmou o Incra, qualquer comercialização de ativos de carbono baseados na floresta da região seria um ato irregular. Questionado sobre como avalia o fato de a região lastrear os créditos de carbono das duas empresas, o Incra foi direto. "Os negócios são irregulares e causam danos à União", afirmou, acrescentando que "medidas administrativas e judiciais estão sendo adotadas".

O Incra acrescentou que, para evitar negociações sobre a área, abriu um processo administrativo de fiscalização que vetou o cadastro do imóvel no SNCR (Sistema Nacional de Cadastro Rural), além de ter negado a certificação do imóvel no Sigef (Sistema de Gestão Fundiária).

Na prática, isso significa que aquele território não está regularizado como propriedade privada para sustentar um direito exclusivo sobre a terra ou sobre seu "estoque" ambiental.

Nada disso, porém, impediu que diversas auditorias de renome e consultorias fizessem não apenas a precificação de cada unidade de estoque de carbono, como também passassem a atualizar o valor de seus "ativos", sem qualquer tipo de menção ao litígio que envolve a origem de todo o crédito.

As duas empresas argumentam que o inventário de carbono da área foi realizado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), que estimou haver um estoque total de 168,8 milhões de toneladas de CO₂ naquele território. A partir dessa informação, as empresas partiram para a precificação do valor desse carbono.

Esse trabalho contou com a atuação da empresa Ernest Young, que foi contratada em 2020 para analisar a metodologia de cálculo usada pela empresa. A partir dessa análise, ficou decidido, por exemplo, que cada unidade de carbono teria um valor de R$ 129,30.

Em 2022, a Golden Green contratou a PwC Auditores Independentes, que analisou as demonstrações financeiras e chancelou um aumento do valor para R$ 149,56. Como o balanço da empresa dizia ter 74,228 milhões de créditos de estoque de carbono, o ativo total foi avaliado em R$ 11,1 bilhões. Em dezembro de 2024, foi a vez de a Crowe se debruçar sobre os papéis e aprovar a atualização de cada ativo para R$ 197,49, um aumento de 32% em dois anos, chegando a um total de R$ 14,6 bilhões.

Não há nenhum tipo de alerta ou ressalva nas auditorias sobre qual seria, afinal, a origem efetiva daqueles créditos bilionários, a não ser o aceite de que o modelo contábil estava correto e que o carbono estava lastreado em Créditos de Produto Rural (CPR), papéis que estariam sob os cuidados de um escritório em Londres.

A situação se repete no caso da Global Carbon, empresa que nasceu como um armarinho paulista com capital social de apenas R$ 100 em 2020 e passou a valer R$ 31 bilhões em 2024.

As duas empresas ergueram seus números bilionários sobre o mesmo solo público. O território é localizado em uma região conhecida por avanço de desmatamento e grilagem de terras.

A Golden Green tem como investidor o fundo Jade, e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central, conforme mostrou a Folha.

Além de as terras não serem controladas pelas empresas, não há qualquer valor de mercado que possa embasar o preço dos estoques que elas computaram. O crédito de carbono é um certificado emitido por um programa reconhecido no mercado, que está ligado a uma redução comprovada e vendável de emissão. Ocorre que essas empresas detêm unidades de "estoque de carbono", o que não passa de uma estimativa do carbono existente numa área. Isso, por si só, não vira crédito negociável, nem garante comprador ou preço.

Em seus próprios documentos, as duas empresas reconhecem que se baseiam em premissas internas, porque não existem transações no mercado. O que se vende hoje, é crédito de carbono, um tipo de ativo que não tem nada a ver com o "crédito de estoque de carbono", que as empresas alegam ter.

À Folha, o economista Marco Aurélio Hardt, da empresa Horbia Partners, que assina o laudo mais recente de valorização da Global Carbon, de dezembro de 2024, disse que baseia a valorização dos ativos das empresas no preço de uma cesta de commodities e no balanço financeiro que é entregue pela empresa.

"Eu assumo isso como dado. Não fiz cálculo nenhum, eu apenas reproduzi o que está no balanço patrimonial da empresa, que é auditado", disse. "A prova que o ativo existe está na auditoria que foi feita sobre o balanço. Meu laudo é de avaliação econômica."

No caso da Golden Green, Hardt admite que fez uma avaliação da valorização da empresa em agosto de 2025, no valor de R$ 14,2 bilhões, mesmo sem ter um balanço auditado por terceiro. "Lamentavelmente, no caso da Golden Green, eu só tenho o balanço, não auditado", comentou.