A morte da americana Renee Good, aos 37 anos, baleada em seu carro por um agente do ICE em Minneapolis, joga luz sobre um movimento de resistência a Donald Trump que cresce e surpreende. Protestos pipocaram na semana, reunindo centenas de pessoas, tomadas de coragem titânica.
O lado negativo disso é que outras mortes podem vir a acontecer em um momento em que o governo aumenta o seu poder de fogo e tenta impor imunidade absoluta para milícias encapuzadas. O lado positivo é que a reação ao nível comunitário conta e cala fundo. Mas Trump não lida bem com a força dos pequenos.
Iniciativas locais tentam frear os agentes do ICE, a começar pelo apito laranja que as pessoas sopram como alerta de uma blitz ou captura. Organizações sociais providenciam cartilhas para instruir os imigrantes sobre seus direitos. Cartões para contatos de emergência são fartamente distribuídos.
A própria população patrulha o deslocamento dos policiais e organiza boicotes a empresas que têm contratos com o governo —caso da Avelo Airlines, por realizar voos de deportação, ou redes de hotéis como Hilton, por hospedar as forças repressoras.
Os protestos têm um caráter espontâneo, autêntico, que se coloca acima da clivagem entre democratas e republicanos. Porque há americanos que não suportam ver uma família hispânica destroçada, depois de ter construído com ela laços de convivência e amizade. Estas pessoas se arriscam a filmar com o celular o sequestro de um imigrante, a fazer barreiras humanas diante de tropas e até a alvejá-las com bolas de neve.
Esse é um novo ativismo e Trump já acusou o golpe. Numa entrevista a bordo do avião presidencial, defendeu os agentes, que não têm nem onde dormir. Sua secretária de Segurança, Kristi Noem, e a secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, se revezam para enaltecer os "bravos homens". O problema é que, como disse a viúva de Renee, Becca Good, "enquanto nós temos apitos, eles têm armas".
E, aqui, um fenômeno: Renee e Becca, mulheres brancas, lésbicas, que se posicionaram contra as atuais políticas anti-imigrante, atiçam a fúria do movimento Maga. São chamadas de AWFUL, em letras maiúsculas, ou horrorosas, em português. Ao mesmo tempo, a palavra serve de sigla para "afluentes mulheres brancas urbanas liberais".
Pois o casal Good está na mira dos ultraconservadores. Afinal, como duas brancas, bem situadas socialmente, podem se envolver com a ralé da imigração? Traidoras da Pátria. Esquerdistas desvairadas. Terroristas domésticas. São alguns dos epítetos que recebem.
Na retaliação, surgem vozes inesperadas. A jornalista e escritora americana Naomi Wolf, cujo livro "O Mito da Beleza" foi saudado por feministas como um libelo contra a escravidão da boa forma, hoje corrobora a tese de Trump, de que Renee morreu porque se comportou mal. Wolf acha que as mulheres têm ficado insanas pela falta de satisfação heterossexual. Podemos descartar o que vem dentro deste raciocínio.
Renee Nicole Good não imaginou que sua morte iria render tantas versões. Suas últimas palavras para o policial que rodeou seu carro foram: "eu não estou brava com você". Ele disparou três vezes e, antes de sair da cena, suas últimas palavras foram: "vagabunda do caralho".

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