sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Brasileiro ajudou a tornar a Groenlândia um ativo geopolítico e econômico, Rodrigo Tavares, FSP

 Durante a Segunda Guerra Mundial, a Groenlândia se tornou, na prática, um protetorado americano. Muito se tem escrito sobre as bases e aeroportos militares, portos, centrais de comunicação e estações meteorológicas que os Estados Unidos construíram no território ártico. O acordo de 1941 com a Dinamarca, sob ocupação alemã, também afirmava explicitamente que aquele território "encontra-se dentro da área abrangida pela Doutrina Monroe [de 1823]" (disponível aqui).

Mas os EUA tinham outro interesse estratégico: proteger a exploração de criolita em Ivittuut, então o maior depósito conhecido deste mineral no mundo, indispensável à produção de alumínio e, por extensão, para a indústria aeronáutica. Para garantir esse corredor de abastecimento, os americanos construíram em 1943 a base naval Bluie West Seven, a cerca de três milhas (4.82km) da vila mineira. Em 1942, os EUA já exportavam 86 mil toneladas do mineral para o seu território, absorvendo a maior fatia da produção.

Se foi o nórdico Érico, o Vermelho, quem fundou os primeiros assentamentos europeus na Groenlândia por volta de 985, foi a criolita (Na₃AlF₆) que consolidou, séculos depois, o interesse global pelo território. A mina principal de Ivittuut seria encerrada em 1987. Ainda assim, algumas estimativas sugerem que a exploração do mineral tenha gerado mais de € 50 bilhões para a economia dinamarquesa. Um único mineral transformou a Groenlândia em um ativo geopolítico e econômico.

A criolita foi identificada, pela primeira vez, em 1799 pelo dinamarquês Peter Christian Abildgaard a partir de amostras obtidas junto a inuítes, população nativa da Groenlândia. A Universidade de Copenhague ainda conserva estas amostras originais. Foi ali que o termo criolita foi cunhado. O nome deriva das palavras gregas cryos ("frio") e lithos ("pedra").

Bandeiras da Groenlândia em Nuuk
Bandeiras da Groenlândia em Nuuk - Alessandro Rampazzo /AFP

Nessa altura o jovem brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, antes de exercer um papel decisivo na independência do Brasil e de ser ministro das Relações Exteriores, era um pesquisador mineralógico fazendo trabalho de campo na Europa. As suas biografias registram que ele viajou por Suécia, Noruega e Dinamarca de 1796 a 1799 e que assistiu às aulas de Abildgaard em Copenhague. Estava no lugar e na hora certa.

Em 1800, Andrada e Silva publica em alemão, no Allgemeines Journal der Chemie, um artigo científico sobre novos minerais. Entre eles está a criolita. Na sua publicação, descreve as propriedades físicas do material, registra um teste simples de dureza, observa que risca a calcita e é riscado pela fluorita, e apresenta uma leitura composicional ("Em ácido sulfúrico muito concentrado, [a criolita] efervesce vigorosamente, com vapores gasosos esbranquiçados que atacam o vidro. Esse ‘fóssil’ singular é composto de alúmina, ácido fluorídrico e uma pequena quantidade de potassa").

O texto registra que a criolita tem ocorrência na Groenlândia ("Grönland") e acrescenta que, embora a amostra que ele analisou seja groenlandesa, "o local do depósito é, até agora, desconhecido". Só anos mais tarde o depósito de Ivittuut seria identificado.

O artigo sobre os novos minerais teve grande repercussão, difundindo a criolita na literatura europeia. Foi traduzido para o francês e impresso no Journal de Physique, de Chimie, d'Histoire Naturelle et des Arts, além de publicado em inglês no Journal of Natural Philosophy, Chemistry and the Arts. O Léxico Nacional da Dinamarca, uma associação que recebe financiamento público, chega a afirmar que foi José Bonifácio quem batizou o nome criolita, ainda que seja mais consensual que a classificação tenha sido partilhada com Peter Christian Abildgaard.

O prestígio em mineralogia do patriarca da Independência levou o então príncipe regente da Dinamarca-Noruega a convidá-lo para inspetor das minas norueguesas. O convite foi recusado; Andrada e Silva queria retornar a Portugal e ao Brasil.

Um mineral groenlandês, identificado por um professor dinamarquês, divulgado por um mineralogista brasileiro, justificou a presença americana no Ártico. Dois séculos mais tarde, o foco muda da criolita para as terras raras, e a Groenlândia reaparece como peça cobiçada pelos caninos de Washington. A ironia é que, fora da China, o país com maior peso mineral e potencial em terras raras é o Brasil, precisamente o tipo de vantagem geopolítica que José Bonifácio já identificava ao associar recursos minerais a interesse nacional. Nenhum outro mineralogista brasileiro se tornou estadista.

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