Ao decretar a prisão da delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, por suspeita de ligação com o PCC, o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital, argumentou, com perplexidade, que a infiltração do crime organizado na máquina pública deixou de ser uma “lenda”. Para o magistrado, os indícios reunidos - incluindo gravações, fotografias, termos de audiência e a presença de um líder da facção na cerimônia de posse da delegada - demonstram uma “ousadia absurda” e revelam uma estratégia da facção para influir diretamente nas decisões do Estado, aproximando o País de um narcoestado.
O Estadão busca contato com a defesa de Layla Ayub. O espaço está aberto. Ao ser presa, Layla não negou que mantém ligação com a facção e admitiu que seu namorado Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como ‘Dedel’, é ‘batizado’ do PCC.
A decisão atendeu a uma representação da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria da Polícia Civil e foi cumprida no âmbito da Operação Serpens, que apura a atuação da delegada, recém-empossada, em favor da facção, incluindo vínculos pessoais e profissionais com integrantes do PCC.

Para você
Na decisão de 13 páginas, o magistrado escreveu: “De fato, se comprovado que o PCC arregimentou a investigada para passar em um concurso público de delegada de Polícia, sobretudo no Estado mais populoso e com o maior quadro de policiais do País, pode-se afirmar, sem qualquer dúvida, que, se já não nos tornamos um narcoestado, estamos a poucos passos disso.”
“Se o fato já não fosse de extrema gravidade, poucas vezes vistas, causando surpresa até àqueles que laboram na Justiça Criminal há anos, se comprovado, demonstra uma ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas quando um suposto integrante do alto escalão do PCC, com condenações criminais, suspeito de ser responsável por possíveis atentados contra a vida de juízes e outros agentes da Segurança Pública, comparece à cerimônia de posse de sua companheira como Delegada de Polícia do Estado de São Paulo que, novamente, em tese, estaria atuando em conjunto com o crime organizado”, assinalou o juiz na decisão.
“Os indícios são mais do que veementes, com gravações, termos de audiência, fotografias, dentre outros elementos”, afirmou o magistrado.

“Ao menos em tese, obviamente sem adentrar no mérito do processo, aquilo que parecia ser uma ‘lenda’ do crime organizado, consistente no financiamento de integrantes das organizações criminosas para que se formassem em universidades de Direito e prestassem concursos públicos, e, a partir daí, ‘trabalhassem’ em prol do crime organizado, se comprovados os indícios veementes destes autos, passa a demonstrar que tais alegações não eram apenas ‘lendas’, mas uma estratégia do crime organizado para se infiltrar no Poder Público e influir diretamente nas decisões mais importantes do País.”
Em outro trecho, o juiz escreveu: “Sem dúvida alguma, e já fiz tal afirmação em outros processos, se o Brasil ainda não se tornou um narcoestado, a distância para isso é mínima. A infiltração do crime organizado no Poder Público é evidente. Aliás, quanto mais o Estado demorar a reconhecer esse fato notório, mais difícil será a normalização da situação.”
O magistrado também lembrou a demora do poder público em reconhecer a atuação da facção em São Paulo: “Para se ter uma ideia, o Estado de São Paulo somente reconheceu a existência do PCC após nove anos de sua existência, e ainda assim porque houve uma rebelião em mais de trinta presídios, em 18 de fevereiro de 2001, quando lençóis com a sigla PCC foram exibidos em diversos estabelecimentos prisionais para que ninguém mais tivesse dúvida de sua existência.”

A Polícia Civil informou “que atua permanentemente para prevenir e impedir a infiltração, influência ou penetração do crime organizado no tecido policial” e que a “missão institucional” da corporação “se estende a todas as carreiras da Polícia Civil e constitui uma de suas prioridades estratégicas”. (leia a íntegra abaixo)
Layla Lima Ayub, de 36 anos, foi presa na manhã desta sexta-feira, 16, em São Paulo, suspeita de manter ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A prisão ocorreu no âmbito da Operação Serpens, deflagrada pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em conjunto com o Gaeco do Pará. A investigação apura a atuação da delegada, recém-empossada, em favor da facção, incluindo vínculos pessoais e profissionais com integrantes do PCC. Durante a abordagem, os investigadores apreenderam dois celulares e, logo após a prisão, Layla entregou voluntariamente um terceiro chip.
Layla Lima Ayub será indiciada por quatro crimes: exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico.
Empossada em evento no Palácio dos Bandeirantes no dia 19 de dezembro, Layla foi detida na manhã desta sexta em uma casa alugada na zona Oeste da capital paulista. Em seguida, ela foi levada à Academia da Polícia Civil, onde mantinha pertences retidos em um armário, que serão recolhidos pelos investigadores para a coleta de novas provas.
Na cerimônia de posse como delegada, que contou com a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Layla foi acompanhada por “Dedel”, apontado como uma das lideranças do PCC no Pará e namorado da delegada.

A Polícia Civil informou “que atua permanentemente para prevenir e impedir a infiltração, influência ou penetração do crime organizado no tecido policial” e que a “missão institucional” da corporação “se estende a todas as carreiras da Polícia Civil e constitui uma de suas prioridades estratégicas”. (leia a íntegra abaixo)
Segundo o Ministério Público, a delegada mantinha vínculos pessoais e profissionais com integrantes da organização criminosa e teria atuado de forma irregular como advogada em audiências de custódia de presos ligados a facção, mesmo após assumir o cargo.
A Justiça expediu sete mandados de busca e apreensão, cumpridos nas cidades de São Paulo e de Marabá, no sudeste do Pará, a 564 quilômetros de Belém, além de dois mandados de prisão temporária. As decisões foram proferidas pela 2ª Vara Especializada em Crime Organizado da capital e tiveram como alvos a delegada de Polícia investigada e Jardel, integrante do PCC.
Ex-policial militar no Espírito Santo, Layla Ayub teria um relacionamento amoroso com Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’. No dia 28 de dezembro, já no cargo de delegada, ela teria atuado de forma irregular como advogada em uma audiência de custódia em Marabá, com o objetivo de obter a soltura de um integrante da facção na cidade.
Outro ponto apurado é que Layla seria formalmente casada com um delegado da Polícia Civil do Pará, que atua na região de Marabá. A informação foi checada no curso das investigações abertas a partir de uma notícia-crime anônima encaminhada às autoridades.
A investigação também aponta que Layla e Jardel passaram a residir juntos em São Paulo após a posse da delegada, período em que ela frequentava o curso de formação da carreira na Academia da Polícia Civil. Há também indícios de que o casal teria adquirido uma padaria na zona leste da capital paulista pouco depois da mudança para lavar dinheiro do crime organizado.
COM A PALAVRA, A CORREGEDORIA DA POLÍCIA DE SÃO PAULO
A Polícia Civil do Estado de São Paulo informa que a Corregedoria-Geral da Polícia Civil do Estado de São Paulo por meio de seus mecanismos internos de controle, identificou indícios de irregularidades envolvendo uma delegada de polícia recém‑empossada, incluindo possível atuação em contexto relacionado a organização criminosa.
Diante dos elementos iniciais verificados, a Corregedoria Geral adotou de imediato todas as providências cabíveis, instaurando procedimentos administrativos e criminais, realizando diligências destinadas à apuração técnica, rigorosa e completa dos fatos.
As informações disponíveis apontam para possível exercício de atividade incompatível com o cargo público, além da existência de vínculos pessoais e profissionais com indivíduo identificado como integrante de facção criminosa com atuação interestadual.
A Polícia Civil ressalta que atua permanentemente para prevenir e impedir a infiltração, influência ou penetração do crime organizado no tecido policial, missão institucional que se estende a todas as carreiras da Polícia Civil e constitui uma de suas prioridades estratégicas.
Todas as ações seguem critérios de imparcialidade, rigor técnico e sigilo, assegurando o devido processo legal e a preservação da integridade da servidora.




Nenhum comentário:
Postar um comentário