O tombamento do antigo Palácio da Polícia, com a provável criação no local de um centro de debates sobre repressão política e tortura nos anos da ditadura Vargas e sobretudo durante o regime militar, encerra uma disputa de mais de 20 anos. De um lado, a memória que precisa ser lembrada para defender o presente e o futuro da democracia; de outro, o negacionismo e até mesmo, em tempos recentes, a apologia de torturadores.
O prédio da rua da Relação, no centro do Rio, abrigou de 1962 a 1975 a sede do Dops, em cujos porões se praticaram abusos humanitários e execuções de presos. Nas primeiras décadas do século 20, ali funcionou uma delegacia especializada na perseguição à capoeira, às religiões afro-brasileiras e à "vadiagem". Sob Vargas , passaram por seus cárceres Luiz Carlos Prestes, Olga Benário, Graciliano Ramos. Em 2012, escapou de ser transformado em shopping com 10 lojas e 18 salas comerciais, entre elas um salão de beleza. Era um projeto da Polícia Civil, que administrava o prédio e reclamava mais verbas para a instituição, apoiado pelo então vice-governador Pezão.
A degradação veio como se fizesse parte de um plano. A estrutura foi abalada pela construção de duas torres da Petrobras atrás do prédio, trazendo risco de desabamento. No interior tomado pelo abandono e pela poeira de décadas, ratos passeavam em meio ao entulho. Pilhas de documentos de valor histórico jogados num canto, cobertos por fezes de pombos e morcegos. Muitos documentos desapareceram.
O tombamento ocorre na esteira do sucesso alcançado pelos filmes "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", que abordam o período do regime militar. Em paralelo, a Câmara Municipal acaba de aprovar uma lei que prevê a instalação de placas informativas capazes de identificar os locais ligados aos crimes da ditadura.
Boa oportunidade têm os filhos de Bolsonaro —que usam a palavra tortura referindo-se à prisão do ex-presidente— para fazer um tour pelos endereços infames. Quem sabe eles desvestem a camiseta do Ustra.
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