terça-feira, 6 de agosto de 2019

Secretário de Doria defende demissão do diretor do Inpe, FSP

Para Junqueira (Agricultura), hierarquia se impôs, mas critica postura belicosa do governo federal

Igor Gielow
PEQUIM
O secretário de Agricultura de São Paulo, Gustavo Junqueira, defendeu a demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. "Não dá para peitar o presidente. Hierarquia é importante. Ninguém peitaria o [governador paulista] João Doria (PSDB).
A demissão de Galvão foi alvo de polêmica na comunidade acadêmica após o cientista criticar duramente o presidente Jair Bolsonaro (PSL)PR ter dito que os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre desmatamento na Amazônia.
Gustavo Diniz Junqueira - Bruno Poletti - 13.jun.2016/Folhapress
Junqueira, por outro lado, faz críticas pontuais ao governo Bolsonaro. “A postura belicosa do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente)obviamente tem uma implicação comercial”, disse, sobre o impacto internacional das declarações do ministro e de Bolsonaro na área.
Mas Junqueira diz que o ministro tem “boas intenções”. “Existe um risco, mas é calculado”, afirmou. “É necessário.”
Junqueira está na China como parte de comitiva de Doria para tentar atrair investimentos em São Paulo.
Ele considera que a nova etapa da guerra comercial entre EUA e China oferece uma oportunidade para investimentos na área da agricultura, dado que Pequim anunciou moratória na compra de alimentos de Washington.
“Tem muito de ameaça. Os chineses estão com estoques de soja, não compram milho”, afirmou.
Junqueira diz que a prioridade do estado é vender aos chineses itens de valor agregado no agronegócio, além de commodities como o etanol.
“Parece estranho, mas eles dizem que a aposta no futuro, o carro elétrico, não chegará a 30% da frota de 500 milhões de veículos prevista para rodar no país na próxima década”, disse.
Assim, o velho projeto do carro a álcool está sendo vendido como oportunidade aos chineses, 40 anos depois do Proalcool da ditadura.

Vale do Plástico, na França, sofre com falta de mão de obra qualificada, OESP

Para sindicatos, problema não está na escassez de mão de obra, e sim nos baixos salários pagos

Liz Alderman, The New York Times
06 de agosto de 2019 | 06h00
OYONNAX, FRANÇA - Ao longo de uma vasta planície alpina, centenas de fábricas estão produzindo frascos plásticos de perfume, autopeças e ferramentas industriais. Caminhões transportam milhares de artigos finais prontos para a exportação. Nos cartazes e armazéns, anúncios de vagas de trabalho balançam ao vento.
Não falta emprego em Ain, região manufatureira do leste da França conhecida como “Vale do Plástico". Mas as empresas nesse arborizado canto próximo da fronteira com a Suíça frearam a produção porque não conseguem encontrar mão de obra capacitada para uma linha de produção que exige experiência com computadores.
“É um freio à competitividade", disse Gilles Pernoud, presidente do Groupe Pernoud, cuja empresa faz moldes de injeção de plástico para a BMW e outras montadoras. Ele disse que teve de recusar contratos de quase um milhão de euros nos dois anos mais recentes porque não encontrou trabalhadores qualificados.
Empresas do leste da França frearam a produção por falta de trabalhadores qualificados.
Empresas do leste da França frearam a produção por falta de trabalhadores qualificados. Foto: Andrea Mantovani para The New York Times
“Precisamos de funcionários mais familiarizados com a tecnologia", disse Pernoud, apontando para o maquinário robótico do seu piso e fábrica, programado por um funcionário para produzir um molde de aço de alta precisão. “Mas não há um número suficiente de pessoas para preencher essas vagas.”
Há um porém. A França, como muitos países da Europa, enfrenta um problema trabalhista. Apesar do desemprego superior a 8% - um dos mais altos da Europa, perdendo para Itália, Espanha e Grécia -, há mais de 250 mil vagas de trabalho em aberto. É difícil encontrar pessoas para trabalhar como encanadores, engenheiros, garçons e cozinheiros.
O desafio é particularmente agudo na manufatura, onde quase 40% da empresas carecem de mão de obra. Em Ain, há pelo menos 18 mil vagas de trabalho disponíveis. A França precisa encontrar uma solução rapidamente. Depois de se recuperar de uma recessão dupla durante a crise financeira, a economia do país volta a desacelerar, alcançado agora crescimento de 1,7% enquanto a recuperação perde força na Europa.
Os empregadores dizem que a manufatura tem um problema de imagem após anos de concorrência barata por parte da Ásia e do Leste Europeu, que levou ao fechamento de fábricas na França. A indústria, que já representou 25% da economia nos anos 1960, encolheu para 10% da atividade.
Para os sindicatos, o problema não está na escassez de mão de obra, e sim nos baixos salários pagos pelas empresas que se queixam da falta de trabalhadores. De acordo com os sindicatos, se as empresas oferecessem salários melhores, encontrariam os trabalhadores de que precisam.
Na Alemanha, grande potência manufatureira da Europa, a indústria é vista sob uma ótica positiva. Cerca de metade dos jovens entre 16 e 24 anos participam de programas de capacitação como aprendizes. Na França, os fabricantes dizem que o treinamento é menos intensivo e não consegue mais produzir trabalhadores capacitados com as habilidades desejadas. A situação é especialmente difícil para a indústria dos plásticos, disse Damien Petitjean, que trabalha em uma escola do ensino médio em Oyonnax, conforme aumentam as preocupações com o impacto ambiental de uma cultura do desperdício.
Algumas empresas reúnem seus recursos para criar programas de treinamento. Na LMT Belin, que produz ferramentas para as indústrias do plástico, automotiva e aeroespacial, o diretor executivo Bertrand Lefevre formou uma parceria com cinco outras empresas para oferecer experiência de trabalho aos desempregados. Em um dia recente, oito jovens treinavam a programação de equipamento robótico, mexendo em uma máquina que produzia brocas de perfuração de alto desempenho.
Mohamed El Hmidi, 23 anos, já trabalhou como ajudante de obras e fez outros bicos. Chegou à agência de desempregados de Oyonnax alguns meses atrás e ficou sabendo do treinamento da LMT Belin. Decidiu aproveitar a oportunidade. “Esse é o nosso futuro", disse El Hmidi. Ele já passou pelas outras quatro fábricas que somaram suas forças às da LMT Belin. “Aqui, somos expostos às novas tecnologias", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Chega ao País uso de micro-ondas contra o câncer, OESP


Indicada para fígado, rim, pulmão e ossos, ablação trata lesão de forma menos invasiva e mais rápida, reduzindo internação

Paula Felix, O Estado de S.Paulo
06 de agosto de 2019 | 03h00
SÃO PAULO - No dia 16 de maio, a aposentada Alba Cristina do Nascimento, de 53 anos, foi a primeira paciente do País a ser submetida a uma técnica que utiliza micro-ondas para remover tumores. Indicada para cânceres de fígado, rim, pulmão e ossos, a ablação por micro-ondas é apontada como uma opção para tratar lesões de forma menos invasiva e mais rápida, reduzindo o tempo de internação e preservando a função dos órgãos que recebem o tratamento.
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Agulha que vai aquecer a lesão é inserida e guiada por ultrassom ou tomografia computadorizada; mais 60 pessoas já foram selecionadas e aguardam ser chamadas pelo Icesp Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO
O procedimento foi realizado no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e o método já demonstrou que alcança resultados semelhantes aos obtidos em cirurgias, mas sem remoção de tecidos sadios. “Como trata os tumores com baixa invasividade, o paciente faz o tratamento e pode ir para casa no outro dia. Quem tem doença metastática muitas vezes, após a cirurgia, precisa de três meses de recuperação”, explica Marcos Menezes, coordenador-chefe do Serviço de Radiologia do Icesp e presidente da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (Sobrice).
A técnica é indicada para tumores de até 3 centímetros de diâmetro. Após um pequeno corte, a agulha que vai aquecer a lesão é inserida e guiada por ultrassom ou tomografia computadorizada. “No caso de micro-ondas, eleva-se a temperatura e ocorre a destruição do tumor. A 70 °C, 80 °C, qualquer tecido morre. E o organismo absorve isso na linha do tempo”, diz Menezes. Desde 2009, o Icesp já oferece tratamento semelhante, mas utilizando radiofrequência. De acordo com Menezes, a nova técnica tem a vantagem de ser mais rápida. “Ela tem mais energia do que a radiofrequência. Para tratar uma lesão de 1 cm, a radiofrequência demora de 12 a 15 minutos. No micro-ondas, demora um minuto.”
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Agulha que vai aquecer a lesão é inserida e guiada por ultrassom ou tomografia computadorizada; mais 60 pessoas já foram selecionadas e aguardam ser chamadas pelo Icesp Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Dois pacientes já realizaram o procedimento na unidade, ligada à Secretaria de Estado da Saúde e à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e outros 60 foram selecionados. “O impacto é trazer qualidade de vida para o paciente. Outra vantagem é preservação de função do órgão.”
Em luta contra o câncer desde 2014, Alba já foi submetida à cirurgia por causa de um sarcoma na coxa direita (e precisou amputar o membro) e ao tratamento com radiofrequência para tratar uma lesão no pulmão direito. “Após a amputação, fiz 15 sessões de quimioterapia e não tive mais sinal da doença. Depois de dois anos, apareceu um nódulo no pulmão, mas era muito pequeno. Voltei depois de seis meses e tinha aumentado. Fiquei bem preocupada em fazer cirurgia.” Foi quando conheceu o novo procedimento. “Fiz em uma segunda-feira e parecia que eu não tinha feito nada. Se fosse antigamente, teria de abrir o peito.”
Nesta época, já havia uma pequena lesão no pulmão esquerdo, que cresceu e também precisou de tratamento. “O segundo foi ainda mais sofisticado e mais rápido. Estou na esperança de que esteja curada. Quero ver meus filhos se casando e quero ter netos. Eu amo a vida. Para mim, acordar de manhã e ver a luz do dia já é felicidade.”
Superintendente da Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês, Cesar Nomura diz que a técnica de ablação por micro-ondas já está consolidada na medicina oncológica há mais de cinco anos. O hospital também começou a fazer o procedimento e quatro pacientes foram submetidos à técnica. O método, segundo ele, abre possibilidades de tratar lesões em pacientes com mais de um tumor nos órgãos que podem receber a técnica. “Se tiver um fígado com lesões do lado direito e do esquerdo, é possível tratar e, após o procedimento, a função hepática é mantida. É um tratamento para melhorar a qualidade de vida desse paciente e aumentar a expectativa de vida.”

Seleção

Mas nem todos os pacientes podem ser submetidos ao método. “Depende do tamanho da lesão e da localização. Ela (a técnica) está contraindicada para lesões de fígado em posições centrais, porque pode lesar a via biliar. Em pulmão, não pode ser perto de brônquios grandes”, diz Menezes.