domingo, 15 de junho de 2014

Retomar o crescimento


AMIR KHAIR - O ESTADO DE S.PAULO
15 Junho 2014 | 02h 03


A vitória da seleção brasileira na inauguração da Copa foi um bom sinal para animar a esperança que pulsa no coração do brasileiro no principal esporte do País. As ameaças à não realização dos jogos não foi suficiente para impedir a presença e a circulação dos 60 mil torcedores que lotaram a Arena Corinthians. Foi um bom começo e pode durar até meados do próximo mês caso a seleção chegue à final. Depois disso as atenções se deslocam para a disputa eleitoral para os governos dos estados e Presidente da República.
As últimas sondagens dos principais institutos de pesquisa apontam a possibilidade crescente de ocorrência de um segundo turno. Nesse caso as propostas em debate poderão ficar mais claras aos eleitores, que estão ávidos por mudanças, mas não querem perder os avanços ocorridos na renda e no emprego, que são trunfos importantes do atual governo.
O tema do crescimento econômico será provavelmente o mais importante juntamente com a prestação dos serviços públicos na vida das pessoas. É o transporte coletivo, a mobilidade urbana, a segurança, a saúde, a moradia e o lazer, que precisam melhorar.
Pode-se afirmar que os dois últimos governos melhoraram a renda e sua distribuição, mas pouco fizeram para atender os anseios crescentes dos milhões de brasileiros que ascenderam à classe média e que reivindicam melhor condição de vida, a começar pela mobilidade urbana, que tira do brasileiro diariamente parcela significativa do seu tempo no trânsito e que foi agravada pela política de estímulo ao uso do automóvel. Esse estímulo atende à política do governo de aumentar a produção da indústria automobilística, que desde o governo Lula foi eleita o carro chefe do crescimento econômico devido ao seu elevado fator multiplicador para a geração de emprego.
O governo Dilma agravou ainda mais a mobilidade urbana ao retirar a tributação da Cide sobre a gasolina e impor à Petrobrás o subsídio à gasolina. Além disso, reduziu o IPI do automóvel. O resultado foi entupir mais ainda a saturada rede viária de transporte nas cidades.
As manifestações de junho do ano passado elegeram a mobilidade urbana como o pesado ônus que sacrifica toda a população que necessita circular nas cidades. A presidente prometeu melhorá-la, mas com essa política de privilegiar o transporte individual foi na direção contrária. Isso pode ser fator importante a pesar nas eleições contra si.
Crescimento. Quanto ao crescimento econômico este ano é mais um perdido e se atingir 1,5% vai dar a média de 1,9% ao ano para este governo, nível inferior ao período negro de 1981 a 2003, que atingiu média anual de 2,0%.
Vários erros ocorreram na condução da política econômica. Depois de crescer 7,5% no último ano do governo Lula, Dilma iniciou seu governo pisando no freio do crescimento ao decidir pela adoção de medidas macroprudenciais para encarecer o crédito, temendo a inflação. Quando percebeu o estrago causado pelas medidas macroprudenciais retirando-as já era tarde e o crescimento em 2011 caiu para 2,7%, carregando o estrago para 2012 que baixou mais ainda para 1,0%.
Não foi por falta de tentativas, no entanto, que o governo não conseguiu fazer o País crescer. Desonerou as empresas da quota patronal do INSS, reduziu tributos, lançou o pacote de concessões nos modais de transporte para atrair o investimento privado e tentou reduzir os juros, mas logo recuou diante da reação do sistema financeiro. As medidas se sucediam sempre com a promessa de retomada do crescimento. Como não ocorreu, a frustração foi tomando conta da sociedade, a tensão política e social foi crescendo e a popularidade da presidente despencando.
Creio que para retomar o crescimento é fundamental reduzir os preços da economia e para isso tirar a gordura do sobrepreço causado pelos juros que oneram os bens e serviços. Segundo a Associação dos Executivos de Finanças, Contabilidade e Administração - Anefac a taxa de juros ao consumidor para financiamentos em doze meses registrou as seguintes médias anuais: 119% em 2011, 102% em 2012, 90% em 2013 e voltou a subir este ano atingindo 101% no último mês. Isso significa dobrar os preços para financiamentos com prazo de doze meses. É fundamental desintoxicar o organismo do mal causado pelo excesso de juros. Ao reduzir o componente juro dos preços se atinge simultaneamente a redução da inflação e se ativa o crescimento econômico.
O desafio, portanto, é reduzir os juros e como fazer é a questão. Penso que se deve começar pelo sistema bancário. Os bancos no mundo todo vivem dos empréstimos que oferecem aos seus clientes. Aqui é diferente, pois o Banco Central presenteia os bancos com duas importantes fontes extras de lucros: os ganhos de tesouraria nas aplicações em títulos do governo com a Selic elevada e as tarifas bancárias exorbitantes que são praticadas. Ao reduzir a Selic ao nível internacional, que é o da inflação, e ao tabelar reduzindo as tarifas bancárias os bancos são direcionados à sua função principal que é a oferta de crédito. Assim, a concorrência se amplia e as taxas de juros refluem.
Ao reduzir a Selic cai a atratividade ao capital especulativo internacional, que retira anualmente do País em média US$ 10 bilhões em juros nas aplicações em títulos regados a Selic. Ao reduzir o ingresso deste capital especulativo o câmbio passa a fluir para novo ponto de equilíbrio que estimo próximo de R$ 3,00/US$. Isso ativa o sistema produtivo ao devolver parte da competitividade retirada das empresas pela apreciação cambial. A inflação que poderá ocorrer não deve servir de impedimento à decisão de colocar o câmbio no lugar. Quem exporta para cá regula o preço em dólar ao mercado. É a lei da concorrência. Com o novo câmbio não há que temer a elevação na mesma proporção dos preços em reais, pois se ajustam os preços em dólar. Contribui, também, para segurar a inflação, como mencionado, a redução do componente juros dos preços.
Trata-se de outra política econômica, focada no crescimento e com instrumento adequado ao controle inflacionário, que é a derrubada de preços intoxicados pelos juros.
Em apoio à redução de preços o governo deve estabelecer e implantar políticas voltadas à redução de custos das atividades essenciais à vida da população, especialmente, alimentação e transporte coletivo. Vale lembrar que a alimentação foi o vilão da inflação nos últimos dois anos, e políticas de estoques reguladores e de abastecimento contribuem para controle de preços e podem ser mais bem utilizadas para isso.

‘O mercado brasileiro mudou, e a geografia do emprego é outra’ ( Leonardo Trevisan)


Pesquisador da área de carreiras analisa crescimento das oportunidades de trabalho fora das grandes capitais

Agronegócio. Crescimento da área plantada no País teria impulsionado aumento de vagas no interior (Imagem: Eduardo Monterio/Divulgação)

LEONARDO TREVISAN, professor da PUC-SP
O que era desconfiança virou fato: o emprego cresce fora das grandes capitais. E a diferença é grande. No primeiro trimestre deste ano, as seis maiores capitais do País tiveram queda de 9% na abertura de vagas com carteira assinada, na comparação com o mesmo período do ano passado. No entanto, no resto do Brasil, a oferta de novos postos cresceu 22%, na mesma comparação. Os dados são do IBRE, da Fundação Getulio Vargas, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.
Por que tem mais emprego no interior? Produtividade no trabalho do agronegócio, por exemplo. Nos últimos 30 anos, a área plantada de grãos cresceu 42%, enquanto a produção cresceu 228%. O ganho de produtividade, portanto, foi de 3,2% ao ano. Esse avanço foi sustentado primeiro pela forte geração contínua de nova tecnologia, via Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) com pesquisa e desenvolvimento aplicada.
Segundo, para usar bem a nova tecnologia precisa gente mais qualificada, e foi também o que aconteceu. Pesquisa da Embrapa mostrou que, em 2013, 53% dos agricultores já usavam o conceito de “agricultura de precisão”, com automação de processos, nos nove estados mais produtivos do País.
Na nova geografia do emprego, a renda do agronegócio tem forte efeito multiplicador nas outras atividades, serviços especialmente. E, sem dúvida, esse avanço só foi possível porque o conjunto da mão de obra está mais educado, como mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do IBGE.
No Brasil, das 91,2 milhões de pessoas ocupadas, no primeiro trimestre deste ano, 47,5 milhões delas (52%) possuíam ensino médio completo, cursavam ensino superior, ou já o tinham concluído. Em 2005, a condição de ensino médio concluído alcançava só 35% dos ocupados. Em 2012, 49,3%; no ano de 2013, foram 50,3% e, em 2014, consolidou maioria com maior grau de escolaridade.
Na prática, o mercado de trabalho brasileiro já mudou. A geografia do emprego é outra. O perfil do trabalhador também é outro. A disputa por vaga dependerá, cada vez mais, da capacidade de atender ao pedido de mais produtividade. Aceitar a ideia de educação continuada é a melhor forma de atender este “pedido”. Seja qual for o ramo de atividade.
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A lenta inovação


O ESTADO DE S.PAULO
15 Junho 2014 | 02h 06

Recursos para as empresas aplicarem em projetos de inovação existem, boa parte está sendo utilizada, mas os resultados em termos de ganhos de produtividade e competitividade são poucos. A contínua perda de participação do produto nacional no mercado doméstico de bens industrializados, constatada em pesquisas frequentes das associações representativas do setor, está se transformando na prova mais dramática de que, se não se tornar mais competitiva, e com rapidez, a indústria brasileira poderá ser condenada a contentar-se apenas em atender a nichos de um mercado que já dominou.
Esta talvez seja a conclusão mais objetiva do Fórum Estadão - Inovação, Infraestrutura e Produtividade, realizado pelo Estado, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que reuniu representantes do governo, empresas e instituições de pesquisa.
Como ficou claro nos debates e exposições, embora indispensável, por si só a inovação - isto é, a criação, modernização ou transformação de sistemas e métodos produtivos, de produtos ou serviços e de modelos de gestão e de comercialização que abram ou ampliem mercados - não é capaz de assegurar o aumento da competitividade de uma empresa ou de uma economia. Ela precisa vir acompanhada de outros fatores, como infraestrutura adequada, sistema econômico que facilite e estimule a atividade empresarial, além de disponibilidade de recursos para investir.
Entre os pontos positivos destacados durante o Fórum Estadão está o fato de que cresceram, nos últimos anos, os recursos públicos destinados a apoiar as empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento. Eles estão disponíveis por meio de programas criados pela Finep e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e há demanda, uma indicação positiva de que o tema inovação ganhou relevância no meio empresarial, como observou o presidente da Finep, Glauco Arbix.
É preciso reconhecer, porém, que, apesar dessa melhora, o Brasil investe pouco em pesquisa e desenvolvimento. A diretora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para a área de inovação, Fernanda De Negri, lembrou que, nos países desenvolvidos, as empresas investem de 2% a 2,5% do PIB em pesquisa em desenvolvimento, enquanto no Brasil elas investem apenas 0,5% do PIB.
Exemplos de outros países deixam claro que as empresas mais inovadoras e de crescimento mais rápido basearam sua expansão na conquista do mercado internacional. O foco no mercado externo, onde certamente são muito maiores as oportunidades do que no mercado doméstico, implicou a necessidade de oferta de produtos e serviços inovadores e, sobretudo, competitivos. "Quem atua no mercado externo é mais competitivo e inova mais", observou, durante o Fórum Estadão, o secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Nelson Fujimoto. Boa parte das empresas brasileiras, no entanto, concentrou sua atenção no mercado interno, que durante muito tempo foi fechado a diversos produtos importados, o que retardou a busca de produtividade e competitividade.
Além de mais recursos para pesquisa e desenvolvimento que levem à inovação, especialmente do setor privado, o avanço da competitividade da economia brasileira requer outras medidas, muitas delas de iniciativa do poder público.
É preciso dotar o País de infraestrutura suficiente para facilitar o escoamento da produção e reduzir os custos da atividade produtiva. Os países de rápido crescimento nas últimas décadas, como os asiáticos, demonstraram que uma economia só é capaz de crescer e se modernizar rapidamente se dispuser de pessoal preparado, o que exige um sistema educacional de qualidade. Há, no Brasil, profissionais qualificados, mas em número insuficiente para permitir o salto de competitividade que o País precisa dar. Além disso, as instituições de pesquisa, especialmente as ligadas às universidades, precisam aproximar-se das empresas.
Em inovação e produtividade, dinheiro é importante, mas não é tudo.