domingo, 11 de fevereiro de 2024

Cautela na regulação das redes sociais, Lygia Maria, FSP

 Qualquer pessoa bem informada sabe que é preciso haver alguma forma de regulação das redes sociais. Isso não está em questão. O problema é a forma como se dará a regulação.


Alexandre de Moraes, presidente do TSE, disse que o tribunal e o Ministério da Justiça estão constituindo um grupo para rastrear quem atenta contra a democracia na internet.

A fala levanta preocupações, a começar pela participação do Ministério da Justiça, órgão ligado à esfera do Poder (o Executivo) que não deveria se meter na liberdade de expressão, ainda mais em período eleitoral.

O ministro do STF Alexandre de Moraes durante reunião solene em Brasília - Sergio Lima/AFP

Ademais, quem avaliará as postagens? Que critérios linguísticos serão usados para atestar que uma mensagem atenta contra a democracia? Afinal, o que é atentar contra a democracia —esse conceito abstrato?

O histórico do TSE e do STF nessa seara também não ajuda. Foram cometidos abusos no pleito de 2022, como a censura prévia de um documentário que sequer foi visto pelos membros da corte, sob alegação de "situação excepcionalíssima".

De modo semelhante, Moraes usou o argumento de "afastamento excepcional de garantias individuais" em decisão no STF que bloqueou as contas digitais de um influencer. Num exercício de futurologia, proibiu-se o que poderia vir a ser dito.

O magistrado tem feito ativismo pela aprovação do PL das Fake News. Sugeriu ao Congresso a manutenção de métodos usados na última eleição, como suspensão imediata de conteúdos até mesmo se existir dúvida de que estejam divulgando informações antidemocráticas.

Ofício da PF em inquérito sobre a atuação das big techs contra o PL afirma que o intuito das empresas era "incutir nos consumidores a falsa ideia de que o projeto de lei é prejudicial ao Brasil". Quem comprovou a falsidade? Pelo visto, a PF agora determina que leis são boas para o país.

Qualquer pessoa bem informada sabe que uma regulação das redes é necessária, e também que a cúpula do Judiciário brasileiro nos últimos anos tem falhado na defesa da liberdade de expressão. Daí a cautela.

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