sexta-feira, 31 de julho de 2026

'Até Quando Esperar' ainda ressoa, o Brasil não mudou, diz cantor da Plebe Rude -FSP

 Regiane Soares

São Paulo

O Brasil ainda estava sob a ditadura militar quando a Plebe Rude lançou "O Concreto Já Rachou", o primeiro álbum da banda, em 1986. Para celebrar os 40 anos das canções que contestavam a desigualdade social e econômica da época, a banda prepara um documentário sobre a história dos garotos de Brasília e lançou no streaming uma nova versão da música que abre o disco, "Até Quando Esperar", com participações de Herbert Vianna e Jaques Morelenbaum.

Uma edição especial em vinil de "O Concreto Já Rachou", com as sete músicas do LP, e um compacto com versões demo fazem parte das comemorações do álbum e dos 45 anos da Plebe Rude. E um disco de inéditas também deve ser lançado em breve.

Integrantes da banda Plebe Rude: André X (baixo), Clemente Nascimento, Marcelo Capucci (bateria) e Philippe Seabra (vocal e guitarra) - Caru Leão/Divulgação

Para o guitarrista e vocalista Philippe Seabra, revisitar o próprio trabalho tem um lado doce e outro amargo. "Como compositor e artista, você fica feliz com a relevância da obra. Mas tem um lado, como pai e cidadão, que você fica meio zangado porque a letra não envelheceu. Das duas, uma: ou a gente era vidente, ou o país não mudou nada. Então, nesse aspecto, [regravar "Até Quando Esperar"] me incomoda, pois a mensagem ainda ressoa", diz Seabra.

Segundo o guitarrista, a faixa continua atual porque o principal questionamento da música segue sem resposta. "A desigualdade social é o inimigo de tudo, e é muito triste ver isso em um país tão rico como o Brasil. A música não estava pedindo muito, só questionava ‘cadê nossa fração? Cadê sua fração?’."

"O Concreto Já Rachou" faz parte de uma geração do rock nacional que marcou os anos 1980. Na mesma época foram lançados "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, "Selvagem", dos Paralamas do Sucesso, "Dois", da Legião Urbana, entre outros tantos já quarentões. Clássicos da época, eles estarão presentes no festival C6 no Rock que será realizado nos dias 22 e 23 de agosto, em São Paulo.

O disco de estreia da Plebe Rude tem ainda outras canções-protesto, como "Proteção", "Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)", "Minha Renda" e "Brasília", cujo refrão dá nome ao álbum.

Em uma análise em retrospecto, Seabra conclui que "O Concreto Já Rachou" é um disco lúcido, que conseguiu captar o anseio da geração da época. "Tanto que o disco vendeu mais de 250 mil cópias. Foi o primeiro disco de ouro de uma banda de Brasília e entrou na lista dos discos mais importantes da história da música popular brasileira, segundo a revista Rolling Stone", diz o guitarrista.

Para ele, essa lucidez do rock de Brasília se deu pelo fato de os jovens da época serem filhos de acadêmicos e diplomatas que tiveram acesso não só a uma boa formação, mas também a livros, discos e filmes, além de tudo o que se passava no Planalto Central.

O guitarrista reconhece o que chama de privilégio de conseguir discernir o que acontecia na época e traduzir em canções o sentimento de quem não concordava com o sistema político. Enquanto isso, eles tentavam encontrar sua própria identidade cultural em uma cidade ainda em formação.

"A gente estava ao lado do poder, então, ou você virava um playboy, ou você tentava fazer alguma coisa com as armas que você tinha. E as armas que a gente tinha eram uma guitarra e um microfone", diz.

"Éramos um bando de garotos tentando encontrar um meio de expressão e ter algo pra fazer", afirma, lembrando dos encontros com Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, e Herbert Vianna.

Herbert, que na época já estourava com Os Paralamas do Sucesso, foi o produtor de "O Concreto Já Rachou" e deu pitacos que hoje Seabra lembra com humor, mas que na época lhe causaram estranheza. Foi sugestão do músico, por exemplo, a inclusão de um arranjo de violoncelo em "Até Quando Esperar".

Os integrantes da banda Plebe Rude: Philippe Seabra (vocal e guitarra); Marcelo Capucci (bateria); Clemente Nascimento (vocal e guitarra); André X (baixo) - Caru Leão/Divulgação

No alto de seus 18 anos, com seu coturno de garoto punk, Seabra fez objeção. "Banda punk com violoncelo? De jeito nenhum." A resposta foi imediata. "O Herbert me puxou de canto e falou ‘cara, é o seguinte, você está fazendo um disco para o Brasil ou para os seus amigos?’ Aí eu tive que abaixar a cabeça e deixar", diz, ao relembrar o episódio.

"É claro que a gente queria abranger nosso público. Mas, não à custa dos meus princípios. E ficou fantástico", afirma.

Essa e outras histórias da banda estarão em um documentário, agora em fase de pós-produção. Dirigido por Marco Abujamra, que acompanhou a Plebe Rude em alguns shows, o filme incluirá depoimentos dos integrantes, mas ainda não tem data de lançamento.

Enquanto conversava com a reportagem, por telefone, Seabra viu uma cena no trânsito de Brasília que chamou sua atenção: um homem ajoelhado em frente aos carros parados no semáforo, com os braços levantados e pedindo comida.

"Brasília é a cidade com a renda per capita mais alta do Brasil, e olha só. Parece que acabei de ver a letra [de ‘Até Quando Esperar’]. Loucura isso, não?"

O Concreto Já Rachou

  • Preço R$ 249,90, em umusicsto

Entregas falsas de comida e compras fictícias de roupas: como funcionam os “aplicativos de dopamina” gratuitos- The Conversation

 É sábado à noite e você baixou um novo aplicativo de entrega de comida. Você deu uma olhada nos cardápios, escolheu alguns pratos mexicanos, fez o pedido e agora está acompanhando a entrega. Mas a comida nunca chega — e você nem esperava que chegasse.

Parece ridículo se você nunca experimentou, mas essa tendência viral é mais popular do que você imagina. Só um aplicativo, o FoodNeverComes, já registra quase 1 milhão de “desejos satisfeitos” até o momento.

Por que as pessoas se dariam ao trabalho de gastar tempo em aplicativos ou sites criados para nunca entregar nada? No fim das contas, tudo se resume a obter uma dose de dopamina.

Parece uma diversão inofensiva permitir que os usuários “comprem” comida, roupas ou outros produtos sem nenhum custo no mundo real, já que a maioria desses aplicativos é gratuita. Mas mesmo quando um aplicativo ou site não custa nada, há desvantagens a serem observadas — incluindo como suas escolhas podem ajudar os anunciantes a segmentar melhor você na vida real.

Da Coreia do Sul para o mundo

FoodNeverComes é um exemplo de aplicativos e sites gratuitos, sustentados por anúncios, que imitam um serviço online de entrega de comida. Mas existem outros tipos.

Por exemplo, o Dopamine Shop, gratuito e sustentado por anúncios, é um site falso de compras online. Lá, os clientes visualizam itens — desde uma pedra por 99 centavos até uma lua por US$ 99 milhões — e, em seguida, enchem seus carrinhos. Mas nenhum dado de pagamento é solicitado e nenhuma transação de verdade ocorre. Nada é enviado.

Existem até aplicativos falsos e gratuitos de “fumo”, como o No Smoke Zone, também conhecido como Virtual Smoke, que se descreve assim:

O Virtual Smoke é um aplicativo de simulação realista de cigarro que permite que você aproveite a aparência, a sensação e o relaxamento de fumar – sem nicotina nem efeitos nocivos. Perfeito para quem está tentando parar de fumar, reduzir o estresse ou simplesmente se divertir com um cigarro virtual.

Essas novas plataformas são conhecidas como “aplicativos de dopamina” ou “sites de dopamina”.

Embora tenham surgido na Coreia do Sul, curiosamente, o Dopamine Shop pertence e foi desenvolvido pela Fenwick Holdings LLC, um pequeno estúdio independente nos Estados Unidos. Isso sugere que esse novo gênero de aplicativos e sites pode estar se espalhando globalmente.

Por que isso dá sensação de prazer?

A dopamina é tanto um poderoso neurotransmissor quanto um neuromodulador – transmitindo mensagens químicas e provocando mudanças no seu cérebro.

A dopamina desempenha vários papéis importantes, incluindo nos motivar a alcançar objetivos e ajudar o cérebro a aprender quais ações levam a resultados benéficos.

Com essas novas plataformas de dopamina, os usuários experimentam:

  • antecipação (“Talvez eu encontre algo bom”)
  • seleção (“Eu controlo minhas escolhas”)
  • e uma sensação de confirmação (“Meu pedido foi feito!”)

O único elemento que falta nesse processo, em comparação com um aplicativo ou site de web commerce real, é o pagamento e o consumo do produto encomendado,que não existem.

Mesmo antes desses aplicativos mais recentes, algumas pessoas já haviam percebido que podem obter uma sensação semelhante à da “terapia das compras” ao criar listas de desejos ou encher o carrinho e, em seguida, esvaziá-lo, sem efetuar a compra.

Você pode simular a mesma sensação criando painéis no Pinterest da casa dos seus sonhos, sem precisar construir nada. Ou pode imaginar as férias dos seus sonhos, usando vários aplicativos e sites de planejamento de viagens, gratuitos ou pagos.

Potencial como “porta de entrada”

Será que fingir que está pedindo comida, fazendo compras ou se “divertindo com um cigarro virtual” poderia ter alguma desvantagem?

Esses aplicativos e sites que estimulam a dopamina são relativamente novos, por isso ainda não temos pesquisas específicas sobre até que ponto, se é que de fato, eles podem servir como “comportamentos de porta de entrada”. Um comportamento de porta de entrada é um comportamento inicial que abre caminho para que comportamentos mais perigosos se tornem mais prováveis.

Mas essa é uma área que já foi bem estudada em outros contextos, como jogos de azar e videogames. E essas pesquisas anteriores levantam possíveis preocupações — especialmente porque esses aplicativos de dopamina envolvem algum nível de gamificação.

Por exemplo, um notável estudo de 2014 acompanhou 409 pessoas que jogavam jogos de cassino sociais, mas que nunca haviam apostado online com dinheiro real. Seis meses depois, cerca de 26% delas já tinham migrado para jogos de azar online com dinheiro real.

Um estudo de 2016 com 521 usuários de cassinos sociais constatou que 19% relataram ter apostado com dinheiro real como resultado direto dos jogos de cassino social.

E um estudo de 2018 com 1.178 adolescentes alemães, com idades entre 11 e 19 anos, constatou que o envolvimento com jogos de azar simulados previa a participação em jogos de azar com dinheiro real um ano depois.

Alimentando anúncios direcionados

Lembra-se do velho ditado “não existe almoço grátis”?

Embora esses aplicativos e sites possam ser divertidos e gratuitos, suas escolhas “falsas” ainda podem ser incrivelmente valiosas para os profissionais de marketing.

Aplicativos gratuitos geralmente dependem de publicidade para arcar com os custos de disponibilizar seu conteúdo gratuitamente. Aplicativos ou sites que usam o Google AdSense para exibir seus anúncios utilizam cookies: pequenos arquivos de texto armazenados no seu navegador para rastrear seus hábitos de navegação online.

Anunciantes terceirizados, incluindo o Google, podem então usar seu histórico para exibir anúncios mais direcionados a você. (Se você ler as letras miúdas, os sites informam como desativar a publicidade personalizada.)

Se você comprar aquela jaqueta falsa ou pedir aquela entrega de sanduíches imaginários, não se surpreenda se começar a ver mais anúncios de verdade de produtos como estes.

‘Farmar aura’ e cupom no lugar de bolsa: como as faculdades agem para evitar a baixa de aluno - OESP

 Por Renata Cafardo

Durante décadas, a palavra usada pelas universidades particulares que ofereciam algum desconto na mensalidade era bolsa. Agora ela divide espaço com outra, muito mais comum no varejo online: cupom.

Graduação por R$ 79 mensais, pelo cupom “farmar aura”, expressão comum aos jovens que domina as redes sociais. Cashback na matrícula da faculdade. E curso universitário em site especializado em cupons de desconto, onde normalmente há promoções para pizzas, eletrônicos ou cosméticos.

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Em um momento de mudanças regulatórias que diminuíram a procura pela educação a distância (EAD) e acirraram a concorrência, o ensino superior privado adota estratégias típicas do comércio eletrônico para captar alunos.

As universidades privadas sempre precisaram convencer jovens a investir alguns anos de suas vidas e muitos reais em um diploma. A novidade é que, para fazer isso, passaram a disputar atenção e cliques com a mesma linguagem usada para vender um tênis, uma passagem aérea ou uma assinatura de streaming.

Propaganda do cupom "farmar aura" da Estácio
Propaganda do cupom "farmar aura" da Estácio  Foto: Reprodução

A estratégia de marketing mais agressiva pode ser explicada pelo momento do mercado. Como mostrou o Estadão, mais da metade (55,9%) das instituições privadas de ensino superior do País registrou queda na captação de novos alunos em cursos de educação a distância (EAD) no primeiro trimestre do ano, em comparação com o mesmo período de 2025. Uma em cada três instituições teve redução maior que 20% na entrada de estudantes em EAD em 2026.

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Os dados são de pesquisa amostral feita pelo Instituto Semesp e já escancaram os efeitos das novas regras da modalidade, que proibiu cursos totalmente online em áreas como Licenciaturas, Saúde e Engenharias. Essa é a primeira vez desde 2022, quando o levantamento começou a ser feito, que o índice aponta queda.

No ano passado, o governo criou a modalidade semi-presencial, em que é necessário haver ao menos 30% de aulas presenciais. Questionadas sobre eles, 56% das instituições disseram que a captação também ficou abaixo ou muito abaixo do esperado.

As mudanças foram uma tentativa de endurecer a regulação e aumentar a qualidade do ensino superior. Desde 2017, quando houve flexibilização das regras do EAD, o crescimento das graduações na modalidade foi de 700%. O EAD hoje já supera o presencial em número de alunos no País.

Cashback em promoção da Anhaguera
Cashback em promoção da Anhaguera Foto: Reprodução
Cupons para graduação na Anhanguera
Cupons para graduação na Anhanguera Foto: Reprodução

Cursos que exigem alguma presencialidade são mais caros para a instituição e, consequentemente, para o aluno. E aí entra um outro elemento que pode estar levando a mais promoções: o endividamento dos jovens, em especial com apostas. Em 2025, uma pesquisa do setor projetava que dos quase 2,9 milhões de potenciais ingressantes na educação superior privada, 34% estavam sob risco de não efetivar a matrícula por causa do comprometimento financeiro com bets.

E para concorrer com as bets, a solução foi o “farmar aura”. A Universidade Estácio lançou este mês a campanha em redes sociais e na TV com o slogan “Melhor que farmar aura é formar na Estácio”. Além do atrativo do meme, a primeira mensalidade na graduação custa R$ 79 e o aluno só volta a pagar em outubro.

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Já a Anhanguera tem cupons e cashbacks oferecidos em vários sites de descontos, em que é só clicar e digitar EDUCA15 para ter 15% de abatimento. Outras tantas fazem promoções em que se paga um mês e ganha vários de graça.

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Procurada, a Anhanguera informou, em nota, que tem “estratégia multicanal para divulgação de seus cursos, combinando canais próprios e parceiros digitais para ampliar o alcance de suas campanhas de captação, mas que “ao tomar conhecimento dessas publicações, a instituição iniciou a revisão e a remoção integral dos cupons junto às plataformas envolvidas”.

A Estácio informou apenas que a campanha é “regular” e atinge todo o País.

Bolsas sempre existiram e continuam sendo importantes para ampliar o acesso. A novidade é que passaram a vir acompanhadas da lógica do varejo digital, que inclui cupons, cashback, ofertas-relâmpago, memes. É uma linguagem pensada para decisões rápidas, impulsivas, orientadas pelo clique. Mas a escolha de uma profissão pede justamente o contrário, tempo, reflexão e um compromisso com um projeto de vida que durará décadas.

Há uma contradição em querer formar profissionais capazes de pensar criticamente, planejar e tomar decisões complexas usando, para atraí-los, mecanismos desenhados justamente para reduzir o tempo de reflexão e aumentar a conversão.

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É compreensível que as universidades precisem disputar atenção em um ambiente dominado por algoritmos, plataformas digitais e mercado do ensino superior desaquecido. Mas elas podem estar abrindo mão de um de seus papéis mais importantes, mostrar que a educação e o desenvolvimento profissional não são decisões que devem ser tomadas na velocidade de um clique.