A simplicidade é um valor democrático. Porque o que é simples é mais compreensível, e chega a mais gente. Porque, como dizia Antônio Vieira, "o sermão deve ser como as estrelas, simples e mui distintas, e não temais que por isso o estilo vos pareça baixo, porque as estrelas são simples e distintas e são altíssimas".
Porque quem escreve ou fala para ser entendido por uma velhinha analfabeta de 90 anos (com pouca educação formal, mas provavelmente sábia) também vai ser entendido por um catedrático (com muita educação formal, mas talvez obtuso). Mas quem escreve ou fala para ser entendido só pelo catedrático não será entendido por mais ninguém.
E a simplicidade é um valor democrático noutro sentido ainda. Quem é simples, genuíno e de aparência comum é valorizado por ser "um de nós", e a democracia é o regime no qual o cidadão comum pode exercer o poder.
A democracia, na sua origem republicana, sabia disso. "Liberdade, igualdade, fraternidade" é simples. "Ordem e progresso" também. Complicada pode ser a forma de chegar lá.
Infelizmente, a minha família política, que é a dos intelectuais de esquerda, adora complexidade. E isso ficou pior ainda numa época em que a direita abraçou uma espécie de simplicidade estúpida e bruta, o que levou a esquerda a distanciar-se mais ainda: se os populistas de direita propõem soluções simples para problemas complexos, eles que fiquem com a simplicidade que nós ficaremos com a complexidade.
Grave erro. O problema da simplicidade estúpida não é ser simples; é a estupidez. O problema da simplicidade desonesta está na desonestidade, não na simplicidade.
Da mesma forma, o contrário da simplicidade estúpida não é a complexidade sofrida mas a simplicidade inteligente. Ela existe, e a campanha que Zohran Mamdani fez para ser prefeito de Nova York está aí para o provar.
A campanha que Zohran Mamdani fez representa um marco na história da propaganda política progressista e as suas lições vão ser estudadas, problematizadas, densificadas e complexificadas por intelectuais de esquerda ao redor do mundo.
Quero ser o primeiro a implorar-lhes que não façam nada disso e que se concentrem numa lição simples de uma campanha simples. Acontece que eu gosto das políticas e das propostas de Mamdani, mas a principal lição não é eu concordar com ele: é ele ter conseguido dizer o que disse de forma simples e ter feito muita gente que já tinha desistido de ser de esquerda concordar com ele.
Uma cidade como Nova York tem certamente milhões de problemas complexos, e claro que, como bom intelectual de esquerda, Mamdani deve adorar discutir todas as nuances deles. No entanto, a sua campanha foi toda baseada em discutir soluções práticas e simples que se podem implementar. A linguagem foi simples. O sorriso era simples. E a lição é simples: a simplicidade inteligente pode combater com eficácia a simplicidade estúpida.
Caros correligionários intelectuais de esquerda: da próxima vez que forem responder com um "é mais complexo do que isso", mordam a língua e não deem um tiro no pé. Inclusive ao acabar de ler esta coluna.


