segunda-feira, 16 de junho de 2014

Com medo da água do 'volume morto', paulistano troca torneira por galão


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Moradora da Vila Guilherme, na zona norte de São Paulo, a artesã Magda da Silva, 63, aposentou o filtro de barro que usava havia mais de 40 anos. "Tem aquele 'volume morto', né? Aquela água que fica no fundo da represa, com cheiro de fossa", diz.
"Antes, lavando o quintal, eu até bebia água da torneira. Agora, nem para o meu cachorro eu dou", diz ela, que gastou R$ 400 em um purificador de água superpotente.
Um mês após o governo Geraldo Alckmin (PSDB) anunciar o uso do chamado 'volume morto' do sistema Cantareira para conter o risco de racionamento, é comum a desconfiança sobre a água que sai da torneira –apesar de a Sabesp garantir a qualidade.
O 'volume morto' é formado pela água que fica no nível mais profundo dos reservatórios. Por estar abaixo da tubulação que capta o líquido, ela precisa ser bombeada para a superfície.
Rogério Cassimiro/Folhapress
Vitor Hugo Pereira, 53, mostra água que sai da torneira de sua casa, na Vila Guilherme (zona norte de SP)
Vitor Hugo Pereira, 53, mostra água que sai da torneira de sua casa, na Vila Guilherme (zona norte de SP)
O termo "morto" contribui para a má impressão. Mas a maioria das queixas é ao cheiro de cloro e à cor esbranquiçada da água, que começaram antes do uso da reserva.
Na casa do professor Vitor Hugo Pereira, 53, na Vila Guilherme, a água chega branca feito leite. "Começamos a cozinhar com água mineral porque a da torneira dava gosto na comida e azia, chegaram até a vomitar", diz.
A Sabesp afirma que a coloração se deve a um fenômeno relacionado ao cloro.
A explicação não convence o comerciante Ademir Bueno, 54. "Estão usando água mineral para tudo. A da Sabesp, só para lavar roupa", conta, mostrando um copo de água marrom recém-tirada da sua torneira.
Na Brasilândia (zona norte), o telefone dos depósitos de água também tem tocado mais. "Tem mais gente comprando galões pela primeira vez", diz Juscelino Santos, 32.
No seu estabelecimento, o galão de 20 litros custa R$ 25 na primeira compra e R$ 9 se o cliente já tem o vasilhame.
O novo hábito afeta o bolso de gente como Ângela da Silva, 44, que trabalha vendendo Yakult em um carrinho no bairro. Para comprar dois galões por semana, ela acaba gastando R$ 70 dos R$ 900 que ganha todo mês.
Alérgica a cloro, a aposentada Eliana Sabó, 64, moradora da Consolação, reclama. "Atacou o meu estômago. Acho que estão aumentando os bactericidas."
A dona de casa Lucicleide Santos, 28, da Freguesia do Ó (zona norte), proibiu o filho de beber água na torneira.
"Ele teve diarreia, ânsia de vômito. Depois que começamos a comprar água, parou." 

domingo, 15 de junho de 2014

'Para funcionar, metrópole tem de ser vertical'


EDISON VEIGA - O ESTADO DE S.PAULO
15 Junho 2014 | 02h 04

Dono de construtora, Otávio Zarvos defende que pessoas morem mais perto umas das outras

"Se o novo Plano Diretor vai ser um avanço, não é porque o prefeito é um gênio ou porque os construtores querem erguer mais prédios. É porque a sociedade já entende que uma metrópole precisa ser mais verticalizada para funcionar melhor." A frase é do administrador de empresas Otávio Zarvos, de 47 anos, proprietário da construtora Idea!Zarvos, grande responsável pela transformação pela qual passa o bairro da Vila Madalena - nos últimos dez anos, ele construiu (ou começou a construir) 19 prédios comerciais e residenciais por ali.
Zarvos não só gosta, como acredita no que faz. Seus prédios são autorais - assinados por arquitetos de primeiro time, como Isay Weinfeld, e os escritórios Triptyque, Nitsche e FGMF. Têm um conceito e identidade, não poderiam estar em outro bairro. "Eu gosto de arquitetura. E não acho que seria possível fazer esses prédios em outra região. Eles têm a ver com a Vila Madalena", afirma.
Quando lembram que ele é um dos "culpados" pela valorização imobiliária do bairro nos últimos anos, Zarvos não refuta. Mas se justifica.
"Há dez anos, a Vila só tinha vida noturna. Durante o dia, era completamente parada. Comecei a construir prédios de escritórios, propiciando que o sujeito que já gostava do bairro também trabalhasse aqui - muitas vezes, pertinho de casa", defende. "Isso é o máximo que eu posso fazer como urbanista sem ser prefeito da cidade."
Ele não quer ser prefeito. Mas acredita que a cidade será (ou seria) melhor se as pessoas morassem mais perto uma das outras. "O custo da infraestrutura cairia, e o metrô serviria melhor. O trânsito seria menor, já que os deslocamentos também seriam reduzidos", enumera.
"Não faz sentido sua empregada morar a 30 km de sua casa", afirma o empresário. Por isso, a verticalização. "Não sou bonzinho. Sei que com isso eu ganharia mais. Mas a cidade também ganharia", diz.
Respeito. Dos arquitetos, ele conquistou respeito. "Acho que o Otávio percebeu que as pessoas hoje querem morar de um jeito diferente - mais relaxadas, com menos pompa. Comunicou-se fácil com a sua geração", comenta Isay Weinfeld.
Para Lourenço Gimenes, do escritório FGMF, Zarvos conseguiu criar uma nova maneira de fazer empreendimentos, com uma postura diferente. "Ele apostou no caminho de valorizar o projeto e, com isso, conseguiu criar uma marca que usa o design como instrumento de venda e imagem. Hoje, outras incorporadoras tentam replicar seu sucesso, mas nem todas entendem que, para fazer bem feito, é preciso fazer com o estômago, não com a planilha", define.
Claro que, ao lado dos elogios, as críticas também vêm. "Como minha história é ligada ao bairro da Vila Madalena, sou cobrado pelos vizinhos. A comunidade sabe onde moro, sabe onde trabalho", explica Zarvos. "Mas mesmo os que são contra mais prédios costumam dizer que, entre um prédio feio e um prédio nosso, é melhor um nosso."

Energia de sol e vento


CELSO MING - O ESTADO DE S.PAULO
15 Junho 2014 | 02h 06

O Brasil está perdendo grande oportunidade de ampliar o uso de fontes alternativas de energia. Apesar do aumento da produtividade e da redução de custos, a energia eólica corresponde a apenas 1,1% na matriz elétrica brasileira e a fonte solar nem sequer é citada no Balanço Energético Nacional 2014 (BEN).
Em média, o megawatt-hora (MWh) gerado pelos ventos foi contratado por R$ 129,97 no leilão realizado no último dia 6 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), valor 30% mais baixo do que os R$ 184,65 alcançados no primeiro leilão, em 2009. É uma energia já mais barata do que a gerada nas Pequenas Centrais Hidrelétricas - PCH (R$ 161,56) ou nas centrais processadoras de bagaço de cana (R$ 174,83), óleo combustível (R$ 192,52) e óleo diesel (R$ 203,59).
A redução de custos deveu-se principalmente à instalação no Brasil de fábricas de aerogeradores, pás e ao desenvolvimento de equipamentos mais potentes, como aponta Eliane Fadigas, professora do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP). "No Brasil, os ventos apresentam uma produtividade média de 42%, enquanto a europeia é de 25%", explica Elbia Melo, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeólica).
Velhos problemas ainda são enorme encrenca. Para Guilherme Valle, especialista em Energia da consultoria PwC, os principais entraves são os atrasos na instalação das redes de transmissão e as complicações que envolvem a concessão de licenciamento ambiental para instalação dos parques eólicos.
Eliane Fadigas também fala das dificuldades de natureza fundiária. Muitas áreas propícias à instalação dos cataventos não são regularizadas e não dispõem sequer de registro no Incra, por onde iniciativas assim têm de começar.
Nos Estados Unidos e na Europa, onde os parques eólicos eram considerados boa resposta ambiental, cresce a oposição de ambientalistas, pelos altos índices de mortandade de pássaros, geração de ruídos e "poluição visual".
Elbia Melo, da Abeólica, argumenta que as licenças ambientais brasileiras já consideram as rotas migratórias de aves desde 2000. Além disso, os avanços tecnológicos elevaram a altura das torres, o que tem evitado as colisões de pássaros e de morcegos. Ela também considera que o barulho deixou de ser problema, já que os equipamentos mais recentes produzem ruídos de até 50 decibéis, o mesmo produzido pelo funcionamento de um escritório situado na Avenida Paulista.
"No Brasil, os parques ficam fora dos perímetros urbanos e não geram esses impactos", diz. A Abeólica calcula que a participação da fonte eólica na matriz elétrica brasileira atingirá 5,2% até 2022.
Enquanto o setor eólico experimenta crescimento virtuoso, a geração de energia por fonte solar ainda engatinha. Em leilão realizado em novembro de 2013, nenhum dos 31 projetos emplacou. Como não sai negócio, não há preço de referência, informa a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Outro leilão está previsto para o dia 10 de outubro.
A coordenadora do Grupo de Estudos em Energia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Antônia Diniz, reconhece que o setor enfrenta altos custos e a dependência de componentes importados para as células fotovoltaicas, a alma desse equipamento, que convertem a luz em energia elétrica.
A geração de eletricidade a partir de energia solar em residências é regulamentada pela Aneel desde 2012, mas os custos ainda são altos. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) calcula que a instalação de placas fotovoltaicas não sai por menos de R$ 20 mil para atender ao consumo médio de 300 quilowatts-hora por mês de uma residência em São Paulo. O consumidor levaria entre 7 e 14 anos para ter o retorno do investimento em economia na conta de luz, a depender da eficiência das placas na geração de energia.
Relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) mostra que 80% dos investimentos em energia na Europa nos últimos 10 anos foram para fontes renováveis, 60% dos quais só para energia eólica e solar fotovoltaica. Para Suzana Kahn, professora da Coppe/UFRJ, o Brasil pode ficar para trás. "Independentemente dos problemas de abastecimento, essa é uma questão de segurança energética", diz. Aliadas a outras fontes geradas localmente, as energias eólica e solar podem ajudar a reduzir a dependência brasileira na importação de combustíveis. / COLABOROU DANIELLE VILLELA