terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fronteiras da biotecnologia - XICO GRAZIANO


O Estado de S.Paulo - 10/12

Plantas transgênicas vieram para ficar. E prevalecer. Suas variedades passaram a dominar a safra de grãos no Brasil. Na corrida tecnológica, ninguém segura a engenharia genética. A ciência vence o medo obscurantista.

Lavouras geneticamente modificadas de soja, milho e algodão, nessa ordem, lideram, com dois terços, a semeadura da área nacional. Produtividade, facilidade no trato, economia de defensivos: aqui as razões principais que explicam seu notável desempenho. Problemas agronômicos, como resistência de ervas invasoras a herbicidas ou ressurgência de pragas, existem, mas se assemelham aos das lavouras convencionais. Não se comprovou alguma tragédia ambiental, tampouco dano à saúde humana, decorrente do uso específico de transgênicos.

Há séculos o melhoramento genético tradicional tem modificado os organismos. As variedades atualmente plantadas ou criadas pouco se parecem com suas ancestrais: o frango deixou de ser caipira, o milho tornou-se ereto, as frutas perdem suas sementes. Nenhum alimento continua "natural". O patamar da evolução mudou, porém, quando os cientistas descobriram a possibilidade de modificar artificialmente o DNA das espécies. Sem cruzamento sexual.

Tudo começou em 1972. Pesquisadores perceberam que parasitas do gênero Agrobacterium transferiam partes de seu germoplasma para as plantas hospedeiras, estimulando nestas a produção de açúcar, do qual se alimentavam. Quer dizer, ocorria na natureza um mecanismo de transgenia. Dez anos depois, em Gent (Bélgica), cientistas conseguiram pioneiramente efetuar a transgênese em laboratório. Em seguida, certas bactérias foram geneticamente modificadas visando à produção de insulina humana. Os diabéticos comemoraram. A ciência havia dado um tremendo salto no conhecimento.

Desde então as equipes de ponta, em oficinas públicas e privadas, passaram a investir na engenharia genética, turbinando mundialmente a biotecnologia. Esta se destacou, inicialmente, na manipulação de microrganismos. Depois, em 1996, chegou ao campo, com o lançamento de uma variedade de soja resistente à aplicação de herbicida. Começou a grande polêmica. Ativistas ambientais denunciaram a "comida Frankenstein". Religiosos condenaram os cientistas por manipularem a vida. A opinião pública ficou confusa.

Tal temor, compreensível, resultou na proposta de uma "moratória" de cinco anos, precaução adotada pela União Europeia em 1999. Esse período se considerava suficiente para buscar o esclarecimento das dúvidas sobre a nova tecnologia. O tempo passou, a engenharia genética evoluiu, os preconceitos religiosos e ideológicos cederam lugar às evidências científicas. Novas transgenias surgiram, barreiras foram caindo. Hoje, na agricultura, as variedades modernas, geneticamente alteradas, se fazem presentes em 50 países, plantadas por 17,3 milhões de agricultores, ocupando 10% da terra arável do mundo. Não é mais uma experiência.

Novidades biotecnológicas continuam surgindo. Entre animais, desenvolvem-se cabras transgênicas que produzem em seu leite uma proteína típica da teia de aranha, capaz de gerar polímeros altamente resistentes. Nos vegetais, entusiasma a possibilidade da geração de plantas que suportam "stress hídrico". Na Embrapa, um gene de cafeeiros resistentes à seca foi introduzido em plantas de fumo, fazendo-as suportar a falta de água no solo. Em Israel, cientistas do Instituto de Tecnologia alteraram os genes de alface, impedindo que suas folhas murchem após a colheita. Sensacional.

Técnicas chamadas "DNA recombinante" invadem a medicina. Utilizando-as, o Instituto Butantã (São Paulo) desenvolveu recente vacina contra a hepatite B; também pela intervenção no genoma viral surgem vacinas contra influenza, dengue, coqueluche e tuberculose. Na Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto estuda-se uma vacina transgênica para combater câncer. Porcos geneticamente modificados em Munique (Alemanha) provocaram fraca reação do sistema imunológico humano, abrindo caminho para os xenotransplantes.

Bactérias, leveduras e fungos geneticamente modificados têm sido utilizados na fabricação de alimentos há tempos. Esses microrganismos atuam diretamente nos processos de fermentação, gerando queijos, massas, cerveja; ajudam até na definição do aroma em bebidas e comidas. Etanol celulósico, a partir do bagaço da cana ou de capim, virá de leveduras geneticamente modificadas. Na indústria, o sabão em pó contêm enzimas, oriundas de bactérias transgênicas, que facilitam a degradação de gordura nos tecidos.

Na fronteira da biotecnologia desenvolve-se aqui, na Embrapa, uma incrível técnica - dos promotores constitutivos - capaz de restringir a manifestação de certas proteínas transgênicas em folhas e frutos das plantas modificadas. Ou seja, a planta será transgênica, mas seus frutos, ou grãos, escapam do DNA alterado. O avanço da engenharia genética, base da biotecnologia, é extraordinário em todos os ramos, dando a impressão de que o melhor ainda está por vir.

Por que, então, diante de tanto sucesso ainda há restrições contra os transgênicos, taxando-os de produtos do mal? Boa pergunta. A resposta encontra-se no preconceito criado lá atrás. A rigor, hoje em dia os produtos transgênicos, submetidos a legislação super-rigorosa, são bastante seguros para o consumo. Já outros alimentos, embora "convencionais", mais parecem uma bomba química: salgadinhos, latarias, maioneses, doces insossos, essas gororobas, sim, impunemente destroem nossa saúde.

Conclusão: transgênico ou convencional, pouco importa. Vale o alimento ser saudável.

Em busca de uma tecnologia para limpar o rio Pinheiros


BRUNO CALIXTO
10/12/2013 08h22 - Atualizado em 10/12/2013 08h26
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Ri o PInheiros, em São Paulo (Foto: Associação Águas Claras do Rio Pinheiros/Facebook)
O estado dos rios que atravessam São Paulo é uma das grandes vergonhas ambientais brasileiras. Os rios e córregos da cidade, que já foram limpos no passado, hoje são conhecidos pelo mau cheiro, por atrair mosquitos e doenças, além das enchentes. Com o rio Pinheiros, não é diferente. Suas águas são classificadas como "totalmente poluídas" desde a década de 1970. No ano passado, o governo publicou o Índice de Qualidade da Água em quatro pontos do rio: em três pontos, a água foi classificada como "ruim", e em um ponto como "péssimo".
A primeira tentativa de limpar o rio Pinheiros foi um grande fracasso. Em 2001, o governador Geraldo Alckimin iniciou um projeto de despoluição usando o método de flotação. Esse método aplica produtos químicos na água que fazem a sujeira subir, para depois ser retirada. Dez anos depois, testes mostraram que a técnica não funcionou, e o governo abandonou o projeto, que custou cerca de R$ 160 milhões. O prejuízo foi dividido entre o Estado e a Petrobras, que financiava parte do projeto.
Com o fracasso, a associação Águas Claras do Rio Pinheiros, uma organização que reúne empresas e moradores da região do rio Pinheiros em busca da limpeza do rio, sugeriu fazer uma bateria de testes para encontrar uma nova tecnologia de despoluição. "Nós fizemos a proposta porque, mesmo que a Sabesp complete todas as obras programadas, ainda não vai resolver o problema da poluição do rio. Precisamos buscar novas tecnologias para isso", diz Stela Goldesntein, diretora-executiva da Águas Claras do Rio Pinheiros.
O governo comprou a ideia. Em março, a Secretaria de estado do Meio Ambiente fez um chamado público para empresas interessadas em mostrar métodos de despoluição. Inicialmente, 23 empresas apresentaram propostas. Dessas, apenas cinco foram consideradas aptas. Durante um mês, entre outubro e novembro de 2013, essas empresas mostraram a aplicação de suas tecnologias em um ambiente de testes construído nas margens do rio Pinheiros, usando a água retirada diretamente do rio.
Os métodos testados usam produtos químicos ou biotecnologia para limpar a água. Para ter uma ideia de como essas técnicas funcionam, o Blog do Planeta conversou com os representantes de uma das tecnologias testadas, as empresas Verus Ambiental e Engeform. Elas utilizam uma biotecnologia chamada Accell 3. Esse produto usa uma combinação de proteínas que estimula as bactérias presentes no rio, fazendo-as degradar a poluição e gerando oxigênio no rio.
Segundo Renato Abucham, diretor da Verus Ambiental, o teste do último mês foi positivo: em menos de três dias, a água perdeu o odor e, pouco tempo depois, diminuiu a tensão de superfície da água, evitando a proliferação de mosquitos. "Nós esperamos ter mostrado às autoridades que nossa tecnologia funciona", disse. Ele estima que o uso da biotecnologia pode começar a ter efeitos, se aplicada no rio, em menos de 60 dias, mas é impossível saber com precisão, já que o rio é mais complexo do que o ambiente de testes.
Também participaram dos testes as empresas Beraca Sabará, Superbac Proteção Ambiental, DT Engenharia e empreendimentos e Evonik Degussa Brasil. Segundo a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, a escolha dependerá da efetividade da técnica, custo e tempo necessário para limpar as águas. Um grupo de trabalho formado por representantes do governo, pesquisadores da USP e ONGs deve analisar as cinco propostas e escolher uma ou mais tecnologias que possam ser utilizadas. A expectativa é que até fevereiro de 2014 já se tenha uma resposta sobre o resultado dos testes.
Problema maior do que apenas limpar
Mesmo que as técnicas propostas funcionem, e até se tiverem um desempenho superior ao esperado, o problema ainda não estará resolvido. O rio recebe uma grande quantidade de lixo das ruas, levado pelo vento e pela água da chuva. O ato de jogar lixo no chão e falhas no trabalho de limpeza urbana pioram essa situação. Além disso, muitos córregos e rios paulistas deságuam no Pinheiros, e grande parte desses córregos está poluída.
Para dificultar ainda mais o trabalho, há o problema da falta de urbanização e saneamento. Segundo a Águas Claras do Pinheiros, um mapeamento recente encontrou mais de 850 favelas na beira do rio. Isso significa que não basta limpar, é preciso fazer a urbanização e coleta de esgoto nessas casa. Historicamente, a regularização dessas comunidades é demorada. "Isso significa que vamos precisar continuar tratando a água do rio muito tempo depois da realização de todas as obras previstas pelo governo", diz Stela.

A punição como cura, por Paul Krugman

á se passaram seis anos desde que a economia dos Estados Unidos entrou na Grande Recessão, e quatro anos e meio desde que ela começou oficialmente a se recuperar, mas o desemprego a longo prazo continua desastrosamente alto.
E os republicanos têm uma teoria sobre os motivos para que isso esteja acontecendo. Uma teoria completamente errada, na verdade.
Mas eles não desistem dela - e como resultado 1,3 milhão de norte-americanos, muitos dos quais em situação financeira desesperada, perderão seus seguros-desemprego no final de dezembro. Feliz Natal.
Devemos lembrar que o desejo do Partido Republicano de punir os desempregados não surge simplesmente de uma má análise econômica; é parte de um padrão mais amplo de afligir os já aflitos e reconfortar os já confortáveis.
Mas ideias fazem diferença - como John Maynard Keynes escreveu, em uma citação famosa, elas são "perigosas para o bem ou para o mal".
E o caso do seguro-desemprego é um exemplo claro de ideias econômicas erradas, mas superficialmente plausíveis, que se revelam perigosas.
Eis o mundo como muitos republicanos o veem: o seguro-desemprego, que em geral paga aos trabalhadores elegíveis entre 40% e 50% do salário que ganhavam antes de serem demitidos, reduz o incentivo para que eles busquem novos trabalhos.
Como resultado, os trabalhadores passam mais tempo desempregados.
Uma das alegações específicas que essa linha de raciocínio faz é a de que o programa de Compensação de Emergência por Desemprego, que permite que trabalhadores recebam benefícios por prazo maior que as 26 semanas usuais, explica por que existem quatro milhões de desempregados em longo prazo hoje nos Estados Unidos, ante apenas um milhão em 2007.
Por isso, a resposta do Partido Republicano ao problema do desemprego em longo prazo é causar mais dor às pessoas desempregadas há muito tempo: se os benefícios que elas recebem forem cortados, elas sairão e encontrarão empregos.
Como, exatamente, elas encontrarão empregos se existem três candidatos para cada vaga disponível? Detalhes, detalhes.
Os proponentes dessa interpretação gostam de mencionar pesquisas acadêmicas que aparentemente confirmam a ideia de que o seguro-desemprego causa desemprego.
Eles não mencionam que essas pesquisas já têm mais de 20 anos, não foram comprovadas pelo tempo e são irrelevantes, dada nossa atual situação econômica.
A opinião da maioria dos economistas que estudam o mercado de trabalho, hoje, é a de que os benefícios aos desempregados exercem um modesto efeito negativo sobre a busca de empregos - e não exercem efeito negativo algum sobre o índice geral de emprego.
Pelo contrário: os benefícios ajudam a criar empregos, e cortá-los deprimiria a economia como um todo.
Pergunte-se de que maneira, exatamente, pôr fim aos benefícios aos desempregados criaria mais empregos.
Mas o que daria às empresas incentivo para empregar mais gente, em lugar de substituírem os seus trabalhadores atuais?
Você talvez se sinta tentado a argumentar que a concorrência mais intensa entre os trabalhadores resultaria em salários mais baixos, e que a mão de obra barata encorajaria mais contratações. Mas esse argumento envolve uma falácia de composição.
Reduzir os salários de alguns trabalhadores com relação a outros permite que aqueles que aceitam o corte de salários ganhem vantagem competitiva.
Mas se os salários de todos forem reduzidos, ninguém ficaria em vantagem. O único resultado disso seria uma queda geral de renda - o que, entre outras coisas, agravaria a carga de dívidas dos domicílios, e portanto teria efeito líquido negativo sobre o quadro geral do emprego.
O ponto é que o emprego na economia dos Estados Unidos hoje é limitado pela procura, não pela oferta. As empresas não estão deixando de contratar porque não conseguem encontrar trabalhadores; estão deixando de contratar porque não encontram compradores suficientes.
E reduzir os benefícios-desemprego, o que reduziria a renda e o consumo, só agravaria a situação.
Mas não espere que os republicanos mais importantes mudem de ideia.
O senador Rand Paul, por exemplo, recentemente citou pesquisas que sugerem que os desempregados em longo prazo encontram mais dificuldade para reingressar na força de trabalho como motivo para - adivinhe! - cortar os benefícios-desemprego em longo prazo. Na opinião dele, esses benefícios são um "desserviço" aos desempregados.
A boa notícia, se é que temos alguma, é que a Casa Branca e os democratas do Senado estão tentando transformar a expiração dos benefícios-desemprego de longo prazo em causa.
A má notícia é que eles não parecem determinados a fazer da prorrogação desses benefícios uma precondição para um acordo orçamentário, o que significa que não estão realmente dispostos a fincar pé.
Por isso, as probabilidades indicam que os desempregados em longo prazo perderão seus benefícios graças a um perfeito matrimônio entre a indiferença - completa falta de empatia pelos desafortunados - e a má interpretação da Economia. Mas essa não vem sendo a história de praticamente tudo, nos últimos anos?
Tradução de PAULO MIGLIACCI
paul krugman
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.