terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Gratidão, por Suzana Herculano-Houzel

De todos os feriados, o de Ação de Graças norte-americano é meu favorito: um fim de semana prolongado para reunir a família ao redor de um enorme jantar e lembrar de todas as pessoas, coisas e oportunidades pelas quais somos gratos. Ainda por cima, é um feriado não religioso e não comercial (ainda que dê início à temporada de compras natalinas).
Muito apropriadamente, o site TED.com publicou durante o feriado a palestra do monge Beneditino David Steindl-Rast, que vem há anos divulgando uma mensagem de gratidão. Em voz deliciosamente serena porém firme, e em pouco mais de 14 minutos sem qualquer apoio audiovisual, o monge nos lembra que todos nós, de qualquer cultura, etnia, credo ou profissão, temos algo profundo em comum: o desejo de ser feliz. E ousa dar uma receita: o caminho mais fácil e imediato para a felicidade é a gratidão.
É uma mensagem simples e poderosa --e a neurociência assina embaixo. David nos lembra do que é dar graças: é parar por um instante para olhar ao redor e reconhecer as oportunidades que temos, e lembrar que, mesmo se algo dá errado, a vida nos dá a seguir a oportunidade de tentar de novo. Na pior das hipóteses, podemos ser gratos só por essa oportunidade de seguir adiante.
Fui assuntar na literatura científica sobre o que é a gratidão para o cérebro, e me deparei com um belo estudo do americano Jordan Grafman com o brasileiro Jorge Moll sobre emoções morais.
Apoiados na filosofia de David Hume, eles supõem que essas emoções dependem da noção de agência, ou seja, de responsabilidade pessoal pelos acontecimentos. Quando algo de bom acontece como resultado das nossas ações, ficamos orgulhosos; mas quando algo de bom acontece por ação alheia, ficamos gratos. A equipe mostra que, nos dois casos, de fato há ativação do sistema de recompensa do cérebro, que nos deixa instantaneamente felizes e satisfeitos.
Parar para olhar ao redor e dar graças pelas coisas boas da vida é, portanto, dar ao cérebro uma oportunidade de lembrar de tudo o que tem dado certo e ficar genuinamente feliz com tudo isso que não depende de nós. Assim, a gratidão é, por definição, um sentimento de felicidade --mas um que podemos escolher ter a cada instante.
É só fazer uma pausa, dar graças (à vida, aos céus, a Deus, ao acaso, às pessoas boas que você conhece, não importa) --e instantaneamente seu cérebro encontrará um momento de felicidade.
suzana herculano-houzel
Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha, e professora da UFRJ. Escreve às terças, a cada 15 dias, na versão impressa de "Equilíbrio".

Projeto do Marco Civil está parado e pode piorar

RONALDO LEMOS
@lemos_ronaldo

O Marco CIVIL parou. A votação vai ficar só para o ano que vem, a partir de fevereiro, quando o Congresso volta do recesso. A demora incomoda. Em abril ocorrerá no Brasil um grande evento sobre a regulação internacional da internet, convocado pelo governo brasileiro. Não ter o Marco Civil aprovado até lá é saia justa. Em especial porque o projeto é a principal resposta brasileira às revelações de espionagem, para além da retórica.
Pior que a demora é a possibilidade de o Marco Civil ser completamente desfigurado até lá. Em vez de lei por direitos como a liberdade de expressão, tornar-se instrumento de controle da rede.
Há ao menos dois exemplos dessa possibilidade. Um deles é uma nova discussão surgida no Congresso para que o Marco Civil obrigue qualquer site ou serviço, grandes e pequenos, a guardar os registros de atividades dos usuários por um ano. Se a ideia era garantir a privacidade, esse dispositivo propicia a bisbilhotice, não dos EUA, mas do Estado brasileiro.
Além disso, está na mesa também proposta para obrigar a remoção automática de "ofensas": basta notificar o site ou provedor e ele ficará obrigado a tirar do ar o conteúdo "ofensivo". Só que ofensas são subjetivas. O que é ofensivo para um pode não ser para outro. O judiciário existe para decidir a questão, só que fica de fora se a proposta for adiante. Com isso, além da "biografia não autorizada" pode surgir no Brasil a figura do "comentário não autorizado".
Tomara que as férias de janeiro façam o Congresso refletir sobre a importância de manter o Marco Civil fiel à sua proposta original: assegurar direitos, não controle.
READER
JÁ ERA Facilidade de encontrar vagas para estacionar nas ruas da cidade
JÁ É A onda dos aplicativos para chamar táxi
JÁ VEM A onda dos aplicativos para facilitar achar uma vaga para estacionar, nos shoppings e nas ruas

    Justiça confronta Ustra e testemunhas por sequestro durante a Ditadura


    Coronel reformado e dois delegados respondem por sumiço de vítima.
    Audiências acontecem a partir desta segunda-feira, em São Paulo.

    Do G1 São Paulo
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    Em imagem de arquivo, coronel Ustra durante período no qual era responsável pelo Doi-Codi (Foto: Reprodução/TV Globo)Em imagem de arquivo, coronel Ustra durante
    período no qual era responsável pelo DOI-Codi
    (Foto: Reprodução/TV Globo)
    A Justiça Federal em São Paulo ouve a partir desta segunda-feira (9) testemunhas de um sequestro atribuído ao coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na audiência, serão ouvidos sete ex-presos políticos e o advogado de Edgar Aquino Duarte, desaparecido desde a década de 1970. As audiências devem ocorrer até quarta (11).
    De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), esta é a primeira vez que agentes da repressão política serão confrontados com testemunhas de um crime cometido durante a ditadura militar. Além de Ustra, que foi comandante do Destacamento de Operações Internas de São Paulo (DOI-Codi-SP) no período de 1970 a 1974, são réus no processo os delegados de polícia Alcides Singillo e Carlos Alberto Augusto. O G1 não localizou a defesa dos acusados até a publicação desta reportagem.
    Duarte ficou preso ilegalmente, primeiro no Doi-Codi e depois no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP), até 1973.
    Nascido em 1941, no interior de Pernambuco, Duarte tornou-se fuzileiro naval e membro da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Logo após o golpe militar, em 1964, foi expulso das Forças Armadas, acusado de oposição ao regime. Ele se exilou no México e em Cuba, voltando ao Brasil em 1968.
    Morando São Paulo, com o nome falso de Ivan Marques Lemos, Duarte montou uma imobiliária e passou a trabalhar como corretor da Bolsa de Valores. Ele encontrou-se com José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo", um antigo colega da Marinha que havia acabado de retornar de Cuba. Os dois dividiram um apartamento no Centro de São Paulo.
    Cabo Anselmo foi detido e passou a colaborar com o regime. No início da década de 1970, Duarte foi sequestrado e está desaparecido desde então. De acordo com o MPF, há suspeitas de que o crime foi cometido apenas porque ele conhecia a verdadeira identidade do Cabo Anselmo. Durante as investigações, os procuradores encontraram documentos do II Exército que atestam que a vítima não pertencia a nenhuma organização política na época em que foi presa.
    Assinam a ação os procuradores da República Sérgio Gardenghi Suiama, Andrey Borges de Mendonça, Inês Virgínia Prado Soares, Ivan Cláudio Marx, André Casagrande Raupp, Tiago Modesto Rabelo e Marlon Weichert.
    Sequestro
    De acordo com a decisão da 9ª Vara Federal Criminal de São Paulo, "uma das características da transição política no Brasil, diferentemente de outras experiências continentais, é a ausência de punição dos agentes estatais envolvidos nos excessos perpetrados”.
    O documento acrescenta que delitos como homicídios e lesões corporais cometidos no período foram albergados pela chamada Lei da Anistia. Essa lei, porém, não se aplica ao caso do desaparecimento de Duarte, pois seu sequestro "se prolonga até hoje, somente cessando quando a vítima for libertada, se estiver viva, ou seus restos mortais forem encontrados".