sexta-feira, 29 de maio de 2026

Robotize-se e comprove que não é um robô- Mário Sergio Conti - FSP

 O celular vibra no criado-mudo às 6h50. Durante a noite, quatro corporações, dois serviços de entrega, uma rede de farmácias, seus chefes e o gerente virtual do banco queriam saber se está a postos para participar da sociedade.

Digite sua senha.

Não use sua data de nascimento, o nome de sua bisavó materna nem o CPF. Ela deve ter entre uma dúzia e 20 caracteres não repetidos, pelo menos cinco escalafobéticos, duas maiúsculas e três números primos. Eis você, cidadão exemplar: mwºers9kiTzh§7Ulj#3+

Aceite todos os cookies.

A submissão ao incompreensível é a primeira genuflexão na liturgia da conformidade. O usuário exausto tecla o que o computador manda para fazer a janela sumir da tela. A concordância cega solapa a possibilidade de ver a verdade: não fazemos, somos feitos.

Clique em continuar para prosseguir.

A tautologia é a língua franca da administração algorítmica da vida. Prosseguir para continuar, continuar para prosseguir. Anda-se muito e não se vai a lugar nenhum. A aparência de ação fundamenta a essência falsa.

De azul com estrelas brancas, uma pessoa de costas entrando dentro da tela de um celular gigante. O celular está sobre uma mesa marrom e ao fundo um grande sol amarelo.
Bruna Barros/Folhapress

Se preferir, envie uma foto do rosto para sua validação biométrica.

"A liberdade não é escolher entre preto e branco, mas abominar esse tipo de escolha". O aforisma de Theodor Adorno está em "Minima Moralia", reflexões acerca da vida lesada do capitalismo industrial. Ele prescinde da coerção ostensiva, organiza a servidão por meio de microhábitos imperceptíveis que, somados, definem uma ordem.

Diga quantos ônibus aparecem nas imagens e comprove que não é um robô.

Não se pergunte aonde vão os ônibus, quem os espera no ponto, se alguém cochila dentro deles. A realidade é um captcha sem sentido. Robotize-se e comprove que não é um robô.

Não use Caps Lock. Evite responder a todos. Seja claro.

Quem demora a responder é desorganizado, desinteressado, pouco profissional. A etiqueta, que estruturava a civilidade, foi absorvida pela lógica do desempenho eficaz. Da padronização das mercadorias passou-se à dos comportamentos, cancelando a espontaneidade. Você vale pelo que entrega, e tem de entregar rápido.

Sua opinião é importante para nós.

O excesso de comunicação impede a comunicação. A polidez da linguagem corporativa gere conflitos em potencial. O simulacro de diálogo substitui a relação humana. A branda brutalização digital fomenta vidas sem substância nem autonomia. O brasileiro é incapaz de dizer uma mentira sem acreditar nela.

Acesse nosso podcast.

Para fruir o canto mavioso e letal das sereias, Ulisses tapou os ouvidos dos marinheiros com cera, ordenou que o amarrassem ao mastro e ordenou que remassem. O proprietário do barco escutou a música magnífica à custa da mutilação da escuta dos empregados. Ao patrão, a arte; ao trabalhador, o remo.

Hoje, Ulisses não precisaria mandar nada. É por livre e espontânea vontade que você bota fones de ouvido e deleta os gritos ao redor enquanto corre por aí. A representação abstrata da injustiça universal (o sistema) oculta seu responsável concreto (o burguês).

Mulher com fantasia de sereia, incluindo cauda colorida e top branco, nada em ambiente subaquático com bolhas ao redor. Fundo azul simula cenário marinho.
A sereia do Aquário de São Paulo - Rafaela Araújo - 15.ago.25/Folhapress

Entre sem bater.

Quando Adorno escreveu seus aforismos, no mundo analógico do pós-Guerra, as portas dos carros tinham de ser batidas com força. Por isso, disse: "Nos gestos que as máquinas exigem de quem as usa já medra o violento, o brutal, o contumaz atropelo dos maus-tratos fascistas". O avanço tecnológico fez com que as portas agora se fechem com maciez. O mesmo progresso produz motores elétricos tão possantes e silenciosos que, ao sentir sua macia pulsação, o motorista do bólido blindado é tentado a passar por cima da escumalha de pedestres e ciclistas que atravanca as ruas.

Mande uma selfie.

O antigo "star system" dependia da distância entre divas e fãs. No atual, a intimidade é alardeada. Políticos transmitem seu café da manhã. Colunistas exibem ansiedades domésticas. Viajar sem postar fotos é impensável, porque a estrutura do lazer é a mesma do trabalho. O Brasil se preparou durante séculos para produzir e consumir Sabrina Sato.

Respeitamos sua privacidade.

À luz de velas, ela checa no celular memes e anúncios disfarçados de notícia —ou vice-versa— enquanto ele olha de soslaio vídeos pornográficos. Para não quebrar o clima romântico, o garçom envia o cardápio pelo WhatsApp.

Como posso ajudá-lo?

Com variantes, essa é a pergunta padrão do ChatGPT, do Gemini e do Claude. Ao se pedir à inteligência artificial uma apreciação da tecnovida à maneira de Adorno, o pastiche resultante seria esta coluna.

A autoria individual é irrelevante quando a indústria cultural vulgariza, seu método de praxe para diluir críticas.

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