terça-feira, 12 de maio de 2026

Projeto de lei sobre profissão de economista divide categoria, FSP

 Felipe Gutierrez

São Paulo

Um projeto de lei que altera as atribuições da carreira de economista tem causado controvérsias no meio e também no Congresso. Defensores do texto afirmam que se trata de uma modernização da regulamentação e um detalhamento sobre quais áreas os profissionais podem atuar. Já opositores dizem que a área não precisa de reserva de mercado e que o texto pode dar início a uma espécie de disputa com administradores e contadores por quem terá exclusividade para atuar em determinados campos.

O projeto lista 15 atividades que seriam privativas dos economistas, como perícia e avaliação de ativos. O texto inicial também vinha com algumas atribuições facultativas, mas essas foram retiradas da peça na tramitação.

Porta de vidro da entrada da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP com logo azul e amarelo comemorando 80 anos (1946-2026). Reflexo de pessoas caminhando do lado de fora.
Entrada da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo - Allison Sales/Folhapress

A proposta abre a possibilidade para que pessoas que não fizeram graduação na disciplina possam atuar no campo, mas não seria algo trivial: isso estaria aberto apenas a quem estudou em instituição que oferece o conteúdo do curso de economia.

O projeto foi apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que foi procurado por membros dos Corecons (Conselhos Regionais de Economia). Os conselhos cobram pelo menos R$ 670 por ano pelo registro profissional.

Lopes afirma que a legislação atual é antiga, de 1951, e que a profissão mudou desde então. Para o deputado, as atividades profissionais são muito reguladas no país e, se o mesmo não acontecer para os economistas, o exercício da profissão pode ficar restrito.

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"Veja os contadores: com a reforma tributária, com unificação de tributos e declarações pré-preenchidas, eles passam a ter um papel muito mais de analistas do que de escriturários."

A justificativa do PL também cita essa suposta defasagem. "Enquanto outras profissões desenvolveram e evoluíram na busca da atualização das suas normas no tocante ao rol de atividades que lhe são próprias, a regulamentação atinente à profissão de economista não avançou nesse particular", diz o texto.

Lopes afirma que a ideia não é dar exclusividade aos economistas, mas garantir que não haja proibições ao exercício de competências.

No entanto, entre as atividades exclusivas, estão diversas ligadas a aspectos econômico que também poderiam ser parte das tarefas de outras profissões, como análise e valoração econômica de impacto ambiental ou avaliação econômica de ativos tangíveis e intangíveis e de empresas.

Entre as facultativas, ou seja, abertas a outras carreiras, aparece, por exemplo, formulação, análise e implementação de estratégias empresariais e concorrenciais.

Pedro Gomes Afonso, conselheiro do Corecon de São Paulo, afirma que há um paralelo com a necessidade de certificação de profissionais como engenheiros ou médicos. Ele diz que a falta de perícia em um trabalho de engenharia, por exemplo, pode provocar uma queda de construção e matar alguém, mas que no caso de um economista, os danos da falta de treinamento seriam "no atacado", na sociedade como um todo.

O deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) está na comissão de finanças e tem manobrado para impedir a votação do projeto.

Ele argumenta que não é a formação em economia que evita desastres. Além do mais, diz, qualquer profissão implica riscos indiretos, mas é uma situação diferente daquelas em que a falta de formação apropriada representa perigos evidentes.

Segundo ele, o PL é problemático porque há uma subjetividade na expressão econômico-financeiro. "O relator até amenizou a redação, dizendo que as atividades privativas de economistas não impedem a colaboração de pessoas com outra formação, mas ainda assim tem a exigência da assinatura de um economista."

Além disso, se o texto for aprovado vai haver um acirramento na disputa entre conselhos de contabilidade, administração e economia —algo semelhante ao que ocorre hoje entre arquitetos e engenheiros, de acordo com ele.

Mesmo entre economistas há quem seja contra a regulamentação da profissão. Há cerca de dez anos, Marcos Lisboa, colunista da Folha, lançou um manifesto de economistas contrários.

Agora, ele diz, o projeto de lei não só não acaba com a reserva de mercado, como a intensifica. "O bom profissional, independente de qual seja a formação, deve poder trabalhar. Não há sentido para que esse tipo de entidade decida quem são os economistas", afirma.

Só para economistas

Atividades que PL classifica como privativas

  1. Assessoria e consultoria econômica

  2. Elaboração de laudos, pareceres e programas de natureza econômica

  3. Elaboração e análise de projetos de viabilidade econômica

  4. Avaliação econômica de ativos tangíveis e intangíveis, e de empresas, inclusive em ações judiciais de dissolução societária

  5. Perícias e assistência técnica judicial e extrajudicial, e auditoria de natureza econômica

  6. Análise e valoração econômica de impacto ambiental

  7. Avaliação dos impactos econômicos e sociais decorrentes da movimentação dos instrumentos dos mercados financeiro e de capitais

  8. Elaboração do plano de negócios nos aspectos econômicos, inclusive em processos de abertura de capital de empresas

  9. Elaboração de projetos de natureza econômica em PPPs, para todos os fins, inclusive para organismos internacionais

  10. Planejamento estratégico nos aspectos econômicos

  11. Formulação, implementação, acompanhamento e avaliação de planos, programas e projetos de natureza econômica para os setores público, privado, misto e terceiro setor

  12. Assistência econômica em processos de recuperação judicial e extrajudicial, nas falências e em liquidações patrimoniais

  13. Produção e análise de informações de natureza econômica, incluindo contas nacionais e índices de preços

  14. Elaboração de estudos, cenários e planos de desenvolvimento econômico

  15. Controle, avaliação e estudo da gestão econômica de quaisquer entidades

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