quinta-feira, 14 de maio de 2026

Os luditas nunca foram trogloditas, Sergio Rodrigues, FSP

 e você tenta, como eu, manter uma postura mais crítica e menos oba-oba diante do avanço da IA sobre todas as esferas da vida, é provável que já tenha sido xingada(o) de ludita.

IA é o sabor do momento, mas faz tempo que a mera relutância em aderir a algum item do consumismo tecnológico –achar melhor ler no papel do que em telas, por exemplo– tem bastado para a pessoa ser rotulada de ludita.

A palavra é a tradução do inglês "luddite", termo surgido em 1811 como nome autodeclarado de uma organização de operários do norte da Inglaterra que, por cinco anos, se dedicou ao boicote e ao incêndio de instalações industriais.

Data do início dos anos 1960 o uso de "luddite" em sentido metafórico, termo depreciativo para qualquer um que resista, ainda que só por rabugice, a uma engenhoca qualquer que todo mundo de repente considere imprescindível. "Ainda não usa escova de dente elétrica? Que ludita!"

Charlie Chaplin em "Tempos Modernos", de 1936 - Reprodução

Os luditas propriamente ditos foram duramente reprimidos, primeiro pela polícia e depois pelo exército. Muitos morreram. Não eram o único grupo de operários a quebrar máquinas naquela Europa do início da Revolução Industrial em que máquinas aviltavam mão de obra em ritmo, bem, industrial, e em que o desemprego significava miséria e morte.

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Em todo caso, esse foi o nome que acabou ficando. Ludita. (Não convém dar bola às formas "luddita" e "luddista", esta considerada preferencial pelo Houaiss. Quase ninguém as usa.)

"Luddite" saiu, segundo a tese etimológica mais aceita, do nome de Ned Ludd, operário de Leicestershire meio lendário que três décadas antes, num surto de cólera, teria quebrado sozinho duas máquinas.

Isso faz de ludita uma palavra derivada de antropônimo, de nome de gente, como silhueta (de Étienne de Silhouette), linchamento (de William Lynch), boicote (de Charles Boycott) e baderna (de Maria Baderna).

No senso comum, os luditas passaram à história como uns trogloditas, selvagens atrasados ou tolos que tentaram se opor à inexorabilidade do progresso humano e foram atropelados.

Cena do filme; Chaplin e demais trabalhadores na linha de produção
Charles Chaplin em cena de "Tempos Modernos" - Reprodução

Eric Hobsbawm e outros historiadores apontaram neles algo bem diferente: a sabedoria política de negociar poder para os trabalhadores com a arma disponível, impondo prejuízos aos patrões, num momento em que os sindicatos estavam na ilegalidade.

Os luditas não tinham nada contra as máquinas em si, o "progresso", a "tecnologia". O problema deles era com os donos das máquinas. Com o modo como eles as usavam para esmagar gente, para tornar gente prescindível.

Ah, mas não é da essência das máquinas tornar gente prescindível? Digamos que seja. Isso quer dizer que elas não podem ser jogadas no mundo sem leis, sem regulação. Porque gente não é prescindível, e não se pode esperar que morra sem lutar. Dessa tensão tiravam os luditas sua beleza trágica.

Sim, sabemos que as máquinas nunca mais foram embora do mundo. Mas toda uma nova teia de relações de trabalho precisou ser tecida em torno delas, com leis que foram domando, em parte, sua voracidade inicial. Está parecendo que com a IA também vai ser assim?

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