terça-feira, 26 de maio de 2026

O mercado livre de energia e o 'carro mil', Jerson Kelman, FSP

 Antes da crise do petróleo de 1973, a gasolina era barata e os carros saíam de fábrica equipados com motores potentes. Após o choque de preços, os potenciais compradores de veículos novos passaram a querer saber quantos quilômetros o veículo conseguiria percorrer com um litro de combustível.

Essa mudança de comportamento induziu a indústria a produzir carros mais econômicos, porém com menor potência. Na prática, o motorista sentia a diferença toda vez que precisava acelerar rapidamente para uma ultrapassagem segura na estrada. Percebia-se claramente o trade-off entre economia e performance.

O Fiat Uno Mille, primeiro carro "popular" do Brasil, lançado em 1990 - Luana Fischer - 21.nov.10/Folhapress

Um fenômeno semelhante ocorre hoje no setor elétrico brasileiro, mas com resultado distinto. Grandes consumidores que migraram do ACR (ambiente de contratação regulada) para o ACL (ambiente de contratação livre) fecharam negócios com usinas eólicas e solares, que oferecem condições imbatíveis para o preço da energia, medido em R$/MWh. No entanto, essas fontes são intermitentes: produzem quando a natureza permite, não necessariamente quando o consumo exige. Faltam-lhes a flexibilidade operacional e a potência necessárias para atender a uma demanda que oscila bruscamente ao longo do dia.

Diferentemente do comprador do "carro mil", o grande consumidor do ACL que compra energia de uma usina sem potência e sem flexibilidade ainda não sentiu a limitação de seu fornecedor porque é atendido pelo SIN (Sistema Interligado Nacional) —um pool de usinas—, não exclusivamente pela fonte que contratou. Ele paga apenas pela energia, mas usufrui gratuitamente tanto da potência quanto da flexibilidade providas pelas demais usinas do sistema.

As usinas que disponibilizam potência e flexibilidade para o SIN têm, em geral, contratos com as distribuidoras, que compram eletricidade no atacado e vendem no varejo para pequenos consumidores do ACR. São predominantemente as hidrelétricas e as termelétricas movidas a gás natural de ciclo aberto.

Com a expansão acelerada das fontes intermitentes e a diminuição da capacidade de regularização dos reservatórios, o SIN começou a perder potência e flexibilidade. Essa escassez forçou o governo a realizar o LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade de Potência), visando contratar usinas com capacidade de gerar quando sistemicamente necessário, ao custo estimado de R$ 40 bilhões por ano (quase o que é gasto com emendas parlamentares).

No mercado de automóveis, quem opta pelo carro mais econômico assume o risco da performance reduzida. No setor elétrico, o benefício é individual, mas o custo é sistêmico. O custo do LRCAP deveria ter recaído apenas sobre geradores e consumidores lastreados em contratos de energia, sem garantia de potência. São os que de fato criaram a necessidade de reforço sistêmico. Mas recairá sobre todos.

O impacto tarifário do LRCAP seria muito menor e não teria causado tanta polêmica se todos os compradores de eletricidade (distribuidores, comercializadores e consumidores livres) fossem obrigados a pagar, como no passado, por toda a infraestrutura necessária para a prestação do serviço de eletricidade.

Para começar, cada consumidor deveria pagar não apenas pela energia (consumo médio) mas também pela potência (consumo no horário de ponta do SIN).

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