O que aconteceu com a gente? Quando passamos a presumir que o outro é sempre mau, ardiloso, mal-intencionado? Onde foi parar o princípio democrático que pressupõe contraditório, ampla defesa e benefício da dúvida? Vamos nos permitir ser dominados pela retórica oportunista, apressada, injusta, presunçosa? Vamos nos contentar em ser idiotas úteis de quem manipula a informação?
A juíza Mariana Francisco Ferreira morreu aos 34 anos depois de um procedimento de coleta de óvulos. É triste, é injusto, é um caso que a polícia precisa investigar. Três dias depois, a Folha publicou uma charge de Marilia Marz: uma lápide e a frase "Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto com os penduricalhos". Era uma crítica às mordomias do Judiciário, que estão na ordem do dia.
Não era sobre Mariana. A chargista disse que não era. Acredito nela e nos profissionais do jornal envolvidos na cadeia da publicação, que lamentam a coincidência infeliz. Não tenho por que duvidar. Não por espírito de corpo, mas por essa crença fora de moda de acreditar que as pessoas são essencialmente boas e não o contrário.
Mas a conjunção foi servida de bandeja aos oportunistas apressadinhos, e o algoritmo fez a festa. STF, CNJ, associações de magistrados, tribunais, entidades de jornalismo (pasme), até imortal da ABL —todos com suas notinhas de repúdio prontas, vendo no episódio uma oportunidade de se mostrar como arautos da moralidade e da defesa de gênero.
Pergunto: que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher? Quem aderiu à onda sem nenhum interesse em entender que não havia conexão entre os fatos não está defendendo a juíza, está polindo a própria estátua.
Ninguém pensa, ninguém pondera, ninguém procura explicações. Viramos uma máquina de cancelamentos operada por indignados em série, todos tentando provar como são íntegros e lúcidos. Não são. Apenas digitam muito rápido. E cada veredito apressado transforma o mundo num lugar pior —mais cruel, mais solitário, mais injusto.


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