Dagmar Rivieri
Em muitas regiões do Brasil, a desigualdade não é um conceito abstrato. Ela tem endereço, rotina e consequência. Está no acesso limitado à educação de qualidade, na ausência de espaços culturais, nas oportunidades que não chegam e, muitas vezes, na sensação de que o futuro já vem desenhado antes mesmo de começar.
Para quem cresce dentro dessas realidades, o caminho costuma ser mais desafiador, tendo em vista que as escolhas são constantemente impactadas por necessidades que vão muito além do básico, como acesso, incentivo e referências.
É justamente nesse ponto que o terceiro setor começa a fazer diferença. Não como uma resposta imediata ou isolada, mas como presença e atuação contínua.
Organizações sociais atuam onde vemos lacunas históricas e, principalmente, onde existem pessoas que precisam ser vistas, ouvidas e incluídas em novas possibilidades. Mais do que levar soluções prontas, chegam dispostas a entender, construir junto e permanecer.
Isso faz diferença, porque transformar uma realidade não acontece de forma rápida. Exige consistência, vínculo e confiança. É preciso criar espaços onde crianças possam experimentar, aprender e se reconhecer. Onde jovens consigam avaliar diferentes caminhos, antes considerados distantes. E onde famílias passam a enxergar alternativas que nunca estiveram ao alcance.
Esse trabalho, muitas vezes silencioso, vai, aos poucos, redesenhando o território e as realidades. Comunidades que antes conviviam com a escassez de oportunidades começam a construir outras narrativas, e isso transforma não só trajetórias, mas também a forma como essas pessoas se enxergam dentro da sociedade.
Ainda assim, cabe nos perguntarmos: por que esse trabalho ainda é visto como complementar?
O terceiro setor já ocupa um papel central em áreas como educação e saúde. Segundo pesquisa da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), realizada em parceria com a Sitawi e o Movimento por uma Cultura de Doação, o setor representa 4,27% do PIB brasileiro, movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano e gera aproximadamente 6 milhões de empregos.
Mais do que isso, sustenta, na prática, parte importante do desenvolvimento social do país. Mesmo assim, segue sendo tratado como apoio, não como estratégia.
Essa percepção precisa mudar. A transformação que acontece nas comunidades não pode depender apenas de quem está diretamente envolvido. Ela exige uma sociedade mais participativa, empresas mais comprometidas e olhar direcionado para o fortalecimento dessas iniciativas, além de parcerias, investimentos a longo prazo e reconhecimento.
Também é preciso entender que há empreendedorismo no terceiro setor. Há gestão, inovação, tomada de decisão e responsabilidade com resultados. Existe um esforço contínuo para equilibrar impacto social e sustentabilidade. E, acima de tudo, existe a escolha diária de seguir, mesmo diante de desafios complexos.
A desigualdade ainda traz barreiras profundas, e o acesso a oportunidades segue sendo distribuído de forma limitada. Ainda assim, há um movimento consistente e transformador, que nasce nos territórios, nas relações, na construção de confiança e na abertura de caminhos onde antes havia ausência.
Talvez o ponto não seja discutir se o terceiro setor é importante, mas reconhecer que ele já é parte essencial da transformação e que ampliar esse impacto depende de uma decisão coletiva.
No fim, não se trata apenas de apoiar iniciativas sociais. Trata-se de escolher que tipo de sociedade queremos construir, quais oportunidades queremos ampliar e qual futuro estamos, de fato, dispostos a viabilizar para as próximas gerações.

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