Luciano Huck foi vítima de sua própria armadilha. Há anos ele tenta equilibrar os pratos de apresentador de TV, posição que exige neutralidade num país polarizado, e o de empresário amigo de outros empresários.
Em evento no último sábado (23), ele, que já considerou se candidatar à Presidência, reproduziu o velho pensamento da elite de que os beneficiários do Bolsa Família "criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad eternum" (em outras palavras, preguiçosos que não querem trabalhar).
Sem olhar os números reais, Huck deu a entender que os programas de mobilidade social produziriam efeito oposto, mantendo os pobres na pobreza. De Gil do Vigor a Ana Paula Renault, a massa de críticas que ele recebeu mostra que foi-se o tempo em que as celebridades ligadas à Globo tinham medo de atacar um dos seus.
Acostumado à sua posição de um dos maiores nomes da emissora, Huck emitiu sua visão de Brasil achando que não teria maiores consequências. Ao ver o tamanho do barulho, postou um vídeo em seus stories dizendo que fez as declarações "num evento fechado, fora do Domingão" e que sua fala "circulou fora de contexto" (ele teria uma opinião diferente na TV?).
Disse que não é contra programas de proteção social, mas defende "que esses programas sejam aperfeiçoados, num mundo com IA muita tecnologia. Que a gente tenha eficiência no resultado! (..) Os recursos precisam chegar a quem realmente precisa, para evitar corrupção e gastos indesejados." (No story seguinte, a primeira-dama Angélica, de costas para o povo, curtia um banho numa banheira de gelo).
Eu gostaria muito que Huck tivesse o mesmo senso crítico e a sanha de diminuir a corrupção no sistema bancário, por exemplo, onde Daniel Vorcaro cometeu uma fraude de bilhões que vai levar anos para ser sanada. Ou com o singelo montante de R$ 1,4 bilhão que nossos deputados terão para gastar no Fundo Partidário neste ano.
Mas não: a corrupção que precisa ser vigiada é a do dinheiro que vai para famílias cujos membros ganham até R$ 218 per capita num mês. A linha de raciocínio é sempre a mesma: se há qualquer tipo de corrupção ou má gestão no Bolsa Família, será que vale a pena manter esses programas?
A ironia maior é que alguns dos maiores quadros de sucesso do Caldeirão do Huck, que ele apresentava aos sábados antes de migrar para os domingos, são assistencialistas. É o caso do Lata Velha, que reformava carros caindo aos pedaços, e do Lar Doce Lar, que promovia a reforma de uma casa carente de renovações. Era uma conta bem mais suave para a Globo do que para o governo federal: o programa promovia algumas poucas ações sociais por mês em troca de audiência e popularidade.
Começou nesses quadros a construção de Huck como um cidadão próximo do povo, que viaja aos rincões do país e tem altos papos com pessoas das mais humildes. É uma imagem que faz inveja a João Doria, João Amoedo e outros empresários que amariam ter essa conexão popular para reverter em votos nas suas campanhas.
Foi essa imagem também que levou Huck a considerar se candidatar à Presidência em 2018, ano em que Jair Bolsonaro venceu o pleito. Assim como Silvio Santos, ele entendeu que o movimento não seria bom para os negócios e para sua imagem de apresentador.
Mas não bastou dizer não para a corrida ao Planalto. Desde então, em eventos e entrevistas, ele é instado a falar o que pensa do governo e de suas políticas econômicas e sociais. Não foi a primeira vez, mas no evento do último sábado ele deixou mais claro o seu pensamento de direita passível de mil críticas do lado da esquerda.
A celeuma pode não afetar a audiência do Domingão, já que esses debates costumam passar abaixo do radar do seu público. Mas certamente arranha a sua imagem de apresentador legitimamente preocupado com as causas sociais.
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