quinta-feira, 21 de maio de 2026

O paradoxo eleitoral da juventude brasileira em 2026, Le Monde Diplomatique

 Há um paradoxo no coração do eleitorado brasileiro. Às vésperas das eleições de outubro, a geração que mais sofre com o bloqueio das perspectivas de futuro é, simultaneamente, a que mais parece se deslocar em direção ao campo político que defende as políticas responsáveis por esse mesmo retrocesso. Poderá a esquerda reverter esse processo?

Entre 2002 e 2026, o Brasil viveu uma transformação estrutural em sua composição eleitoral (Gráfico 1). A queda da participação jovem e o crescimento do eleitorado idoso não são flutuações conjunturais: cada nova geração de eleitores jovens é numericamente menor que a anterior, e cada nova geração de idosos, maior. No médio prazo, essa inversão é irreversível.

Para além da mudança demográfica, há também um evidente afastamento da juventude em relação às eleições. O registro eleitoral de adolescentes de 16 e 17 anos caiu de 42,9% em maio de 2022 para 27,6% em 2026. Isso significa que, neste ano, mais de 70% dos brasileiros nessa faixa etária chegarão às eleições sem título de eleitor. A trajetória de queda, porém, não é nova: a participação já vinha diminuindo desde 2014 (33,7%) e atingiu menos de 14% em fevereiro de 2022, o pior patamar da série histórica. A reversão momentânea naquele ano ocorreu em condições bastante específicas: a possibilidade de emissão do título totalmente online durante a pandemia – eliminando a exigência de biometria presencial – e uma ampla mobilização de artistas e influenciadores nas redes sociais. Sem essas condições excepcionais, o engajamento voltou a cair. Os dados de 2026 indicam, novamente, um dos piores níveis de participação juvenil desde 2014.

O afastamento da política eleitoral, contudo, é apenas a face mais visível de um estranhamento profundo dos jovens com a democracia. Pesquisa da Fundação Friedrich Ebert Stiftung realizada em catorze países mostra que 57% dos jovens brasileiros não confiam em partidos políticos. E embora dois terços afirmem acreditar na democracia (66%), 58% dizem preferir um líder forte a instituições e partidos.Ou seja: estamos diante de uma juventude que, além de não participar das eleições, tende a enxergar os mecanismos da democracia representativa com crescente desconfiança e ceticismo. 

Isso deveria servir de alerta máximo para a esquerda. Durante décadas, o campo progressista brasileiro operou com uma premissa implícita de que o eleitorado jovem era um reservatório natural à esquerda. Até 2022, os dados ainda sustentavam, em parte, essa leitura. A pesquisa de boca de urna do Datafolha mostrava que, no segundo turno, Lula obteve 61% dos votos na faixa de 16 a 24 anos – a maior vantagem entre todos os grupos etários e uma vantagem indispensável para a margem final de vitória de apenas 2,14 milhões de votos.

Quatro anos depois, porém, esse quadro parece ter se estreitado. Pesquisas eleitorais de abril de 2026 – AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha e Nexus/BTG – apontam para uma disputa muito mais competitiva entre jovens de 16 a 24 anos. Na Atlas/Bloomberg, por exemplo, o cenário de 1º turno com Lula registra, nessa faixa, 28,5% para Lula, 36,6% para Flávio Bolsonaro e 22,4% para Renan Santos; em outro cenário, Lula cai a 17,4%, Flávio aparece com 37,7% e Renan com 21,3%. Na média aproximada dos levantamentos usados neste texto, Lula fica perto de 36% e Flávio perto de 35% no 1º turno entre jovens. Em vez de tratar esses números como previsão, eles devem ser lidos como sinal de erosão: a vantagem que Lula tinha nessa faixa em 2022 deixou de ser um dado seguro.

Em boa medida, essa mudança se relaciona ao deslocamento de parte da juventude para a direita. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg LatAm Pulse Brasil, de novembro de 2025, mostra que 52% da Geração Z se identifica com a direita ou centro-direita, contra 31% com a esquerda ou centro-esquerda, 5% com o centro e 12% sem ideologia declarada. É a coorte com maior identificação à direita entre as gerações medidas. A pesquisa Juventudes: uma tarefa pendente, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung e YouGov (2025), aponta na mesma direção geral, embora com outra faixa etária e outra escala: 38% dos jovens brasileiros de 16 a 35 anos se identificam com a direita, incluindo 17% com a extrema-direita, enquanto 18% se identificam com a esquerda.

A aproximação entre a juventude e a direita ainda é um fenômeno que carece de melhor reflexão, mas é possível cogitar algumas hipóteses. Entre elas, destacam-se a precarização crescente do trabalho juvenil, a fragmentação das formas tradicionais de sociabilidade e a centralidade cada vez maior das religiões fundamentalistas como espaços de pertencimento e construção identitária. Em um contexto marcado pela insegurança econômica, pela perda de perspectiva em relação ao trabalho formal e pela forte influência das redes sociais, parte significativa da juventude tem encontrado na direita – especialmente na extrema direita — uma linguagem política capaz de canalizar sentimentos de revolta contra aquilo que percebem como “o sistema”, frequentemente associado à esquerda e ao PT.

Em 2022, no entanto, o voto da juventude funcionou como uma importante base de apoio para Lula. A vantagem entre os eleitores de 16 a 24 anos compensou os déficits nas faixas mais velhas – particularmente entre 45 e 59 anos (47% Lula) e 60+ (44% Lula) – garantindo a margem final de vitória. Mas o que aconteceria caso esse apoio da juventude se alterasse?

Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Para medir o peso do voto jovem em 2022, simulamos o resultado eleitoral a partir do perfil de voto por faixa etária. Em seguida, substituímos apenas o comportamento dos eleitores de 16 a 24 anos pelos padrões apontados nas pesquisas de 2026. Foram analisados cinco cenários possíveis: em quatro deles, Lula perderia a eleição sem o padrão de voto jovem observado em 2022 (de 50,5% a 51,2% para a oposição); apenas no cenário mais otimista ele ainda venceria, embora por margem mínima (50,2%). Quando se considera também uma pequena perda de apoio entre eleitores acima de 25 anos, a desvantagem cresce ainda mais (51,9%). Tudo isso para dizer que a margem de 2022 foi estreita o suficiente para depender do voto da juventude – e que mudanças no comportamento político desse segmento podem ter impacto decisivo nas disputas eleitorais futuras.

Em síntese, o que os dados mostram é que a geração Z (16 a 24 anos), embora numericamente menos relevante do que já foi – representando 12% do eleitorado em 2026, contra 21% em 2002 – tornou-se politicamente mais imprevisível e progressivamente mais alinhada à extrema direita. E é justamente essa combinação – menor peso numérico, mas maior impacto ideológico na margem – que ajuda a definir o paradoxo eleitoral de 2026.

O que as pesquisas eleitorais por ora revelam, no fundo, não diz respeito a quem vai ganhar ou perder em outubro. Elas apontam para uma crise mais profunda de representação política na juventude, na qual o campo que historicamente se apresentou como alternativa crítica ao sistema parece não conseguir se consolidar, para parte significativa dessa geração, como uma alternativa plausível, atraente e capaz de oferecer perspectivas de futuro. Será a esquerda capaz de reverter esse cenário?

 

Felipe Amorim de Oliveira é cientista político, doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo IE-Unicamp e pesquisador Cátedra Celso Furtado da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Rafael Rodrigues da Costa é sociólogo e professor da FESPSP.

 

Este texto é baseado em análise de dados oficiais do TSE e do IBGE, com estimativas de preferência de voto derivadas de pesquisas dos institutos AtlasIntel, Datafolha e Nexus (abril/2026).

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