segunda-feira, 25 de maio de 2026

Hello, goodbye, MEIO

 Por Flávia Tavares

Do telhado do teatro Ed Sullivan, em Nova York, Stephen Colbert e David Letterman, ambos de terno e com sorrisos serelepes, atiraram (com a ajuda de homens mais jovens e fortes) duas poltronas ao solo. Depois, eles mesmos jogaram uma cadeira de escritório preta e várias melancias. A mira era um enorme logotipo da CBS, a emissora que abrigava, até a noite de quinta-feira, o programa The Late Show. Letterman foi o apresentador pelos 22 anos iniciais; Colbert, pelos 11 últimos. O canal anunciou o cancelamento do Late Show em julho do ano passado, encerrando a franquia mais bem-sucedida dos programas do tipo em qualquer métrica. Em audiência, com Colbert, o programa ficava à frente dos concorrentes apresentados por Jimmy Kimmel, da ABC, e Jimmy Fallon, da NBC. Em inteligência, sofisticação e prestígio, ainda mais adiante.

A CBS argumentou que cancelou Colbert porque vinha perdendo US$ 40 milhões por ano, à medida que o público migrou para o streaming. Mas a indústria cultural sabe que o que está por trás do movimento — se não exclusivamente, com muito mais peso — é o desejo da Paramount/Skydance, controladora da CBS, de silenciar Colbert, ferrenho crítico de Donald Trump, e, com isso, abrir caminho na Casa Branca para a aquisição da Warner Bros. Discovery. Colbert havia criticado o pagamento da quantia absurda de US$ 16 milhões pela Paramount a Trump para encerrar um processo sobre o programa 60 Minutes, chamando o acordo de “propina”. A aprovação do acordo pela FCC, o órgão regulador do governo americano para mídia, ocorreu dias após o anúncio do cancelamento.

A piada se virou contra os executivos e Trump. Se pode ser lida como uma decisão financeira da CBS, o cancelamento do Late Show não pode ser compreendido fora da era Trump e de sua desfaçatez ao se imiscuir com o mundo dos negócios, seja para tirar proveito financeiro também, seja para pressionar politicamente — e, no melhor dos mundos para ele, conseguir as duas coisas. Acontece que a tradição da livre expressão nos Estados Unidos transcende, em muito, a vulgaridade de Trump. Então, nos 10 meses em que esteve cancelado, mas no ar, Colbert tripudiou sobre os patrões sem qualquer cerimônia. Seguiu sapateando sobre Trump sem temor, vira e mexe com a sacada “o que vão fazer, me cancelar?”. E, na reta final do programa, convidou o antecessor para “destruir propriedade da CBS” com transmissão pela CBS.

Nesses 10 meses, Colbert também recebeu o apoio fervoroso dos colegas de talk-shows concorrentes. Além de Kimmel e Fallon, Colbert é muito próximo de John Oliver e Seth Meyers. Juntos, os cinco conduziram o podcast Strike Force Five, criado durante a greve de roteiristas de Hollywood em apoio ao movimento. Os quatro também estiveram, de uma tacada só, entre os convidados da última semana de Colbert. Nos últimos dias, alternaram-se entrevistados do naipe de Tom Hanks, Steven Spielberg, Pedro Pascal e Julia Louis-Dreyfus. Na frente mais política, Jake Tapper, da CNN, e uma descontraída entrevista com Barack Obama. Uma síntese bastante adequada do tamanho da deferência dos dois mundos entre os quais Colbert sempre transitou.

Mentores de luxo

Esse trânsito foi uma herança de seus dois mentores. David Letterman foi o apresentador de talk-show que inaugurou o mix das entrevistas jocosas de celebridades com esquetes engraçados e leves pitadas de crítica política. Jon Stewart é o apresentador de talk-show que inventou o formato de bancada satírica de notícia política para além do Saturday Night Live, como um programa em si mesmo, e que, apesar da comicidade — ou por causa dela —, é capaz de gerar alto valor crítico. Colbert foi revelado pelo segundo e sucedeu o primeiro. No meio do caminho, conduziu um show solo, The Colbert Report, em que interpretava um personagem, o de apresentador conservador um tanto sem noção. Trump faz aquele Colbert caricato parecer alguém absolutamente razoável.

Quando assumiu o Late Show e uniu as duas vocações, criou uma identidade própria. Fazia entrevistas sobre o lançamento mais chinfrim de Hollywood com a mesma sagacidade com que pressionava políticos. Sua condução era genuinamente engraçada, imensamente corrosiva e, ainda assim, elegante e terna. Não é uma combinação banal de se obter.

Nos últimos dias, Colbert optou por celebrar seu show em vez de lamentar seu fim. Entregou dignidade em vez de birra. Numa entrevista à revista People, explicou que quem deveria se constranger era Trump por ter gastado tempo, energia e poder com uma figura como ele, Colbert, um mero “palhaço”. “Isso diminui a presidência.” E no grand finale, no episódio terminal, fez seu monólogo de abertura, aquele em que fazia a maior parte das piadas mais ácidas contra Trump, sem mencionar o nome do presidente. Aliás, não mencionou nenhuma vez no show todo. Não era mais sobre ele.

Colbert não precisou sublinhar que o cancelamento de um programa que é uma tradição, ao mesmo tempo, de liberdade de expressão e tolerância só poderia mesmo estar acontecendo sob a atual administração Trump, que censura com apetite sem precedentes, alterando as regras de acesso de jornalistas à Casa Branca, restringindo vistos a jornalistas estrangeiros, reprimindo protestos com tiros em cidadãos americanos, retaliando advogados de casos contra seu governo etc. Colbert passou os últimos 11 anos levando a crônica desses e de outros acontecimentos aos lares americanos dispostos a ouvir e rir da própria desgraça.

O derradeiro convidado foi Paul McCartney. Naquele teatro os Beatles fizeram sua estreia em solo americano, numa apresentação inesquecível. Juntos, acompanhados também de Elvis Costello, Jon Batiste e da banda do Late Show, eles cantaram Hello, Goodbye. No coro, a equipe do programa e os familiares de Colbert subiram ao palco. O apresentador e Paul foram juntos apagar as luzes do lendário teatro. É o fim.



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