Perguntei, pensei, apurei e não encontrei paralelo em outro país. Representantes brasileiros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, ao lado de expoentes brasileiros do poder econômico, reúnem-se regularmente em círculo fechado, num país estrangeiro, para discutir o próprio Brasil.
Mais uma vez, realizou-se neste mês, em Nova York, a chamada "Brazil Week". Nas redes sociais, caminhando pela 5ª Avenida, governadores gravam vídeos em tom solene dizendo que "articulam parcerias internacionais". Empresários afirmam que estão ali para "buscar financiamento". Congressistas dizem que foram "apresentar o país". Magistrados acrescentam aos convescotes empresariais uma aparente camada de respeitabilidade. Durante alguns dias, multiplicaram-se cafés da manhã executivos, painéis, recepções e jantares em hotéis de cinco estrelas, como o Plaza ou o St. Regis. Americanos há poucos e, muitos deles, são remunerados a peso de ouro como "guest speakers" para falar sobre "tendências" e "conjunturas". No essencial, são eventos de brasileiros, para brasileiros, com brasileiros homenageando brasileiros, patrocinados por empresas brasileiras e, em alguns casos, custeados direta ou indiretamente por recursos públicos brasileiros.
A endogamia brasileira nem sequer é disfarçada. Um dos eventos em Nova York foi organizado pelo Lide, que o promoveu desta forma: "Cerca de 400 pessoas estarão presentes, entre empresários, senadores, deputados, governadores, presidentes de partidos políticos e pré-candidatos às eleições presidenciais deste ano. Todos vão debater o cenário eleitoral e perspectivas econômicas do Brasil. Um ambiente de diálogo qualificado e construtivo. Quem é líder, está no Lide!". O evento foi realizado em português, a poucos quarteirões da Times Square, e a lista de brasileiros presentes pode ser consultada aqui. Um voo de São Paulo para Nova York pela Latam custa cerca de R$ 4.000. Agora multipliquemos por 400.
O exterior funciona como selo de prestígio e de validação. A distância geográfica produz uma ilusão de internacionalização e de modernidade. Manhattan transforma em "agenda global" aquilo que, em Brasília ou São Paulo, pareceria apenas mais uma reunião com café de gôndola.
Além do provincianismo, a promiscuidade domina muitos destes eventos. Depois dos Estados Unidos, vem Portugal, com o 14º Fórum de Lisboa, organizado pelo IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), ligado a Gilmar Mendes, e conhecido em Brasília como "Gilmarpalooza". De 1º a 3 de junho centenas de representantes da elite institucional e corporativa brasileira atravessarão o Atlântico. Ministros do STJ, deputados federais, governadores, advogados, desembargadores, empresários e assessores reúnem-se em Lisboa sob o pretexto de discutir o Brasil.
Inúmeros colunistas já alertaram para a imensa falta de transparência desse evento. Quem paga as passagens e as diárias? Que compromissos oficiais justificam a presença de agentes públicos? Que reuniões paralelas ocorrem longe dos auditórios? Que interesses privados ganham acesso privilegiado a representantes do Estado brasileiro? Reportagem da Folha revelou que "Ministros das altas Cortes e da República, senadores, autoridades da PGR e PF e até Cade participaram dos eventos luxuosos do ex-banqueiro", incluindo encontros em Lisboa organizados durante o Fórum de Lisboa.
Tal como em Nova York, e com exceção da sessão de abertura, a presença local costuma ser residual. O destaque do Gilmarpalooza na imprensa portuguesa deverá ser limitado ou em formato de conteúdo patrocinado, com jornalistas portugueses perplexos diante da romaria de altas figuras de um Estado estrangeiro.
Além do provincianismo e da promiscuidade, há a mercantilização. Esses eventos têm um mercado próprio, no qual o produto é o acesso. O Lide, com seus fóruns, almoços, missões e encontros empresariais, é talvez a expressão mais acabada dessa lógica. Vende-se a possibilidade de estar perto, de circular, de aparecer na fotografia certa, de dividir o salão com ministros, magistrados e congressistas. Por horas ou dias, compra-se a entrada em um quadrado de sombra entre sociabilidade, lobby, favorecimento e negócio. Se a Constituição separa funções, o networking mistura interesses. E quem organiza ganha dinheiro com quem ganha dinheiro. De janeiro de 2024 a agosto de 2026, entre eventos realizados e programados, a agenda do Lide contabiliza 230 encontros.
Por isso, quando vejo as listas de participantes nestes eventos, procuro os ausentes. São eles que me interessam. Há ausências que melhoram uma biografia.

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