sexta-feira, 8 de maio de 2026

Depois de Ciro, o medo de ser o próximo, Adriana Fernandes, FSP

 O celular de Ciro Nogueira toca. O nome de Daniel Vorcaro aparece na tela iluminada do aparelho e a reportagem da Folha, que entrevistava o presidente do PP, flagra a ligação.

Era abril de 2025, e o senador tinha apresentado, apenas cinco dias após o anúncio da compra do Master pelo BRB, proposta para aumentar a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) dos bancos.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (gravata vermelha), durante reunião de bancada do partido em que foi formalizado o apoio do partido à candidatura de Hugo Motta à presidência da Câmara. Ao lado, o então presidente da Câmara, Arthur Lira - Pedro Ladeira - 28.out.2024/Folhapress

O aumento valeria exclusivamente para as instituições financeiras com maior lucro, os bancões. A emenda foi apresentada ao projeto do Executivo que isentava o IR para quem ganha até R$ 5.000 —a proposta mais importante para Lula.

O relator era Arthur Lira, aliado de Ciro e ex-presidente da Câmara. O aperto tributário com foco nos grandes bancos chamou atenção de pessoas envolvidas nas negociações em torno de uma saída para a fatia do Master que não seria absorvida pelo BRB e dependia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

A ofensiva foi uma retaliação aos banqueiros, que resistiam ao socorro com uso do fundo, que tem os grandes bancos como os maiores contribuintes.

A cena retrata o modus operandi dos operadores de Vorcaro no Congresso, tendo Ciro, ex-ministro de Jair Bolsonaro, como o grande anfitrião da festa.

Mesmo depois da apresentação da emenda para ampliar o valor do seguro do FGC, Vorcaro continuou usando o senador para colocar pressão total a favor do Master. Foi bem pago.

Na véspera do veto do BC à operação do BRB, líderes de partidos do Centrão, com destaque para o deputado Cláudio Cajado (PP), assinaram requerimento para acelerar a tramitação de um projeto que concedia ao Congresso o poder de destituir o presidente e diretores do BC.

Alvo da operação Compliance Zero da PF, autorizada pelo ministro André Mendonça, Ciro puxou a fila dos políticos no escândalo.

O medo de ser o próximo se instalou. No Senado, o silêncio é quase sepulcral. Ninguém quer se pronunciar e provocar uma guerra contra ele, que controla um partido poderoso. Melhor aguardar.

Se Mendonça, um dos derrotados no veto de Jorge Messias ao STF, mandar o senador usar tornozeleira eletrônica, o cenário muda.

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