A CNLF, empresa que pertence ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e é investigada pela PF (Polícia Federal), comprou duas mansões e dois apartamentos de luxo em São Paulo durante o período em que recebeu uma mesada do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Hoje, a empresa é dona de um apartamento na rua Oscar Freire e de duas mansões em São Paulo. Um segundo apartamento, comprado em julho de 2024, foi usado para pagar uma das mansões e não pertence mais ao senador.
A CNLF, sigla formada pelas iniciais do senador (Ciro Nogueira Lima Filho), recebeu pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil do Master em 2024 e 2025, de acordo com investigação da PF. Os investigadores apuram se Nogueira teria recebido propina para agir a mando de Vorcaro no Congresso —ele nega.
A existência da primeira mansão de Nogueira foi revelada em reportagem do Portal Metrópoles. De acordo com o site, ela tem 878 m² e fica no Jardim Europa, bairro nobre da capital paulista. Como pagamento para a casa ainda em construção, o senador teria desembolsado R$ 30 milhões, dando em troca o apartamento tríplex adquirido em julho de 2024 —neste momento a CNLF de Nogueira já era sócia de uma empresa do primo de Vorcaro.
A segunda mansão tem 587 m² e fica no Condomínio Village Cidade Jardim. Ela custou R$ 5 milhões, foi comprada em outubro de 2025 e é dividida igualmente entre a empresa de Ciro e seu genro, o médico Pedro de Brito.
"É uma casa que comprei para minha filha em que paguei 50% e o pai do meu genro pagou outros 50%", afirmou o senador à Folha.
A CNLF também é dona de um apartamento de 105 m² na rua Oscar Freire comprado por R$ 660 mil em agosto de 2024. "É um pequeno apartamento que comprei para minha ex-mulher Iracema [Portela], que é minha sócia", disse o senador.
Outra empresa de Nogueira, a Fazendas Reunidas Nogueira Lima, é dona de um lote de 940 m² em Águas Claras, no Distrito Federal, comprado em abril de 2024 por R$ 5,3 milhões.
Essa mesma empresa, a Fazendas Reunidas, comprou um apartamento de 134 m² no Itaim Bibi por R$ 1,350 milhão em 9 de outubro de 2025. O vendedor foi a CNLF, que havia adquirido o apartamento cerca de um ano antes, em 12 de agosto de 2024, por menos da metade do preço: R$ 650 mil.
A mudança nos valores se deve a uma reforma, justificou Nogueira. Segundo ele, o imóvel é utilizado pela sua mãe e sua irmã.
O parlamentar disse ainda que sua mãe é dona de 93% da Fazendas Reunidas. Já a CNLF "é praticamente toda minha e de minhas filhas".
De acordo com o senador, todos os imóveis foram comprados com recursos de suas empresas. "Nada a ver com o Master", disse.
A CNLF também vendeu outro apartamento no Jardim Paulista por R$ 6,5 milhões em abril de 2025 para a Aliqum Participações, que pertence a uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. A offshore se chama Tedax Partners e não é possível saber seu beneficiário final.
O representante legal da Aliqum é o empresário Carlos Santana. Ele foi procurado por e-mail às 15h27 de 12 de maio, por meio da assessoria de imprensa do Tecnobank, empresa da qual é dono, mas não respondeu.
De acordo com Nogueira, sua filha morava no apartamento que foi vendido quando ela se mudou para a mansão no Village Cidade Jardim. Os recursos serviram para viabilizar a compra do tríplex, que posteriormente foi dado como pagamento para a mansão no Jardim Europa.
Todos os imóveis foram adquiridos durante o período no qual a CNLF recebia uma mesada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, segundo a Polícia Federal.
No relatório do ministro André Mendonça do STF (Supremo Tribunal Federal) autorizando a operação, há mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe Vorcaro, sobre pagamentos a Nogueira.
Em 21 de junho de 2024, Felipe pergunta a Daniel se é para continuar os pagamentos de R$ 300 mil. Um ano depois, em 30 de junho de 2025, Felipe pergunta se é para continuar com os R$ 500 mil ou se ele poderia pagar R$ 300 mil naquele mês.
Os pagamentos teriam saído de uma empresa de Felipe, a BRGD, para a CNLF, de Ciro. A CNLF é administrada pelo irmão do senador, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima.
Em abril de 2024, a CNLF, de Nogueira, comprou 30% da Green Investimentos S.A., que era presidida por Felipe Vorcaro, primo de Daniel.
Os pagamentos e a venda de participação poderiam estar ligados, segundo apontou a PF, a uma atuação de Nogueira como parlamentar em prol do dono do Banco Master. Como exemplo disso estaria a apresentação de uma emenda aumentando a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) em caso de quebra de bancos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Ela foi apresentada pelo senador em agosto de 2024, durante o período da suposta mesada, e foi chamada de Emenda Master, pois ia ao encontro dos interesses comerciais do banco de Vorcaro, conhecido pelo modelo de negócios baseado na venda agressiva de CDBs, com rentabilidade bem acima da média, e protegidos pelo FGC até o valor de R$ 250 mil por CPF.
Em mensagem de Vorcaro à sua então namorada, Martha Graeff, que apareceram na CPI do INSS, o ex-banqueiro comemorou a emenda de Nogueira, a qual chamou de "bomba atômica". No relatório de Mendonça, a PF afirma que a emenda foi redigida por um executivo do Master e celebrada por Vorcaro: "saiu exatamente como mandei".
Por resistência do Banco Central e de parlamentares, a emenda não foi aprovada.
Em vídeo divulgado no dia (12), Nogueira negou ter recebido pagamentos ilícitos. Em seguida, ainda no dia 12, ele reapresentou a emenda Master.
"Nunca recebi nenhum valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade que seja, nesse caso ou em qualquer outro. (...) Temos uma concessionária de motocicletas que fatura em torno de R$ 400 milhões por ano. E me acusam de depósito de R$ 3 milhões nessa empresa. Isso é absolutamente comum em empresas dessas. Muitas peças e serviços são pagos em dinheiro, tudo com nota fiscal, tudo descrito pela contabilidade", disse o parlamentar na gravação.

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