Pela segunda vez em menos de cinco anos, o mundo se vê às voltas com um choque significativo nos preços do petróleo desencadeado por conflitos geopolíticos.
Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia jogou o barril do tipo Brent para acima dos US$ 120 e expôs a fragilidade europeia diante de um fornecedor que se mostrara, de uma hora para outra, hostil.
Agora, em 2026, a escalada militar entre Estados Unidos e Irã, com restrições no estreito de Hormuz —por onde transitam cerca de 35% do petróleo bruto comercializado por via marítima—, produziu um evento que o Banco Mundial classificou como o maior choque de oferta desfavorável já registrado, com redução inicial estimada em 10 milhões de barris/dia (cerca de 10% da demanda global). O Brent, que oscilava em torno de US$ 70 antes do conflito, saltou para a casa dos US$ 110 a US$ 120.
Os efeitos macroeconômicos já são visíveis no mundo todo, sobretudo na seara inflacionária. No Brasil, as expectativas de inflação para 2026 subiram de 3,9% para quase 5%. No mundo como um todo, o FMI revisou a inflação esperada para 2026 de 3,8% para 4,4% (de 4,8% para 5,5% no caso dos países emergentes e em desenvolvimento).
Há, contudo, um aspecto subdimensionado nas análises de curto prazo. Choques dessa magnitude não apenas pressionam preços e atividade no momento; eles também reordenam decisões de investimento por vários anos. Foi assim depois dos dois choques do petróleo nos anos 1970. É plausível esperar movimento análogo agora, com vetor mais nítido em direção à eletrificação, aceleração da adoção de fontes renováveis na geração de eletricidade e, ainda, maior uso de biocombustíveis.
A racionalidade econômica é direta. Quando o preço relativo de uma fonte sobe e, sobretudo, quando sua volatilidade se eleva de forma persistente, o cálculo de viabilidade dos substitutos melhora. Isso amplia o prêmio embutido em projetos de energias renováveis, cuja estrutura de custos é majoritariamente determinada pelo capital investido inicialmente.
Mas o ponto decisivo não é apenas econômico. É de segurança energética. A lição mais importante de 2022 e 2026 é que a concentração geográfica da oferta e da logística de hidrocarbonetos converteu o suprimento em variável geopolítica de primeira ordem. Países importadores líquidos passaram a precificar não somente o barril mas a probabilidade de que ele não seja entregue. Daí a virada observada na UE desde 2022, com o RePowerEU acelerando solar, eólica e hidrogênio, e o reforço, em 2026, dos planos de descarbonização no Japão, na Coreia do Sul e na Ásia emergente.
Os biocombustível ganham relevância adicional. Diferentemente do petróleo, sua produção é geograficamente menos concentrada e, no caso brasileiro, apoia-se em infraestrutura sucroenergética madura. Etanol, biodiesel, biometano e os SAF (combustíveis sustentáveis de aviação) operam dentro da infraestrutura logística existente, o que reduz custos de transição vis-à-vis a eletrificação plena, especialmente em segmentos de difícil descarbonização.
Para o Brasil, exportador líquido de petróleo e simultaneamente líder global em bioenergia, abre-se janela rara: a de combinar ganho de termos de troca a curto prazo com posicionamento estratégico em mercados que tendem a se expandir estruturalmente.
Nada disso significa que o petróleo desaparecerá em horizonte próximo. Significa, sim, que cada novo choque tende a acelerar a transição energética. A diferença entre 2022 e 2026 é que o segundo episódio chega quando o primeiro ainda não foi plenamente digerido —e isso muda expectativas.
Investimentos em renováveis e biocombustíveis deixaram de ser primordialmente uma escolha apenas climática para se tornar, também, política de Estado em segurança nacional.
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