Xi Jinping sempre gostou da "armadilha de Tucídides". Falou dela quando se encontrou com Barack Obama. Mais recentemente, voltou ao tema com o nosso Donald.
É fácil perceber o porquê. O livro de Graham Allison sobre o assunto —o brilhante "A Caminho da Guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?"— começa com uma citação de Napoleão Bonaparte, bastante lisonjeira para Pequim. "Deixem a China dormir", dizia o pequeno tirano, "quando ela acordar, abalará o mundo".
A China já acordou. E agora? Agora ecoam as palavras de Tucídides na sua "História da Guerra do Peloponeso": "Foi a ascensão de Atenas e o medo que ela incutiu em Esparta que tornaram a guerra inevitável".
Xi imagina que a China seja Atenas; os Estados Unidos serão Esparta; a possibilidade de conflito é, portanto, elevada. Eis a armadilha.
Graham Allison concorda: nos 16 casos históricos analisados por ele –uma potência ascendente, uma potência dominante alarmada–, houve guerra em 12. Os conflitos mais destrutivos aconteceram no século 20, quando a Alemanha, duas vezes, e o Japão desafiaram a supremacia do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.
Como defende Allison, a guerra entre os Estados Unidos e a China é bastante provável; mas, cautela, não é inevitável. Houve quatro casos históricos que escaparam à "armadilha de Tucídides", embora não deem o mesmo ibope na arena das relações internacionais.
Um deles é facilmente reconhecível por qualquer amante da história luso-brasileira: a rivalidade entre Portugal e Espanha na passagem do século 15 para o 16. Portugal era a potência dominante graças à exploração marítima iniciada em 1415, com a conquista de Ceuta, no norte da África.
Mas as coisas mudaram em 1469, com o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Uma Espanha unificada concluiu a Reconquista em 1492 e, com a viagem de Cristóvão Colombo às Américas no mesmo ano, assumiu-se como rival dos portugueses na disputa pelos mares.
A guerra foi evitada por um tratado assinado em Tordesilhas, em 1494, que dividiu entre Portugal e Espanha "as terras descobertas e por descobrir". Traçou-se uma linha imaginária no Atlântico, 370 léguas a oeste de Cabo Verde, que determinava: o que ficasse a leste seria português; o que ficasse a oeste seria castelhano.
Foi assim que a "Garota de Ipanema" acabou cantada em português, e não em castelhano. Foi assim que se compraram décadas de paz.
Os Estados Unidos e a China precisam de um novo Tratado de Tordesilhas. Não em termos literais, como é evidente; Tordesilhas serve aqui como metáfora de contenção entre potências rivais.
Washington e Pequim não precisam dividir o mundo; precisam aceitar que a sua rivalidade só será suportável se for regulada por regras, mediações e reconhecimento mútuo de interesses vitais.
Sem isso, quem arbitra um incidente no mar do Sul da China? Quem impede que Taiwan passe de crise diplomática a guerra aberta? Quem estabelece limites ao armamento nuclear, à inteligência artificial ou aos ataques cibernéticos?
O Tratado de Tordesilhas é, com certeza, expressão de um tempo eurocêntrico e imperialista. Mas, anacronismos à parte, garantiu uma ordem mínima que permitiu a coexistência entre rivais.
Nos restantes três casos de "sucesso" apresentados por Graham Allison, a lição repete-se: a ascensão dos Estados Unidos perante um Reino Unido ainda dominante, no início do século 20; a rivalidade nuclear entre Washington e Moscou durante a Guerra Fria; e o regresso de uma Alemanha reunificada ao centro da Europa depois da queda do Muro de Berlim só não desembocaram em guerra porque houve, respectivamente, apaziguamento, contenção e integração institucional na União Europeia.
Para regressar a Tucídides: mesmo Atenas e Esparta, depois da chamada Primeira Guerra do Peloponeso, conheceram 30 anos de paz antes da destruição total. Como? Pela negociação bilateral –e, quando esta falhava, pela arbitragem do Oráculo de Delfos.
A "armadilha" existe. Mas ela só se fecha quando potências rivais começam a confundir acomodação com rendição –e compromisso com fraqueza.
Quando isso acontece, a guerra é o passo seguinte. E, ao contrário do que talvez pense Xi Jinping, a potência ascendente nem sempre se impõe à potência dominante. Nos 12 conflitos analisados por Allison, isso só aconteceu em metade deles.
Se a China se imagina a nova Atenas, alguém deveria recordar ao presidente Xi Jinping que, na Guerra do Peloponeso, foram os atenienses que perderam.

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